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sábado, 7 de março de 2026

Os Nove Mundos da cosmovisão nórdica

 É amplamente sabido que na cosmovisão nórdica, existem Nove Mundos (Níu Heimar no original) sustentados pela árvore Yggdrasil (Yggdrasill). Fotos de Internet.

 O famoso poema Völuspá nos conta que existem nove mundos. Alguns são facilmente reconhecidos por causa da palavra nórdica heimr (“mundo”). Devo mencionar que "heimr" também quer dizer "morada", "local" ou "região habitada", o que nos dá a ideia de dimensões. Vamos conhecê-los:

01) Asgard/Ásgarðr (também chamada de Ásaheimr ou Ásaland) foi edificada pelos deuses no início dos tempos. No meio de Asgard está á planície Idavoll (Iðavöllr). Aqui também se encontra Gladsheim (Glaðsheimr) onde Odin (Óðinn) e os doze deuses possuem seus assentos e Vingólf, o lar das deusas. Asgard está ligada a Midgard pela ponte Bifrost (Bifröst), que é guardada por Heimdall (Heimdallr), mas ao que parece essa ponte leva também para outros lugares. Os deuses passam a cavalo todo dia por essa ponte para irem à fonte de Urd (Urðr) para julgarem, apenas Thor (Þórr) não passa por ela, ele tem que passar pelos rios Körmt e Örmt e os gêmeos Kerlaugar para chegar lá. A fonte de Urd, segundo o Gylfaginning, está em Asgard e é muito sagrada. As Nornes (Nornir) vivem aqui num belo salão onde determinam os destinos dos homens.

02) Vanaheim/Vanaheimr (também chamado de Vanaland) é o lar dos deuses Vanir, ao qual Njord (Njörðr) originalmente pertence. Os Vanir são descritos sendo sábios, ligados à magia e de costumes bem liberais. Njord era casado com sua irmã e Freyja é acusada por Loki de ter sido pega nos braços de seu irmão Freyr. Njord diz a Loki que não há mal algum Freyja ter um marido e um amante. Snorri diz que corria um rio chamado Tanakvísl ou Vanakvísl nesse país. Os Vanir também mantinham assembléias para discutir assuntos cotidianos. Honir (Hænir) viveu por certo tempo entre eles, assim como Mimir (Mímir), mas o último foi decapitado e sua cabeça foi devolvida para os Æsir.

03) Alfheim/Álfheimr é o lar dos elfos da luz (Ljósálfar), governado por Freyr, que ganhou esse mundo como dádiva do dente. Os elfos da luz são belos e brilhantes como a Sól (a deusa do sol). O Völundarkviða, a Þiðreks Saga e Hrólfs Saga kraka contam que os elfos (Álfar) tinham a aparência e tamanho (altura) de homens, só que mais belos e mais brancos. Posteriormente no folclore escandinavo, os elfos passaram a ter tamanho pequeno (e as vezes com asas), talvez por confundi-los com outros seres. Eles adoram a dança, o amanhecer e as florestas. Dois elfos famosos são: Idun (Iðunn), a guardiã das maças de ouro e Thjalfi (Þjálfi), o criado de Thor.

04) Jotunheim/Jötunheimr é o mundo dos gigantes (Jötnar). Aqui se encontra a fonte de Mimir (Mímisbrunnr), que detém toda a sabedoria e a inteligência. Aqui também está á cidade Utgard (Útgarðr), governada por Utgard-Loki (Útgarðr-Loki). O rio Ifing separa Jotunheim de Midgard e Asgard. Em Jotunheim está Jarnvid (Járnviðr), a floresta de ferro, e a gýgr (giganta) Jarnvidia (Járnviðja), mãe de Sköll e Hati. Em Jotunheim está á cidade de Gudmund (Guðmundr) chamada Glæsisvellir e Thrymheim (Þrymheimr), o lar de Skaði. Jotunheim é descrita tendo densas florestas e grandes montanhas. Tudo aqui é extremamente colossal.

05) Midgard/Miðgarðr ou Manheimr é o lar dos homens e dado originalmente ao par primordial Askr e Embla que foram criados por Óðinn, Honir e Lodur (Lóðurr). Heimdal foi o primeiro instrutor. A ponte Bifröst liga Midgard a Asgard. A Serpente Midgard (Miðgarðsormr) está enrolada em volta da terra abaixo do oceano. Thor é o protetor de Midgard. Midgard foi feita da sobrancelha de Ymir pelos filhos de Bor (Borr).

06) Svartalfheim/Svartálfheimr é o lar dos elfos negros (Dökkálfar), que são descritos como sujos e de cor de piche. Foram os anões (Dvergar) daqui que fizeram a correia Gleipnir que foi usada para prender Fenrir. Como os elfos negros não podem ver a luz da Sól (do sol), então, sugere-se que esse mundo devia ficar abaixo da terra.

