Blog destinado a divulgar a religião, práticas, lendas, folclore e mitologia germano-escandinava, mas em especifico a mitologia nórdica (também conhecida como viking).
segunda-feira, 6 de abril de 2026
Quem é o rei dos deuses?
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
Qual é a arma divina mais poderosa?
Como bem sabemos, o panteão nórdico consistia de muitos deuses e deusas guerreiros, com características bélicas. Muitas divindades possuíam itens preciosos e de grande poder. Fotos de Internet.
Existem várias armas divinas na cosmovisão nórdica: a espada envenenada Tyrfingr, a espada mortal dotada de vontade própria que pertenceu a Freyr (não nomeada), os sapatos especiais de Vidar (Víðarr), a espada de Sigurd (Sigurðr), o cinturão da vitória de Hod (Höðr), a lança Gungnir, e muitas outras.
Mas, o Skáldskaparmál nos informa que a arma mais eficaz e poderosa dos deuses era o martelo Mjolnir (Mjöllnir). O Mjolnir inclusive ficou na frente da Gungnir, esse veredito foi dado pelo trio supremo dos deuses: Odin (Óðinn), Thor (Þórr) e Freyr.
As características do Mjolnir eram: nunca errar o alvo, sempre retornar a mão que o atirou, a arma podia ficar pequeno ou grande e ser colocado dentro da camisa de Thor, era inquebrável e nada podia lhe resistir a pancada, mas o cabo era pequeno. A força do golpe da arma dependia do desejo de Thor ("Þá gaf hann Þórr hamarinn ok sagði, at hann myndi mega ljósta svá stórt sem hann vildi, hvat sem fyrir væri, at eigi myndi hamarrinn bila, ok ef hann yrpi honum til, þá myndi hann aldri missa ok aldri fljúga svá langt, at eigi myndi hann sækja heim hönd, ok ef þat vildi, þá var hann svá lítill, at hafa mátti serk sér. En þat var lýi á, ar forskeftit var heldr skammt. Þat var dómr þeira, at hamarrinn var beztr af öllum gripunum ok mest vörn í fyrir hrímþursum"). Quanto mais furioso Thor ficava, mais forte era a pancada. Nos desafios de Utgard-Loki (Útgarðr-Loki), o Thor bateu três vezes numa montanha de Jotunheim (Jötunheimr) pensando ser um gigante, que abriram profundamente um vale. Lembre-se: tudo em Jotunheim é extremamente colossal, muito maior que coisas de Midgard (Miðgarðr). Para ter uma ideia, a luva do gigante que Thor pensou ter golpeado serviu de palácio pro filho de Odin, Loki, Thjálfi (Þjálfi) e Röskva passarem a noite. Esse gigante imenso projetou sua imagem na montanha onde Thor bateu. A fortaleza desse gigante era colossal também e muito maior. Depois que Thor soube que foi enganado, ele voltou para a fortaleza do gigante para destruí-la em pedaços, mas tudo havia sumido (Ok þá snýst hann aftr til borgarinnar ok ætlast þá fyrir at brjóta borgina. Þá sér hann þar völlu víða ok fagra, en enga borg.). O texto original da narração conta que Thor tinha poder pra tal feito e o gigante sabia disso e ocultou seu castelo com mágica, agora imagine o tamanho dessa fortaleza? Lembrando que a luva do gigante foi usada como palácio, o próprio gigante era colossal, então, imagine o tamanho do castelo dele? Talvez seja do tamanho de um planeta!
Vale lembrar que Thor é criador de constelações como: Aurvandilstá ("Dedão de Aurvandill") e Þjaza Augu ("Olhos de Þjazi"). Fica subentendido que quem cria estrelas, pode destrui-las. Isso coloca Thor na categoria de um deus criador e destruidor.
O poder de Thor é tal que ele faz mundos tremerem: isso é descrito no Lokasenna ("Fjöll öll skjalfa/Todas as montanhas tremem"), Þrymskvida ("björg brotnuðu, brann Jörð loga/as montanhas se partiam, as chamas chamuscavam a Terra") e Skáldskaparmál ("Knóttu öll (en Ullar endilóg fyr mági Grund vas grápi hrundin) ginnunga vé brinna, þás hofregin hafrar hógreiðar fram drógu (seðr gekk Svölnis ekkja sundr) at Hrungnis fundi/Todos os santuários dos falcões (os Céus) encontrava-se em chamas, por causa do padrasto de Ullr (Thor), a Terra era sacudida pela tempestade de granizo, o Ginnunga Vé (Santuário dos deuses, os Céus) queimava quando o Hofregin (Templo do Poder, que é Thor) dos bodes do dócil carro ia em direção ao encontro de Hrungnir; - a viúva (Jörð/Jörð) de Svölnir (Odin) praticamente partia em pedaços -"). Os Céus aqui são os 9 mundos (e/ou a abóbada celeste) porque Ginnunga é o local primordial onde a criação foi estabelecida e onde Yggdrasil mantém três raízes que liga o cosmo, a árvore sagrada que é cercada por rios sagrados.
A descrição do Skáldskaparmál não deixa dúvida: Thor faz a Terra (sua mãe) tremer e até em certos pontos desmoronar, tamanho é o seu poder! A passagem do Thor pelo céu desta narração específica demonstra o quanto o deus é perigoso: seu passeio celestial faz os céus arderem e queimarem. O poema Grímnismál menciona que Thor anda a pé quando vai julgar até Yggdrasil (Yggdrasill), nadando através de rios, o que faz as águas ferverem, tal é o seu poder, o seu calor. Tal descrição é similar ao de Zeus/Júpiter quando está colérico no mito greco-romano. A demonstração é clara: Thor e Zeus/Júpiter tinham poder para ameaçar toda criação! Veja:
253. And now his thunder bolts would Jove wide scatter, but he feared the flames, unnumbered, sacred ether might ignite and burn the axle of the universe: and he remembered in the scroll of fate, there is a time appointed when the sea and earth and Heavens shall melt, and fire destroy the universe of mighty labour wrought. Such weapons by the skill of Cyclopes forged, for different punishment he laid aside - for straightway he preferred to overwhelm the mortal race beneath deep waves and storms from every raining sky. Metamorphoses, Ovid.
