Mostrando postagens com marcador Ragnarok. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ragnarok. Mostrar todas as postagens

sábado, 7 de março de 2026

Os Nove Mundos da cosmovisão nórdica

 É amplamente sabido que na cosmovisão nórdica, existem Nove Mundos (Níu Heimar no original) sustentados pela árvore Yggdrasil (Yggdrasill). Fotos de Internet.

 O famoso poema Völuspá nos conta que existem nove mundos. Alguns são facilmente reconhecidos por causa da palavra nórdica heimr (“mundo”). Devo mencionar que "heimr" também quer dizer "morada", "local" ou "região habitada", o que nos dá a ideia de dimensões. Vamos conhecê-los:

01) Asgard/Ásgarðr (também chamada de Ásaheimr ou Ásaland) foi edificada pelos deuses no início dos tempos. No meio de Asgard está á planície Idavoll (Iðavöllr). Aqui também se encontra Gladsheim (Glaðsheimr) onde Odin (Óðinn) e os doze deuses possuem seus assentos e Vingólf, o lar das deusas. Asgard está ligada a Midgard pela ponte Bifrost (Bifröst), que é guardada por Heimdall (Heimdallr), mas ao que parece essa ponte leva também para outros lugares. Os deuses passam a cavalo todo dia por essa ponte para irem à fonte de Urd (Urðr) para julgarem, apenas Thor (Þórr) não passa por ela, ele tem que passar pelos rios Körmt e Örmt e os gêmeos Kerlaugar para chegar lá. A fonte de Urd, segundo o Gylfaginning, está em Asgard e é muito sagrada. As Nornes (Nornir) vivem aqui num belo salão onde determinam os destinos dos homens.

02) Vanaheim/Vanaheimr (também chamado de Vanaland) é o lar dos deuses Vanir, ao qual Njord (Njörðr) originalmente pertence. Os Vanir são descritos sendo sábios, ligados à magia e de costumes bem liberais. Njord era casado com sua irmã e Freyja é acusada por Loki de ter sido pega nos braços de seu irmão Freyr. Njord diz a Loki que não há mal algum Freyja ter um marido e um amante. Snorri diz que corria um rio chamado Tanakvísl ou Vanakvísl nesse país. Os Vanir também mantinham assembléias para discutir assuntos cotidianos. Honir (Hænir) viveu por certo tempo entre eles, assim como Mimir (Mímir), mas o último foi decapitado e sua cabeça foi devolvida para os Æsir.

03) Alfheim/Álfheimr é o lar dos elfos da luz (Ljósálfar), governado por Freyr, que ganhou esse mundo como dádiva do dente. Os elfos da luz são belos e brilhantes como a Sól (a deusa do sol). O Völundarkviða, a Þiðreks Saga e Hrólfs Saga kraka contam que os elfos (Álfar) tinham a aparência e tamanho (altura) de homens, só que mais belos e mais brancos. Posteriormente no folclore escandinavo, os elfos passaram a ter tamanho pequeno (e as vezes com asas), talvez por confundi-los com outros seres. Eles adoram a dança, o amanhecer e as florestas. Dois elfos famosos são: Idun (Iðunn), a guardiã das maças de ouro e Thjalfi (Þjálfi), o criado de Thor.

04) Jotunheim/Jötunheimr é o mundo dos gigantes (Jötnar). Aqui se encontra a fonte de Mimir (Mímisbrunnr), que detém toda a sabedoria e a inteligência. Aqui também está á cidade Utgard (Útgarðr), governada por Utgard-Loki (Útgarðr-Loki). O rio Ifing separa Jotunheim de Midgard e Asgard. Em Jotunheim está Jarnvid (Járnviðr), a floresta de ferro, e a gýgr (giganta) Jarnvidia (Járnviðja), mãe de Sköll e Hati. Em Jotunheim está á cidade de Gudmund (Guðmundr) chamada Glæsisvellir e Thrymheim (Þrymheimr), o lar de Skaði. Jotunheim é descrita tendo densas florestas e grandes montanhas. Tudo aqui é extremamente colossal.