07) Muspelheim/Múspellsheimr é o mundo de fogo e do calor, cujas fagulhas foram criados os astros e as estrelas do firmamento. Esse mundo é guardado por Surtr e Sinmöra. Este foi o primeiro mundo a existir, conta-se que apenas nativos dessa região podiam suportar o calor abrasador do local. Essa terra tinha um exército de seres brilhantes conhecidos comos Filhos de Muspel (Múspellssynir).

08) Niflheim/Niflheimr é o mundo das névoas, do frio e do gelo. Aqui se encontra a fonte Hvergelmir onde correm os onze rios gelados chamados de Elivagar (Élivágar). Nidhogg (Níðhöggr) rói as raízes de Yggdrasil na fonte Hvergelmir. Naströnd, a praia dos mortos, está também nesse mundo. Niflheim foi o segundo mundo a existir.

09) Niflhel é o lar da gýgr (giganta) Hel, onde ela recebe os homens mortos. O cão Garmr guarda a entrada na caverna Gnipahellir, logo adiante está o rio Gjöll e a ponte Gjallarbrú, que é guardada por Modgud (Móðguðr). Hel governa o local num palácio que é cercado por altos muros.

 Para muitos Nidavellir (Niðavellir), o lar dos anões, é um dos nove mundos, enquanto outros acreditam que seja apenas um lugar em Svartalfheim. Niflhel ou Hel também, as vezes, parece ser o mesmo mundo que Niflheim (embora nem sempre). Se Niflhel for o mesmo que Niflheim, então, Nidavellir realmente é um dos nove mundos, o problema é que Snorri associa os elfos negros com os anões, o que dificulta mais o esclarecimento. Niflheim está na direção Norte, Muspelheim na direção Sul, Jotunheim na direção Leste, enquanto que Asgard está na direção Oeste. O poema Alvíssmál (da Edda Poética) cita o mundo dos homens, dos Æsir, dos Vanir, dos gigantes, dos elfos, dos anões e o povo de Hel (mortos). Enquanto os Escandinavos acreditavam na existência dos nove mundos, não se sabe ao certo se os Saxões partilhavam da mesma idéia. Porém, no Lay of the Nine Twigs of Woden ("O Conto dos Nove Ramos de Woden"), o mesmo deus é associado a sete mundos. É possível que com a influência cristã o número nove foi substituído por sete, o número cristão da criação. Mas, algo precisa ser mencionado: no Antigo Futhark a runa *Hagalaz, que é associada a criação do mundo, era a nona na fileira rúnica, já no Jovem Futhark a mesma runa passou a ocupar a sétima posição. A possibilidade de dois mundos dos nove estar conectados na mesma direção poderia ser a explicação para isso (algo que parece bem possível: Alfheim fica próxima do sul que é direção de Muspelheim, Svartalfheim parece ficar abaixo da terra, que é Midgard, porém, pode ser outras combinações).

 Após lermos a descrição dos nove mundos, ficamos imaginando como os antigos Escandinavos pagãos imaginavam e/ou entendiam isso. Afinal, as descrições das posições divergem nas fontes que possuímos. Mas, segundo a Edda de Snorri, os mundos ficavam uns por cima dos outros, ou interligados por fronteiras cósmicas ligadas por rios primordiais ao redor de Yggdrasil. 

 Porém, curiosamente, existe uma estela na Suécia do período pagão que parece representar de como era esses nove mundos na sua concepção original. A estela em questão se encontra em Sanda Kyrka I em Gotland. A estela parece representar a cosmovisão nórdica: na parte superior podemos ver uma representação do sol (a Sól) girando no céu com 8 pernas indicando o Eykt ou "Octeto", que é as 8 direções cósmicas vistas do centro (8 + 1 = 9); no meio temos duas Serpentes envolvendo espirais (a primeira pode representar o dragão Nidhogg no mundo dos mortos, na fonte Hvergelmir, a segunda com certeza representa Jormungand enrolando os nove mundos com Midgard no centro, novamente 8 + 1 = 9, que é o Eykt ou as oito direções dos 8 mundos vistos da terra); logo abaixo temos uma árvore que provavelmente representa Yggdrasil.