253. E agora seus raios, Júpiter, espalhariam-se por toda parte, mas ele temia que as chamas, incontáveis, do éter sagrado pudessem inflamar e queimar o eixo do universo: e ele se lembrou no pergaminho do destino, que há um tempo determinado em que o mar, a terra e os céus derreterão, e o fogo destruirá o universo de trabalho grandioso. Tais armas, forjadas pela habilidade dos Ciclopes, ele rejeitou para outro castigo – pois preferia imediatamente subjugar a raça mortal sob ondas profundas e tempestades de todos os céus chuvosos. (Tradução).
No mito grego, Zeus/Júpiter recebeu o raio e o relâmpago dos Hecatonquiros depois de serem libertados do Tártaro pelo filho de Cronos, armas estas que estavam sepultados nos flancos da terra. No norte, os anões forjaram o martelo que foi dado a Thor, depois de Loki cortar os cabelos de Sif, que é uma deusa da terra (Sif aparece como outro nome de Jord na Edda de Snorri).
O martelo também podia aumentar de tamanho, algo que é perceptível durante a pesca de Thor. Quando Thor fisga e puxa a serpente do mar, ele cresce ficando gigante apoiando os pés no fundo do mar, ele levantou e atirou o martelo no monstro mesmo depois da linha ter sido cortada por Hymir. Então, o martelo estava ajustado ao seu tamanho gigante. Assim, a arma sagrada podia aumentar e diminuir de tamanho conforme a necessidade de Thor.
"Mjolnir" é de significado incerto, mas é provável estar relacionado a palavra nórdica mala/mola que significa "esmagar/moer" ou talvez do sueco moln que significa "armando nuvem negras". Ambos significados são possíveis: o raio/relâmpago e o trovão era a arma mais devastadora e destruidora nas religiões antigas e faz sentido significar nuvem, pois é da onde nasce o raio. Outro possível significado associado é a palavra russa molnija que significa "relâmpago", que também faz sentido.
FONTES:
All the Mountains Shake Seismic and Volcanic Imagery in the Old Norse Literature of Þórr, Declan Taggart
An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson
Edda, Anthony Faulkes
Gods And Myths Of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson
Mitologia Greco-romana vol. 1, René Ménard
Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson
The Poetic Edda, Carolyne Larrington
Thor's Hammer, Hilda Roderick Ellis Davidson
SITES CONSULTADOS:
https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar
https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i
http://heimskringla.no/wiki/Ynglinga_saga
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
Thor era representado como personificação do céu?
Thor (Þórr), o filho primogênito de Odin (Óðinn) e Jord (Jörð), é muito conhecido pelas pessoas por ser o deus da força e do raio. Fotos de Internet.
Segundo o Gylfaginning de Snorri, o Thor nasceu forte e poderoso e por isso vencia todas as criaturas. Thor é explicitamente a personificação do poder e da força.
Mas, quando analisamos as fontes antigas mais atentamente, nós podemos ver que o deus é a própria personificação do céu para os antigos escandinavos.
E como cheguei nessa conclusão? Simples! Eu segui as metáforas nórdicas (kenningar). A barba ruiva de Thor foi associada as nuvens de tempestades por Hilda R. E. Davidson. Eu não discordo dessa grande autora e acadêmica, porém os sprites (duendes) vermelhos vistos durante as tormentas podem estar relacionadas também, pois lembram fios eriçados tal como nas descrições dos cabelos de Thor no Þrymskviða.
O poema Húsdrápa associou os olhos brilhantes de Thor (innmáni ennis ou "lua interior da sobrancelha") com a Lua (Máni). Thor também é conhecido por ter criado as constelações "Olhos de Thiazi (Þjaza Augu)" e "Dedão de Aurvandill (Aurvandilstá)". Na idade média, nas ilustrações, Thor era representado com 12 estrelas na cabeça.
No Þórsdrápa, compilado no Skáldskaparmál, quando Thor vai ao encontro de Geirrod (Geirröðr), as duas filhas do gigante levantaram a cadeira onde o deus se sentou tentando fazê-lo se chocar com o teto da residência, mas o filho de Odin conseguiu impedir a ação, a cabeça de Thor é referenciada como o Céu e seus olhos novamente associados a Lua (hám himni loga brátungls). O combate entre eles parece ser uma referência entre o poder celeste e o poder ctônico.
O duelo entre Thor e Hrungnir também parece indicar um "embate celestial". Thor seria a representação do céu e do raio que esmigalha as altas montanhas representados por Hrungnir e seu aliado Mökkurkálfi. Thjalfi (Þjálfi) seria o vento. A ideia de lascas de pedra na cabeça de Thor parece indicar que era como os meteoritos eram entendidos pelos escandinavos. Eles caiam do céu e ardiam, e o povo talvez acreditassem que havia ocorrido uma batalha entre Thor e os gigantes. O martelo era a representação do relâmpago que saia das nuvens. Raios também saiam dos olhos do deus.
É comum na poesia dos escaldos ver partes do corpo humano e divino ser relacionados com a natureza, porém isso é muito importante porque liga esse entendimento a cosmovisão pagã, a natureza e a maioria dos deuses foram feitos das partes do cadáver de Ymir pelo trio divino criador. Então, é natural entender dessa forma, fazer essa associação através de metáforas. Vale lembrar que o cérebro de Ymir foi transformado em nuvens e o seu crânio no céu pelos deuses, mas isso não desqualifica a associação de Thor com esses elementos. Thor é o regente deles.