05) Midgard/Miðgarðr ou Manheimr é o lar dos homens e dado originalmente ao par primordial Askr e Embla que foram criados por Óðinn, Honir e Lodur (Lóðurr). Heimdal foi o primeiro instrutor. A ponte Bifröst liga Midgard a Asgard. A Serpente Midgard (Miðgarðsormr) está enrolada em volta da terra abaixo do oceano. Thor é o protetor de Midgard. Midgard foi feita da sobrancelha de Ymir pelos filhos de Bor (Borr).

06) Svartalfheim/Svartálfheimr é o lar dos elfos negros (Dökkálfar), que são descritos como sujos e de cor de piche. Foram os anões (Dvergar) daqui que fizeram a correia Gleipnir que foi usada para prender Fenrir. Como os elfos negros não podem ver a luz da Sól (do sol), então, sugere-se que esse mundo devia ficar abaixo da terra.

07) Muspelheim/Múspellsheimr é o mundo de fogo e do calor, cujas fagulhas foram criados os astros e as estrelas do firmamento. Esse mundo é guardado por Surtr e Sinmöra. Este foi o primeiro mundo a existir, conta-se que apenas nativos dessa região podiam suportar o calor abrasador do local. Essa terra tinha um exército de seres brilhantes conhecidos comos Filhos de Muspel (Múspellssynir).

08) Niflheim/Niflheimr é o mundo das névoas, do frio e do gelo. Aqui se encontra a fonte Hvergelmir onde correm os onze rios gelados chamados de Elivagar (Élivágar). Nidhogg (Níðhöggr) rói as raízes de Yggdrasil na fonte Hvergelmir. Naströnd, a praia dos mortos, está também nesse mundo. Niflheim foi o segundo mundo a existir.

09) Niflhel é o lar da gýgr (giganta) Hel, onde ela recebe os homens mortos. O cão Garmr guarda a entrada na caverna Gnipahellir, logo adiante está o rio Gjöll e a ponte Gjallarbrú, que é guardada por Modgud (Móðguðr). Hel governa o local num palácio que é cercado por altos muros.

 Para muitos Nidavellir (Niðavellir), o lar dos anões, é um dos nove mundos, enquanto outros acreditam que seja apenas um lugar em Svartalfheim. Niflhel ou Hel também, as vezes, parece ser o mesmo mundo que Niflheim (embora nem sempre). Se Niflhel for o mesmo que Niflheim, então, Nidavellir realmente é um dos nove mundos, o problema é que Snorri associa os elfos negros com os anões, o que dificulta mais o esclarecimento. Niflheim está na direção Norte, Muspelheim na direção Sul, Jotunheim na direção Leste, enquanto que Asgard está na direção Oeste. O poema Alvíssmál (da Edda Poética) cita o mundo dos homens, dos Æsir, dos Vanir, dos gigantes, dos elfos, dos anões e o povo de Hel (mortos). Enquanto os Escandinavos acreditavam na existência dos nove mundos, não se sabe ao certo se os Saxões partilhavam da mesma idéia. Porém, no Lay of the Nine Twigs of Woden ("O Conto dos Nove Ramos de Woden"), o mesmo deus é associado a sete mundos. É possível que com a influência cristã o número nove foi substituído por sete, o número cristão da criação. Mas, algo precisa ser mencionado: no Antigo Futhark a runa *Hagalaz, que é associada a criação do mundo, era a nona na fileira rúnica, já no Jovem Futhark a mesma runa passou a ocupar a sétima posição. A possibilidade de dois mundos dos nove estar conectados na mesma direção poderia ser a explicação para isso (algo que parece bem possível: Alfheim fica próxima do sul que é direção de Muspelheim, Svartalfheim parece ficar abaixo da terra, que é Midgard, porém, pode ser outras combinações).

 Após lermos a descrição dos nove mundos, ficamos imaginando como os antigos Escandinavos pagãos imaginavam e/ou entendiam isso. Afinal, as descrições das posições divergem nas fontes que possuímos. Mas, segundo a Edda de Snorri, os mundos ficavam uns por cima dos outros, ou interligados por fronteiras cósmicas ligadas por rios primordiais ao redor de Yggdrasil. 