Detalhe da estela de Sanda Kyrka I datada entre 400-600 DC, encontrada em Gotland, na Suécia. A Sól (o sol) brilha no céu da terra indicando as oito direções do Eykt na parte superior. Duas serpentes estão no centro, uma talvez representa o dragão Nidhogg na fonte primordial Hvergelmir, a outra possivelmente é Jormungand rodeando os nove mundos no mar cósmico (Midgard está no centro ladeada por outros oito mundos). Logo abaixo existe uma árvore que pode representar Yggdrasil. Esta estela está associada à motivos cosmológicos. Se analisarmos com atenção, veremos que quando Thor moveu uma das patas do gato de Utgard-Loki, que na verdade era Jormungand, então, o poderoso filho de Odin moveu toda criação porque o monstro rodeava os nove mundos e mal conseguiu fazer isso neste momento (algo que alarmou Utgard-Loki), um feito similar ao do Héracles/Hércules dos mitos Greco-romanos que segurou os céus nos ombros (o qual Thor é identificado). Os nomes da serpente na língua nórdica parece corroborar isso: "umgjörð neðan allra landa "((o que) circula abaixo de todas as terras") no Hymiskviða, "allra landa umbgjörð" ("cinto de todas as terras") pelo escaldo Ölvir hnúfa, "endiseiðr allra landa" ("peixe que liga todas as terras") pelo escaldo Bragi Boddason, "er liggr um öll lönd" ("que liga todas as terras") por Snorri Sturluson, "er liggr um heiminn allan" ("que liga todo o mundo") no Lokrur. As palavras "landa" e "lönd" estão no plural e significam "terras". Jormungand é dito "circular todas as terras", essas "terras" podem significar os nove mundos. Essa associação parece ter sentido porque Asgard também é chamada de Ásaland, Vanaheim de Vanaland, Jotunheim de Risaland e Ymisland. Assim "land" parece ser sinônimo de "heimr" ("mundo" ou "terra"). Thor elevou a serpente tão alto com sua força que chegou perto do céu, que a mandíbula e a cauda do monstro mal foram longo o suficiente para se tocar. Noutro momento, Thor chegou a puxar a cabeça da serpente fora do mar, separando-a do rabo, superando a primeira tentativa (indo mais longe), quando estava com Hymir. Então, é seguro dizer que Jormungand estava rodeando os nove mundos originalmente tal como a estela de Sanda Kyrka I nos apresenta.

A estela vista de ângulo inteiro. Na parte inferior logo abaixo da árvore, há um barco com remadores, o que sugere a viagem no mundo dos mortos. Oito círculos estão representados acima do barco, já foi sugerido de que seriam escudos (o que faz sentido). Porém, eles podem representar os oito mundos que os mortos atravessam assim que deixam Midgard. Logo acima do barco existe uma figura que se assemelha um monstro, talvez representa Garmr (ou Fenrir) acorrentado. Garmr ficava na entrada do mundo dos mortos.

Na religião hindu, Vishnu é representado repousando na serpente cósmica Adishesha, também conhecida como Ananta Shesha ou Shesha Naga, ao lado de sua esposa Lakshmi (nascida do oceano de leite) que massageia sua perna. Adishesha mantém os planetas da criação de forma similar a Jormungand. Mas, existe uma diferença aqui: nas descrições nórdicas Jormungand é maligno e inimigo de Thor, enquanto nas descrições hindu a Adishesha é benéfica e amigo de Vishnu.

No Ragnarok, Thor matará a serpente Jormungand, mas dará nove passos e cairá ao lado do monstro, segundo a Völuspá, depois disso, a Terra (Jord, a mãe-terra) afunda no mar. Esta descrição também é similar ao da famosa pesca: Thor vai no oceano cósmico (a leste de Elivagar) com Hymir e acaba por fisgar a serpente que circula as Terras, para fazer mais força o deus toma a estatura de gigante fazendo seus pés tocarem o solo (sua mãe) do fundo no oceano. A Terra (Jord ou Midgard) foi elevada das águas durante a criação, segundo a Völuspá, pelo trio criador. As similaridades entre Thor e Vishnu são claras: um deus protetor do cosmo cercado por uma serpente colossal sendo assistido por uma deusa surgida das águas e associado ao pé e/ou perna.

 Essa estela é muito interessante, porque ela, provavelmente, mostra como os antigos Escandinavos compreendiam a estrutura do universo no período pagão. Vale lembrar que mapas do mundo espiritual nem sempre são coerentes, porque eles nem sempre fazem lógica e algumas vezes são contraditórios.


FONTES:
An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson
Dicionário de Mitologia Germânica, Marcio A. Moreira https://mega.nz/file/IbghwADQ#Hgg2VrvAFJj8RYgrxnsrGTdmJYp_GNVmuchpA7GaZHc
Edda, Anthony Faulkes 
Gods and Myths of Northern Europe, Hilda Roderick Ellis Davidson
Myth and Religion of the North: The Religion of Ancient Scandinavia, E. O. G. Turville-Petre
Norse Mythology: A Guide to the Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, John Lindow
Norse Mythology A to Z, Kathleen N. Daly
O Número 108 no Grímnismál, Marcio A. Moreira https://mega.nz/file/BaIAECpB#eXPanjZs7Shn5y0UtRivc6k0Ir1QC-UE6sAk0MP3hf0
Scandinavian Mythology, Hilda Roderick Ellis Davidson
Thor vs. Malibu & DC Comics, Marcio A. Moreira (é um trabalho sobre HQs, mas tem uma parte devotada aos feitos do Thor e do Hércules mitológicos comparados lado a lado) https://mega.nz/file/lChSyQaJ#s-rfS7K0K0yptYKKbfLnER58nKnuDynfjRFDDFVKrYU
The Poetic Edda, Carolyne Larrington 

SITES CONSULTADOS:

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