Então, com esses exemplos metafóricos, podemos entender que Thor era visto como a personificação da abóbada celeste, seus cabelos eram as nuvens avermelhadas de tempestades (ou sprites), sua cabeça o céu e seus olhos a Lua. Essa imagem simbólica parece ser melhor compreendida quando enxergamos Thor como protetor dos deuses e homens e ele seria a "barreira" contra os gigantes que vivem do lado de fora. Vale lembrar que na cosmovisão nórdica, haviam 9 céus uns por cima dos outros (os céus dos 9 mundos). Thor (o ar, atmosfera) era filho de Odin (Céu primordial) e de Jord (a Terra). Com o nascimento de Thor, Odin foi distanciado de Jord, e assim o filho herdou os domínios do pai. As viagens constantes de Thor para o leste (para destruir Trolls) e para o oeste (retorno para o seu lar) lembra o movimento do Sol pelo céu. Algumas fontes indicam que Asgard (Ásgarðr) ficava no oeste.
Odin, Thor e Týr (Týr) são a trindade celeste, o primeiro representa o céu noturno/primordial, o segundo representa o céu tempestuoso e o terceiro representa o céu luminoso, diurno.
O Zeus dos gregos era visto de forma parecida na antiguidade, nos hinos órficos, Zeus era o céu. O Sol (Hélios) era chamado de "Olho de Zeus". Thor foi identificado com o romano Júpiter, o equivalente do Zeus, em alguns manuscritos antigos. A quinta feira é a prova disso, pois é o dia sagrado desses três deuses.
FONTES:
As Similaridades Entre Þórr, Perkunas, Zeus, Júpiter, Indra e Héracles, Marcio Alessandro Moreira
Edda, Anthony Faulkes
Myths and Symbols in Pagan Europe Early Scandinavian and Celtic Religions, Hilda Roderick Ellis Davidson
Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson
Teutonic Mythology Vol. 1, Jacob Grimm
The Poetic Edda, Carolyne Larrington
SITES CONSULTADOS:
quarta-feira, 1 de maio de 2024
Os deuses e o Halo divino
Hoje é muito comum ver halos e/ou auréolas nas representações nas artes de divindades Greco-romanas, no Hinduísmo, no Budismo e até na arte sacra da igreja (Cristianismo). O halo divino e/ou as auréolas são símbolos do poder celestial e também do conhecimento superior, o que distingue o divino do comum e do ordinário. O halo na arte pode ser representado por um disco solar, raios tipo de um zigue zague (feixe de luz) ou auréola. Fotos de Internet.
Hélio o deus sol, Apolo (que mais tarde é identificado com o primeiro), Krishna, Hathor, Sekhmet, Rá, Dionísio, Perseu, Nike, Ares, Afrodite, Jesus e outros aparecem com esse sinal na arte e nas descrições literárias que os distingue dos mortais. Contudo, alguns personagens importantes do mundo greco-romano, santos da bíblia e de outros povos também aparecem como halo na cabeça, mas a ideia é a mesma: os imperadores eram considerados e até adorados como divinos, e os santos foram venerados ao longo da história, ou seja, alguns homens distintos eram assim representados de acordo com suas crenças. Vale lembrar que nem sempre as divindades eram representados com halo.
Este símbolo divino também aparece no extremo norte. Nas lâminas da era do bronze escandinavo (cerca de 1800-500 a.C.) podemos ver um ser ou dupla de homens e/ou divindades com halo na cabeça.
Curiosamente o Thor é descrito de forma similar também: segundo se acredita era possível obter fogo (que também representa o raio celeste) da cabeça de Thor através de um ritual relatado entre os Lapões onde o deus era conhecido e venerado como "Horagalles". Esse rito parece ter conexão com o combate de Thor e Hrungnir. Os Æsir ("deuses") é outro exemplo: as runas que formam a palavra que os define são as runas *Ansuz ("deus", a runa A) e *Sowilo ("sol", a runa S), o que indica que são deuses solares, da luz. Os deuses ainda são descritos como seres brilhantes nas fontes.
Em 1555, o sueco Olaus Magnus compilou a história de seu povo, lendas e folclore e ele descreveu o deus Thor com 12 estrelas ao redor da cabeça (Thor autem cum corona, & sceptro, ac XII stellis defignabatur), que talvez simboliza o raio solar divino, tal como o halo.
Existe outra versão dessa imagem também, porém similar:
Muito mais tarde, os deuses Thor e Odin foram sendo relacionados a esse sinal divino no manuscrito Nks1867 4to de 1760 e SÁM 66 de 1765. Note que as estrelas são atadas as cabeças dos dois deuses por um tipo de fio.
A deusa Sól da idade do bronze nórdico aparece nos petroglífos também puxando seu carro. O aro celeste aparece nas mais variadas formas, tal como um disco, um disco rodeado por aves ou pessoas, uma roda solar, e outros.
A deusa Sól é a divindade que rege a jornada do astro solar, mas Thor e Odin parecem representar seu poder, já que os dois deuses eram associados as estrelas (Odin é tido como o criador das estrelas junto com seus irmãos, Thor era conhecido por criar constelações). Freyr também era conectado ao sol.
Então, podemos deduzir que tal ideia (do halo) era conhecido no norte desde a era do bronze e permaneceu nas sucessivas gerações através da oralidade. Vale lembrar que os deuses da idade do bronze era bastante similar aos da era viking, embora haja muito espaço de tempo entre eles, mas podem muito bem ser suas evoluções religiosas.