 Porém, curiosamente, existe uma estela na Suécia do período pagão que parece representar de como era esses nove mundos na sua concepção original. A estela em questão se encontra em Sanda Kyrka I em Gotland. A estela parece representar a cosmovisão nórdica: na parte superior podemos ver uma representação do sol (a Sól) girando no céu com 8 pernas indicando o Eykt ou "Octeto", que é as 8 direções cósmicas vistas do centro (8 + 1 = 9); no meio temos duas Serpentes envolvendo espirais (a primeira pode representar o dragão Nidhogg no mundo dos mortos, na fonte Hvergelmir, a segunda com certeza representa Jormungand enrolando os nove mundos com Midgard no centro, novamente 8 + 1 = 9, que é o Eykt ou as oito direções dos 8 mundos vistos da terra); logo abaixo temos uma árvore que provavelmente representa Yggdrasil.

Detalhe da estela de Sanda Kyrka I datada entre 400-600 DC, encontrada em Gotland, na Suécia. A Sól (o sol) brilha no céu da terra indicando as oito direções do Eykt na parte superior. Duas serpentes estão no centro, uma talvez representa o dragão Nidhogg na fonte primordial Hvergelmir, a outra possivelmente é Jormungand rodeando os nove mundos no mar cósmico (Midgard está no centro ladeada por outros oito mundos). Logo abaixo existe uma árvore que pode representar Yggdrasil. Esta estela está associada à motivos cosmológicos. Se analisarmos com atenção, veremos que quando Thor moveu uma das patas do gato de Utgard-Loki, que na verdade era Jormungand, então, o poderoso filho de Odin moveu toda criação porque o monstro rodeava os nove mundos e mal conseguiu fazer isso neste momento (algo que alarmou Utgard-Loki), um feito similar ao do Héracles/Hércules dos mitos Greco-romanos que segurou os céus nos ombros (o qual Thor é identificado). Os nomes da serpente na língua nórdica parece corroborar isso: "umgjörð neðan allra landa "((o que) circula abaixo de todas as terras") no Hymiskviða, "allra landa umbgjörð" ("cinto de todas as terras") pelo escaldo Ölvir hnúfa, "endiseiðr allra landa" ("peixe que liga todas as terras") pelo escaldo Bragi Boddason, "er liggr um öll lönd" ("que liga todas as terras") por Snorri Sturluson, "er liggr um heiminn allan" ("que liga todo o mundo") no Lokrur. As palavras "landa" e "lönd" estão no plural e significam "terras". Jormungand é dito "circular todas as terras", essas "terras" podem significar os nove mundos. Essa associação parece ter sentido porque Asgard também é chamada de Ásaland, Vanaheim de Vanaland, Jotunheim de Risaland e Ymisland. Assim "land" parece ser sinônimo de "heimr" ("mundo" ou "terra"). Thor elevou a serpente tão alto com sua força que chegou perto do céu, que a mandíbula e a cauda do monstro mal foram longo o suficiente para se tocar. Noutro momento, Thor chegou a puxar a cabeça da serpente fora do mar, separando-a do rabo, superando a primeira tentativa (indo mais longe), quando estava com Hymir. Então, é seguro dizer que Jormungand estava rodeando os nove mundos originalmente tal como a estela de Sanda Kyrka I nos apresenta.

A estela vista de ângulo inteiro. Na parte inferior logo abaixo da árvore, há um barco com remadores, o que sugere a viagem no mundo dos mortos. Oito círculos estão representados acima do barco, já foi sugerido de que seriam escudos (o que faz sentido). Porém, eles podem representar os oito mundos que os mortos atravessam assim que deixam Midgard. Logo acima do barco existe uma figura que se assemelha um monstro, talvez representa Garmr (ou Fenrir) acorrentado. Garmr ficava na entrada do mundo dos mortos.

Na religião hindu, Vishnu é representado repousando na serpente cósmica Adishesha, também conhecida como Ananta Shesha ou Shesha Naga, ao lado de sua esposa Lakshmi (nascida do oceano de leite) que massageia sua perna. Adishesha mantém os planetas da criação de forma similar a Jormungand. Mas, existe uma diferença aqui: nas descrições nórdicas Jormungand é maligno e inimigo de Thor, enquanto nas descrições hindu a Adishesha é benéfica e amigo de Vishnu.