Abaixo algumas representações de deuses com o disco solar, halo ou auréola de certas culturas antigas:
FONTES:
Dictionary Of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall
Edda, Anthony Faulkes
Gods And Myths Of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson
Historia de Gentibus Septentrionalibus, Olaus Magnus
Pagan Scandinavia, Hilda R. E. Davidson
Saxo Grammaticus Gesta Danorum: The History of the Danes Volume I, trad. Peter Fisher
Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson
Shadows of a Northern Past Rock Carvings of Bohuslän and Østfold, John Coles
The Chariot of the Sun and Other Rites and Symbols of the Northern Bronze Age, Peter Gelling e H. R. E. Davidson
The Poetic Edda, Carolyne Larrington
SITES:
https://www.arhantayoga.org/pt/chakra-da-coroa-a-energia-divina-do-chakra-sahasrara/
https://www.britannica.com/art/halo-art
https://www.cais-soas.com/CAIS/Religions/iranian/Zarathushtrian/halo_its_origin.htm
https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar
sábado, 6 de janeiro de 2024
Se Odin é o Pai de Tudo, então, quem é a Mãe de Tudo?
É bem sabido que Odin (Óðinn) é o Pai de Tudo/Todos e por isso mesmo chamado de "Alföðr" (de allr "tudo/todos" + föðr "pai" do nórdico arcaico). Na sua Edda em Prosa, Snorri afirmou isso se apoiando no poema Grímnismál, onde o próprio deus revelava seus muitos epítetos. Odin era assim chamado por ser o pai dos deuses e homens, uma posição compartilhada pelo cabeça de vários panteões como Zeus, Júpiter, Dyaus e outros.
Odin é pai de Thor (Þórr), Baldr, Tyr (Týr), Bragi, Heimdallr, Hod (Höðr), Vidar (Víðarr), Vali (Váli), Ullr, Hermod (Hermóðr), Skjold (Skjöldr), Sigi, Meili, Nepr, Hildólfr, Vegdeg, Ítreksjóð, Sæmingr, Froger, Jord (Jörð), e outros. Para melhor compreensão leia os posts anteriores com o marcador "origens".
Depois dessa pequena introdução, vamos agora pra ver quem é a Mãe de Tudo/Todos que no nórdico arcaico seria Almæðr (de allr "tudo/todos" + mæðr "mãe"). A deusa candidata a essa vaga é: Jord, a Mãe-Terra. Jord possuía muitos nomes associados a terra (e alguns deles relacionados a outras divindades): Nerthus, Sif, Fjörgyn e Fjörgynn, Hlóðyn, Fold, Land, Aur, Grund, Vangr, Sandr, Hlíð, Völlr, Fjöll, etc (essas denominações são mencionadas no Skáldskaparmál e Alvíssmál).
Como Jord/Fjorgyn/Hlodyn (Fjörgyn/Hlóðyn) ela gerou Thor e provavelmente Meili e Ullr com Odin; como Sif ela gerou Thrud (Þrúðr) com Thor; como Fjörgynn (no aspecto masculino/feminino) ela gerou Frigg e provavelmente Fulla com Tyr; como Nerthus ela gerou Freyr e Freyja com Njord (Njörðr), como Aurboda (Aurboða) ela gerou Gerd (Gerðr) com Gymir/Hlér/Ægir. Leia os posts anteriores para maior entendimento.
Desse modo, com nomes diferentes, ela gerou os maiores deuses do clã Æsir e Vanir por pais diferentes. Isso tem paralelos na religião védica e hindu: Prithvi e/ou Aditi é a mãe dos deuses, na religião greco-romana: Gaia/Geia é a mãe das divindades, e na religião celta: Danu é a mãe do panteão. E não para por ai, os epítetos de Jord citados acima apontam que ela é muito mais que deusa da Terra, ela é a personificação do elemento terra/solo em todo cosmo: Vangr aparece no nome da casa dos deuses Thor e Freyja (Þruðvangr e Fólkvangr respectivamente), Land é sinônimo de Heimr para Terra ou local de habitação sendo que Asgard (Ásgarðr) também é chamada de Ásaland e Godheimr (Vanaheimr também é conhecida como Vanaland, Jötunheimr como Risaland), Völlr aparece em Iðavöllr e Niðavellir, Fjöll aparece em Niðafjöll, e Hlíð em Hlíðskjálfr, que é o local onde Odin enxerga os mundos. Resumindo: Jord é a deusa que está em todos os mundos, por isso ela é a Mãe de Tudo (uma posição conquistada após a criação, embora apagado nos mitos). Enquanto Odin é a personificação do etéreo, do alma e/ou espírito (de óðr "alma" no nórdico arcaico), Jord é a personificação do material, do sólido e/ou físico. Existe uma menção que parece corroborar essa ideia: a habitação da humanidade, Midgard (Miðgarðr), segundo o poema Grímnismál, foi feita da sobrancelha (brám) de Ymir e o elemento Terra (Jörð) foi fabricado da carne do gigante morto pelos deuses. Isso parece indicar que a deusa está em muitos lugares (mundos) personificada como solo, terra.
O prólogo da Edda em Prosa ainda afirmou que os homens pagãos contavam que descendiam de Jörð, a Terra (ok tölðu ætt sína til hennar), que ela alimentava todos as criaturas/animais e os recebia na morte, o que é digno de uma deusa da natureza, a Mãe de Tudo/Todos.
No início, Jord e Odin era o par perfeito, a união da Terra e do Céu personificado, mas quando Thor nasceu, ele separou seus pais ficando entre eles, representando o Ar e/ou Atmosfera, o intervalo entre abobada celeste e o solo. Thor é o primogênito de Odin e Jord, segundo Snorri, e por isso ele é o mais poderoso e o mais forte dos deuses e homens, com isso ele derrotava todas as critaturas (Ok fyrir því má hann heita Alföðr, at hann er faðir allra goðanna ok manna ok alls þess, er af honum ok hans krafti var fullgert. Jörðin var dóttir hans ok kona hans. Af henni gerði hann inn fyrsta soninn, en þat er Ása-Þórr. Honum fylgði afl ok sterkleikr. Þar af sigrar hann öll kvikvendi). Quando Odin se separou de Jord, ele se uniu a Frigg, e Thor se uniu a Jord que assumiu o nome de Sif (para maiores detalhes leia o post sobre Sif).
Vale lembrar que, as vezes, epítetos de uma divindade acaba se transformando noutra entidade distinta com o passar dos séculos, quando uma civilização começa a esquecer sua história, ainda mais quando um povo substitui uma religião por outra, como no caso do paganismo nórdico que foi substituído pelo cristianismo. Os mitos nórdicos foram coletados muito tempo depois da era pagã (pois havia se passado mais de 200 anos da conversão do paganismo para o cristianismo), desse modo, alguns deuses podem ter se fragmentado em vários outros por falta de conhecimento, afinal as práticas antigas estavam praticamente extintas (algumas coisas sobreviveram no folclore de forma confusa e contraditória). Ainda mais quando uma divindade possuía vários nomes em várias localidades.
FONTES:
A Genealogia dos Deuses Nórdicos, Marcio Alessandro Moreira (Vitki Þórsgoði)
Dictionary Of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall
Edda, Anthony Faulkes
Gods And Myths Of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson
Saxo Grammaticus Gesta Danorum: The History of the Danes Volume I, trad. Peter Fisher
Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson
Teutonic Mythology, Jacob Grimm
The Poetic Edda, Carolyne Larrington
SITES CONSULTADOS:
https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar
segunda-feira, 4 de dezembro de 2023
As origens de Magni, Modi e Thrud
Este post será dedicado especialmente aos poderosos filhos de Thor (Þórr): Magni, Modi (Móði) e Thrud (Þrúðr). Os três deuses são características personificadas de seu pai: Magni é a força, Modi, a fúria ou coragem e Thrud, o poder. Infelizmente pouco sobre eles chegou até nós, mas algumas coisas são mencionadas:
Magni é filho de Thor e Járnsaxa (uma das nove mães de Heimdallr), ele é descrito como forte e poderoso desde pequeno, cujo vigor foi capaz de levantar a perna do gigante Hrungnir quando nenhum dos deuses foram capazes (isso será explicado noutro post). Magni tinha três dias de vida ou três anos (dependendo do manuscrito fonte), quando ele ergueu a perna de Hrungnir. Como recompensa pelo ato heroico, seu pai lhe presenteou com o veloz cavalo de Hrungnir, Gullfaxi, quase tão rápido quanto Sleipnir. Thor havia dito que seu filho seria poderoso. Seu nome significa "Força" e está associado as palavras do nórdico arcaico "mega" e "megin" (ambas "força"), as quais estão presentes no inglês como "may" e "main" (ambas "força") vindas do anglo-saxão magan, e a alemã "mögen" ("poder").
Sobre Modi praticamente nada se sabe, apenas que ele era filho de Thor e que ele e seu irmão Magni irão retornar após o Ragnarök e que eles vão herdar o martelo Mjolnir (Mjöllnir). Como seu nome parece significar "Coragem/Fúria", então, é provável que sua mãe seja Járnsaxa também, pois ela é referida em kenningr (metáfora viking) associada a coragem na mente: Járnsöxu veðr ou "tempestade de Járnsaxa". Devo lembrar que é especulação minha, embora faça sentido. Se Járnsaxa é a agitação da mente que leva a coragem, então, ela tem algo em comum com Modi. Seu nome significa "Fúria" ou "Coragem" e está associado a palavra "móðr" ("fúria") do nórdico arcaico, o qual está presente no anglo-saxão "mod" e levando ao inglês como "mood" ("estado de espírito"), e com a alemã "muth" ("coragem").
Thrud, é um caso diferente, ela é filha de Thor e Sif. Ela aparece entre as Valquírias (Valkyrjur) e era muito bela já que o gigante Hrungnir aparentemente a raptou num mito perdido, e isso explicaria o ódio de Thor por ele. Vale lembrar que os gigantes tentam roubar e/ou ganhar as deusas a todo custo por causa da extrema beleza delas (ex.: Sif, Freyja). Acredita-se, embora incerto, que a filha de Thor não nomeada no Alvíssmál seja Thrud. Seu nome significa "Poder" e está associada a palavra þrótt no nórdico arcaico ("poder), e relacionada com a palavra þroht ("trabalho") no anglo-saxão, mas sem correspondente no inglês moderno, e provavelmente ligada a palavra alemã drude ("feiticeira").
Magni e Modi são citados como Æsir (deuses) no Vafþrúðnismál e Thrud aparece como uma Ásynja (deusa) no nafnaþulur.
FONTES:
A Genealogia dos Deuses Nórdicos, Marcio Alessandro Moreira (Vitki Þórsgoði)
Dictionary Of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall
Edda, Anthony Faulkes
Gods And Myths Of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson
Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson
The Poetic Edda, Carolyne Larrington
SITES CONSULTADOS:
https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar
quarta-feira, 22 de novembro de 2023
As origens de Ullr
Ullr, o filho de Sif, é uma divindade muito importante do passado remoto da Escandinávia. Seu nome parece significar algo como "Glória" ou "Esplendor". Ullr aparece em muitos topônimos (nome de lugar derivado do nome do deus) na Suécia e Noruega, confirmando assim sua importância no panteão nórdico primitivo. O nome de Ullr nos topônimos estão localizados perto dos nomes relacionados aos Vanir. Interessante que no poema Grímnismál, a residência de Ullr, Ýdalir, fica perto de Alfheim (Álfheimr), o lar de Freyr, que é um dos mais importantes deuses.