No Ragnarok, Thor matará a serpente Jormungand, mas dará nove passos e cairá ao lado do monstro, segundo a Völuspá, depois disso, a Terra (Jord, a mãe-terra) afunda no mar. Esta descrição também é similar ao da famosa pesca: Thor vai no oceano cósmico (a leste de Elivagar) com Hymir e acaba por fisgar a serpente que circula as Terras, para fazer mais força o deus toma a estatura de gigante fazendo seus pés tocarem o solo (sua mãe) do fundo no oceano. A Terra (Jord ou Midgard) foi elevada das águas durante a criação, segundo a Völuspá, pelo trio criador. As similaridades entre Thor e Vishnu são claras: um deus protetor do cosmo cercado por uma serpente colossal sendo assistido por uma deusa surgida das águas e associado ao pé e/ou perna.

 Essa estela é muito interessante, porque ela, provavelmente, mostra como os antigos Escandinavos compreendiam a estrutura do universo no período pagão. Vale lembrar que mapas do mundo espiritual nem sempre são coerentes, porque eles nem sempre fazem lógica e algumas vezes são contraditórios.


FONTES:
An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson
Dicionário de Mitologia Germânica, Marcio A. Moreira https://mega.nz/file/IbghwADQ#Hgg2VrvAFJj8RYgrxnsrGTdmJYp_GNVmuchpA7GaZHc
Edda, Anthony Faulkes 
Gods and Myths of Northern Europe, Hilda Roderick Ellis Davidson
Myth and Religion of the North: The Religion of Ancient Scandinavia, E. O. G. Turville-Petre
Norse Mythology: A Guide to the Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, John Lindow
Norse Mythology A to Z, Kathleen N. Daly
O Número 108 no Grímnismál, Marcio A. Moreira https://mega.nz/file/BaIAECpB#eXPanjZs7Shn5y0UtRivc6k0Ir1QC-UE6sAk0MP3hf0
Scandinavian Mythology, Hilda Roderick Ellis Davidson
Thor vs. Malibu & DC Comics, Marcio A. Moreira (é um trabalho sobre HQs, mas tem uma parte devotada aos feitos do Thor e do Hércules mitológicos comparados lado a lado) https://mega.nz/file/lChSyQaJ#s-rfS7K0K0yptYKKbfLnER58nKnuDynfjRFDDFVKrYU
The Poetic Edda, Carolyne Larrington 

SITES CONSULTADOS:

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O que causou a desavença entre Freyr e Surtr?

 É, nós sabemos que segundo as duas Eddas, Freyr e Surtr eram inimigos, porém não aprofunda na causa da desavença entre as duas divindades. Fotos de Internet.

 As fontes apenas mencionam que Freyr e Surtr serão adversários durante o Ragnarok, no final dos tempos. Nós possuímos informações que mostram a causa da inimizade entre Odin (Óðinn) e Fenrir e de Thor (Þórr) e Jormungand (Jörmungandr). Odin mandou prender Fenrir, enquanto Thor ficou sabendo da ameaça da serpente e quis destruir o monstro. Os deuses sabiam que essas crias de Loki eram ameaças que deveriam ser contidas.

Freyr by Johannes Gehrts.

 Eu suponho que a rixa entre Freyr e Surtr deve ter alguma coisa a ver com fronteiras ou proximidade. Por que digo isso? Eu digo isso usando as fontes analisando os detalhes: segundo o Grímnismál, os deuses deram à Freyr a região de Alfheim (Álfheimr) no início dos tempos, lar dos elfos da luz (Ljósálfar), depois da guerra Æsir-Vanir. O Gylfaginning afirma que os elfos da luz viviam no céu do sul.

Þá mælti Gangleri: "Hvat gætir þess staðar, þá er Surtalogi brennir himin ok jörð?"

   Hárr segir: "Svá er sagt, at annarr himinn sé suðr ok upp frá þessum himni, ok heitir sá Andlangr, en inn þriði himinn sé enn upp frá þeim, ok heitir sá Víðbláinn, ok á þeim himni hyggjum vér þenna stað vera. En Ljósálfar einir, hyggjum vér, at nú byggvi þá staði."