Pouco sobre o deus chegou até, exceto algumas passagens de Snorri na Edda em Prosa e a Gesta Danorum de Saxo Gramaticus. Ele também é citado na Edda Poética. Em Snorri, Ullr é um dos doze deuses juízes, descrito como um grande guerreiro, belo e esquiador, e incomparável na arte do arco e flecha. Em Saxo, Ullr é um poderoso feiticeiro que andava sobre o mar em seu osso encantado, ele chegou a governar Asgard (Ásgarðr) no lugar de Odin (Óðinn) por quase dez anos. A citação de Saxo mostra o quando este deus era importante pra assumir a posição de Odin.
O pai de Ullr não é mencionado nas antigas fontes, o que torna isso um mistério, Viktor Rydberg na sua interpretação e reconstrução da mitologia nórdica acreditava que o pai do deus era Aurvandill/Egill, mas isso é muito improvável e incerto. No manuscrito Nks 1867 4to datado de 1760 é citado que Ullr é filho de Odin.
FONTES:
A Genealogia dos Deuses Nórdicos, Marcio Alessandro Moreira (Vitki Þórsgoði)
Dictionary Of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall
Edda, Anthony Faulkes
Gods And Myths Of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson
Saxo Grammaticus Gesta Danorum: The History of the Danes Volume I, trad. Peter Fisher
Teutonic Mythology, Viktor Rydberg
The Poetic Edda, Carolyne Larrington
SITES CONSULTADOS:
https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar
quarta-feira, 16 de agosto de 2023
As origens de Sif
A Sif, esposa de Thor (Þórr), mãe de Ullr e Thrud (Þrúðr), é conhecida por sua beleza e exuberante cabelos, mas infelizmente pouco sobre esta divindade chegou até nós. O prólogo da Edda em Prosa, nos fala que Sif era a mais bela das mulheres (Hon var allra kvinna fegrst), que tinha o dom da vidência e vivia na parte Norte do mundo (Í norðrhálfu heims fann hann spákonu þá, er Síbíl hét, er vér köllum Sif). Os cabelos dela era como ouro (Hár hennar var sem gull). Lembrando que as descrições do prólogo são evemerizados (teoria de que os deuses eram mortais divinizados e não deuses reais), mas isto contém fatos sobre a deusa encontrados nos relatos míticos.
Sif foi desejada pelo gigante Hrungnir (junto com Freyja), indicando sua beleza extraordinária. No Skáldskaparmál e na poesia viking (kenningar) o ouro era chamado de "Sifjar Haddr" que significa "Cabelo de Sif". Essas citações corroboram com o prólogo. No prólogo, também é relatado que ninguém conhece a genealogia de Sif (Engi kann at segja ætt Sifjar). Isso é muito estranho, porém, algo muito incomum apareceu na listagem dos nomes alternativos de Jord (Jörð), a Terra, no Nafnaþulur:
Jörð (Terra)
87. Jörð, Fjörn, Rofa,
Eskja ok Hlöðyn,
Gyma, Sif, Fjörgyn,
Grund, Hauðr ok Rönd,
Fold, Vangr ok Fíf,
Frón, Hjarl ok Barmr,
Land, Bjöð, Þruma,
Láð ok Merski.
Nesta listagem, a deusa Sif é apenas outro nome de Jord para designar a Terra, e as coincidências não param por ai não: ambas são associadas ao Norte (como vimos no prólogo Sif é associada ao Norte e Jord com a Noruega em kenningar que está no extremo Norte), ambas são associadas ao Thor (esposa e mãe respectivamente), o cabelo de ambas são referências para a colheita e/ou vegetação (embora o cabelo de Sif seja uma metáfora para o ouro, o cabelo humano na cabeça é referido como "a floresta da fazenda do cérebro" ou "holt bœs heila" e as relvas/pastos da terra são chamados de "cabelos de Jord" ou "haddr Jarðar" nos kenningar). O nome "Sif" significa algo como "Parente (por sangue ou casamento)" e no prólogo da Edda em Prosa é dito que os homens pagãos contavam sua linhagem até Jord, então, por consequência a Terra é a mãe e parente de todos os seres. Com isso, podemos deduzir que Sif é uma deusa da terra tal como Jord, já foi apontado que os cabelos dourados de Sif seria a colheita madura. Provavelmente esta ideia era representar o homem como o microcosmo e os deuses [a natureza] como o macrocosmo. Algo similar a essa visão é mencionado no prólogo da Edda em Prosa. Outra coisa parece indicar essa identificação de Sif ser a mesma divindade que Jord: noutra lista do Nafnaþulur apenas Jord aparece na contagem das deusas, enquanto Sif é ignorada (o que é estranho já que ela é esposa do segundo maior deus do panteão).
Ásynjur (Deusas).
23. Nú skal ásynjur
allar nefna:
Frigg ok Freyja,
Fulla ok Snotra,
Gerðr ok Gefjon,
Gná, Lofn, Skaði,
Jörð ok Iðunn,
Ilmr, Bil, Njörun.
24. Hlín ok Nanna,
Hnoss, Rindr ok Sjöfn,
Sól ok Sága,
Sigyn ok Vör.
Þá er Vár, ok Syn
verðr at nefna,
en Þrúðr ok Rán
þeim næst talið.
Talvez, porque ambas eram a mesma e única deusa. Jord foi amante de Odin (Óðinn) e Sif é acusada por Loki e pelo próprio Odin de ter tido um amante, o que indica que o filho de Laufey sabia que o filho de Bestla tinha tido algum relacionando com ela no passado já que ele era amigo do rei dos deuses e seu conselheiro segundo a Sörla Þáttr. Se Sif for mesmo Jord, então, ela é a mãe dos deuses, mas isso ficará pra outro post. Snorri afirmou na Ynglinga Saga que relações entre parentes era comum entre os Vanir e não entre os Æsir, mas Jord possui características do Vanir mesmo sendo filha de Odin. É possível que no momento que Thor (o raio) se uniu a sua mãe Jord (a Terra) tomando o lugar de Odin (o Céu), separando-os, a terra passou a se chamar Sif, para distingui-las, embora fossem a mesma divindade. O deus védico Indra tem papel análogo ao do Thor assim que nasceu: ele ficou entre seu pai Dyaus (Céu) e sua mãe Prithvi (Terra), separando-os, representando o raio.
Para maiores informações sobre Jord leiam aqui: https://osegredodasrunas.blogspot.com/2023/04/as-origens-de-jord.html.
FONTES:
A Genealogia dos Deuses Nórdicos, Marcio Alessandro Moreira (Vitki Þórsgoði)
Dictionary Of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall
Edda, Anthony Faulkes
Gods And Myths Of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson
The Poetic Edda, Carolyne Larrington
SITES CONSULTADOS:
https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar
https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i
quinta-feira, 3 de agosto de 2023
Thor matou Jormungand antes do Ragnarok?
A luta cósmica entre a ordem e o caos aparece em todas as religiões antigas, e era representado pelo combate feroz entre o deus do céu que empunha o raio contra a serpente das profundezas que é o antigo dragão. É um tema recorrente: na Grécia temos Zeus contra Tifão, na Babilônia era Marduk contra Tiamat, na Índia temos Indra contra Vrtra, os Hurritas contavam de Teshub versus Illuyanka, os Eslavos narravam sobre a batalha entre Perun e Veles. Mas, há muitos outros exemplos deste épico confronto, e na Escandinávia era representado por Thor (Þórr) contra Jormungand (Jörmungandr) ou Serpente Midgard (Miðgarðsormr).
Nos exemplos citados acima quase sempre o deus do céu mata a serpente e manda o inimigo vencido para o submundo (ou Terra da Morte). Tá, mas e no Norte? No Norte existe duas versões como veremos a seguir.
Nas Eddas (Eddur), Thor enfrentou a serpente Jormungand três vezes:
- Quando o Thor tentou levantar o gato de Utgard-Loki (Útgarðr-Loki) que na verdade era Jormungand disfarçada.
- Quando o Thor foi pescar a serpente com Hymir, depois do encontro com o monstro no salão de Utgard-Loki.
- Quando o Thor e a serpente irão se enfrentar novamente no fim dos tempos.
Segundo o Gylfaginning, o primeiro encontro entre o deus e a serpente ocorreu quando Thor foi visitar os gigantes, e acabou sendo enganado em desafios ocultados por magia. Utgard-Loki desafiou Thor a levantar seu gato do chão, mas era Jormungand. Thor conseguiu levantar uma de suas patas do chão, fazendo a serpente se contorcer a tal modo que mal conseguiu rodear as Terras. Depois, quando estava para partir da cidadela dos gigantes, Thor ficou sabendo do ocorrido e de seu feito, então, ele decidiu matar o monstro.
O segundo encontro ocorreu após isso, o deus foi até Hymir disfarçado de jovem (ele tem poder de mudar de forma) querendo ir pescar com o gigante. Os dois foram até o oceano e Thor fisgou a serpente. Aqui o relato é divergente: uma versão (a do Gylfaginning, a do escaldo Bragi Boddason, a estela de Gosforth e a estela de Hørdum Ty) conta que Hymir cortou a corda de Thor, noutra versão (a Hymiskviða, a estela Ardre VIII e a pedra rúnica de Altuna) não existe a intervenção de Hymir. Ambas versões são obscuras e ambíguas, pois elas não clarificam de forma precisa se o deus matou a serpente.
No terceiro encontro registrado na Völuspá e Gylfaginning, o deus e a serpente se matarão, mas Thor finalizará o inimigo primeiro, saindo vitorioso. Porém, ele dará nove passos e cairá também.
Como foi falado antes no post anterior, o prólogo da Edda em Prosa mencionou que Thor matou o maior dos dragões que deve ser Jormungand (einn inn mesta dreka), depois o deus se casou com Sif. No Hymiskviða é dito que Thor golpeou a cabeça da serpente violentamente (hamri kníði háfjall skarar). O escaldo Gamli vai além e disse que Thor matou a serpente com o golpe do martelo na cabeça do monstro (grundar fisk með grandi gljúfrskeljungs nam rjúfa). Gamli viveu no século 10 d.C., mas embora os fragmentos de sua poesia não clarifica se o monstro foi morto antes ou durante o Ragnarok, os kenningar (metáforas da poesia viking) parecem indicar que ocorreu durante a pescaria ao julgar pelos indicativos: grundar fiskr ou "peixe da Terra" (Jormungandr no oceano), e grand gljúfrskeljungs ou "destruidor de baleia do desfiladeiro (o martelo de Thor que destrói monstros e usado aqui para se referir a gigantes)" que são referências associados ao mar, no caso a pesca. Hymir pescou baleias na versão do Hymiskviða, corroborando a metáfora do martelo de Thor ("destruidor de baleia do desfiladeiro") como sendo durante a pesca. O escaldo Úlfr Uggason é explícito: ele narrou um salão onde ele estava que tinha imagens entalhados da vitória de Thor sobre a serpente, Thor arrancava a cabeça do monstro abaixo das ondas (Víðgymnir laust Vimrar vaðs af fránum naðri hlusta grunn við hrönnum). Úlfr também viveu no século 10 d.C. e a sua poesia é referente a pesca (hrönnum é uma metáfora para o mar, pois no Ragnarök a batalha acontecerá no campo Vigríðr na terra dos Æsir). Com a intervenção ou não de Hymir, na versão de Gamli e Úlfr, Thor matou a serpente com seu martelo. Curiosamente, no Hymiskviða, Thor é denominado de "O Único Matador da Serpente (Orms Einbani)" indicando uma possível destruição do monstro no poema. A serpente era colossal (um alvo muito grande) e o martelo de Thor não erra o alvo, então, mesmo no caso do corte da linha de pesca por Hymir, o deus atirou a arma no monstro e acertou na cabeça.