Então Gangleri disse: "O que protegerá esse lugar quando o fogo de Surtr tiver queimado o céu e a terra?"

 Hárr disse: "É dito que há outro céu ao sul acima desse céu (Himinn) e é chamado de Andlangr; e o terceiro céu se encontra acima desse um, que é chamado de Víðbláinn, e é nesse céu que nós acreditamos que esse lugar (Gimlé) está situado. Nós acreditamos que é habitado apenas por Ljósálfar." (Trad. minha)

 A Gísla saga conta que Freyr protegia a sepultura de um de seus adoradores (Thorgrim Freysgodi/Þorgrímr Freysgoði), afastando o gelo com a luz no lado sul.

"Varð og sá hlutur einn er nýnæmum þótti gegna að aldrei festi snæ utan og sunnan á haugi Þorgríms og eigi fraus; og gátu menn þess til að hann myndi Frey svo ávarður fyrir blótin að hann myndi eigi vilja að freri á milli þeirra."

E então, também, aconteceu algo que pareceu estranho e novo. Não havia neve acumulada no lado sul do túmulo de Thorgrim, nem ela congelou ali. E os homens supuseram que isso se devia ao fato de Thorgrim ter sido tão querido por Freyr, a ponto de o deus não permitir que a geada se interpusesse entre eles. (Trad. minha)

 Surtr é o senhor da terra do fogo, Muspelheim (Múspellsheimr), que fica situado no sul. Então, podemos supor que Surtr já regia a terra do fogo, mas ele provavelmente perdeu parte do território para Freyr (quando este recebeu Alfheim) e isso causou a inimizade entre eles. Os mundos são conectados por Yggdrasil (Yggdrasill) e imensos rios. Vale lembrar que Asgard (Ásgarðr) fazia fronteira com Vanaheim (Vanaheimr) e o mesmo deve ser entre Alfheim e Muspelheim. Isso provavelmente os colocou como oponentes no final dos tempos. Freyr representa a luz acolhedora e a fertilidade (vida), enquanto Surtr representa a fumaça enegrecida de fogo e esterilidade (suas chamas queimarão o mundo). Freyr possuía uma espada maravilhosa dotada de vontade própria, enquanto Surtr possui uma espada magnífica que brilha mais que o sol (a Sól). Os elfos súditos de Freyr são brilhantes e os subordinados de Surtr também. Freyr é um Vanr (membros dos Vanir) e Surtr é um gigante (Jötunn). Ambos possuem algumas características similares, porém são antagonistas. 

 

FONTES:

Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall 

Edda, Anthony Faulkes

Gods and Myths of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson 

O Livro de Ouro da Mitologia: Histórias de Deuses e Heróis, Thomas Bulfinch

Norse Mythology: A Guide to Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, John Lindow

Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson

SITES CONSULTADOS:

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i

https://www.snerpa.is/net/isl/gisl.htm

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Thor matou Jormungand antes do Ragnarok?

 A luta cósmica entre a ordem e o caos aparece em todas as religiões antigas, e era representado pelo combate feroz entre o deus do céu que empunha o raio contra a serpente das profundezas que é o antigo dragão. É um tema recorrente: na Grécia temos Zeus contra Tifão, na Babilônia era Marduk contra Tiamat, na Índia temos Indra contra Vrtra, os Hurritas contavam de Teshub versus Illuyanka, os Eslavos narravam sobre a batalha entre Perun e Veles. Mas, há muitos outros exemplos deste épico confronto, e na Escandinávia era representado por Thor (Þórr) contra Jormungand (Jörmungandr) ou Serpente Midgard (Miðgarðsormr).

 Nos exemplos citados acima quase sempre o deus do céu mata a serpente e manda o inimigo vencido para o submundo (ou Terra da Morte). Tá, mas e no Norte? No Norte existe duas versões como veremos a seguir.