No Gylfaginning também é comentado por Snorri que os homens pagãos diziam que Thor havia matado a serpente antes do Ragnarök e durante a pesca, arrancando-lhe a cabeça com uma martelada, mas que ele achava que o monstro sobreviveu para poder morrer junto com o deus no final dos tempos (En Þórr kastaði hamrinum eftir honum, ok segja menn, at hann lysti af honum höfuðit við hrönnunum, en ek hygg hitt vera þér satt at segja, at Miðgarðsormr lifir enn ok liggr í umsjá). Os escaldos Gamli e Úlfr Uggason corroboram com está versão onde Thor matou a serpente durante a pesca (citações registradas no Skáldskaparmál). Ou essa batalha cósmica entre o deus do trovão vs. a serpente tinha duas versões ou a versão original é onde o filho da Terra triunfava e saia ileso da pescaria que terminava com a morte do monstro, enquanto a versão da Völuspá e Gylfaginning seria rearranjado depois do contato com o cristianismo (por influência cristã) ou mesmo adulterado. Na bíblia, no apocalipse, Deus derrotará o dragão e o lançara no abismo, provavelmente esta versão influenciou os escandinavos pagãos de fé mista (que acreditavam em deuses e na trindade cristã ao mesmo tempo, algo citado nas sagas) que tiveram contato com o cristianismo nas ilhas britânicas durante o período da era Viking. Gerando uma cosmovisão dessa batalha mista, hibrida, com elementos pagãos e cristãos. O poema Lokasenna parece confirmar que a serpente estava morta durante o Ragnarök, pois Loki provocou Thor dizendo que ele não estará tão corajoso quando for enfrentar o lobo no fim dos tempos (Jarðar burr er hér nú inn kominn, hví þrasir þú svá, Þórr? En þá þorir þú ekki, er þú skalt við úlfinn vega, ok svelgr hann allan Sigföður). Ué, pra onde a serpente foi então? Não é uma evidência que a serpente já estava morta?
As versões de Gamli e Úlfr onde Thor decapitou a serpente são muito importantes porque são datados de meados do século 10 d.C. que corresponde ao final do período pagão. A composição da Völuspá também é datada do final do século 10 d.C., porém a influência cristã na obra é inegável (note que no final pagão temos: os filhos dos deuses, um casal humano, uma árvore, um dragão e um deus que surgirá, que é exatamente o começo que é dito na bíblia: deus e seus anjos, um casal humano, uma árvore e uma serpente), o que coloca esta versão em dúvida. Porque parece que o fim do paganismo abre alas para o cristianismo, a antiga fé morre para dar entrada para a outra. Lembrando que usar "roupagem pagã" nos elementos cristãos (e vice versa) era comum no norte assim que o cristianismo chegou na Escandinávia: Jesus é apresentado como um guerreiro, São Olavo era descrito como Thor, Santa Lucia é associada ao Sol o que lembra a deusa Sunna e etc. Desse modo, elementos pagãos podem ter sido reinterpretados com "roupagem cristã" no período de transição entre as duas religiões. A possibilidade da profecia da Völva tenha sido anulada é grande, pois ela narrou eventos que poderia acontecer, então, Thor matou a serpente na pesca, evitando assim o pior no Ragnarök. Vale lembrar que narrações religiosas possuem muitas versões que nem sempre batem, mas provavelmente a versão mais antiga é onde Thor matava a serpente e sobrevivia ileso (algo mencionado pela renomada Hilda R. E. Davidson). A grande maioria das pessoas preferem acreditar na versão da Völuspá que é mais famosa e bem construída, do que nas versões de Gamli e Úlfr porque ambas conseguem pôr o Ragnarök em xeque.
Os termos "laust af" e "lysti af" (de "ljósta af") usado na ação de Thor na cabeça da serpente no texto tem sentido de cortar fora, separar, arrancar, ou remover.
Então, temos a opinião de dois homens pagãos, Gamli e Úlfr, que afirmam que Thor matou a serpente na pesca; e a opinião de Snorri que era cristão do século 13 d.C. achando que o monstro sobreviveu. Qual opinião é mais importante? A dos pagãos que veneravam Thor ou a de Snorri que era cristão e dizia que os deuses eram homens divinizados? Pensem nisso!
Outra coisa deve ser mencionada: a maioria das fontes sobre a religião nórdica e seus deuses chegaram até nós pelas mãos da igreja (exceto alguns textos rúnicos e arte pagã nas estelas), alguns relatos são provados pela arqueologia, mas devemos ter muito cuidado aqui, pois esta mesma instituição, no passado, fraldava milagres, relíquias, e era comum eles insultarem e rebaixarem as divindades nas sagas. Por isso devemos ter olhar crítico sempre! Os povos pagãos da Escandinávia passavam sua história oralmente, e as runas que era o alfabeto deles, era usado por quem entendia, afinal nem todos sabiam ler.
FONTES:
Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall
Edda, Anthony Faulkes
Gods And Myths Of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson
Myth and Religion of the North: The Religion of Ancient Scandinavia, E. O. G. Turville-Petre
Myths of the Pagan North: The Gods of the Norsemen, Christopher Abram
Norse Mythology: A Guide to the Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, John Lindow
Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson
The Poetic Edda, Henry Adams Bellows
Thor's Hammer, Hilda R. E. Davidson
SITES CONSULTADOS:
https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar
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