 Nas Eddas (Eddur), Thor enfrentou a serpente Jormungand três vezes:

  1. Quando o Thor tentou levantar o gato de Utgard-Loki (Útgarðr-Loki) que na verdade era Jormungand disfarçada.
  2. Quando o Thor foi pescar a serpente com Hymir, depois do encontro com o monstro no salão de Utgard-Loki.
  3. Quando o Thor e a serpente irão se enfrentar novamente no fim dos tempos.

 Segundo o Gylfaginning, o primeiro encontro entre o deus e a serpente ocorreu quando Thor foi visitar os gigantes, e acabou sendo enganado em desafios ocultados por magia. Utgard-Loki desafiou Thor a levantar seu gato do chão, mas era Jormungand. Thor conseguiu levantar uma de suas patas do chão, fazendo a serpente se contorcer a tal modo que mal conseguiu rodear as Terras. Depois, quando estava para partir da cidadela dos gigantes, Thor ficou sabendo do ocorrido e de seu feito, então, ele decidiu matar o monstro.

 O segundo encontro ocorreu após isso, o deus foi até Hymir disfarçado de jovem (ele tem poder de mudar de forma) querendo ir pescar com o gigante. Os dois foram até o oceano e Thor fisgou a serpente. Aqui o relato é divergente: uma versão (a do Gylfaginning, a do escaldo Bragi Boddason, a estela de Gosforth e a estela de Hørdum Ty) conta que Hymir cortou a corda de Thor, noutra versão (a Hymiskviða, a estela Ardre VIII e a pedra rúnica de Altuna) não existe a intervenção de Hymir. Ambas versões são obscuras e ambíguas, pois elas não clarificam de forma precisa se o deus matou a serpente.

 No terceiro encontro registrado na Völuspá e Gylfaginning, o deus e a serpente se matarão, mas Thor finalizará o inimigo primeiro, saindo vitorioso. Porém, ele dará nove passos e cairá também.

 Como foi falado antes no post anterior, o prólogo da Edda em Prosa mencionou que Thor matou o maior dos dragões que deve ser Jormungand (einn inn mesta dreka), depois o deus se casou com Sif. No Hymiskviða é dito que Thor golpeou a cabeça da serpente violentamente (hamri kníði háfjall skarar). O escaldo Gamli vai além e disse que Thor matou a serpente com o golpe do martelo na cabeça do monstro (grundar fisk með grandi gljúfrskeljungs nam rjúfa). Gamli viveu no século 10 d.C., mas embora os fragmentos de sua poesia não clarifica se o monstro foi morto antes ou durante o Ragnarok, os kenningar (metáforas da poesia viking) parecem indicar que ocorreu durante a pescaria ao julgar pelos indicativos: grundar fiskr ou "peixe da Terra" (Jormungandr no oceano), e grand gljúfrskeljungs ou "destruidor de baleia do desfiladeiro (o martelo de Thor que destrói monstros e usado aqui para se referir a gigantes)" que são referências associados ao mar, no caso a pesca. Hymir pescou baleias na versão do Hymiskviða, corroborando a metáfora do martelo de Thor ("destruidor de baleia do desfiladeiro") como sendo durante a pesca. O escaldo Úlfr Uggason é explícito: ele narrou um salão onde ele estava que tinha imagens entalhados da vitória de Thor sobre a serpente, Thor arrancava a cabeça do monstro abaixo das ondas (Víðgymnir laust Vimrar vaðs af fránum naðri hlusta grunn við hrönnum). Úlfr também viveu no século 10 d.C. e a sua poesia é referente a pesca (hrönnum é uma metáfora para o mar, pois no Ragnarök a batalha acontecerá no campo Vigríðr na terra dos Æsir). Com a intervenção ou não de Hymir, na versão de Gamli e Úlfr, Thor matou a serpente com seu martelo. Curiosamente, no Hymiskviða, Thor é denominado de "O Único Matador da Serpente (Orms Einbani)" indicando uma possível destruição do monstro no poema. A serpente era colossal (um alvo muito grande) e o martelo de Thor não erra o alvo, então, mesmo no caso do corte da linha de pesca por Hymir, o deus atirou a arma no monstro e acertou na cabeça.

Pagina original do manuscrito GKS 2365 4º (também conhecido como Codex Regius ou Konungsbók que significa "Livro do Rei") datado de aproximadamente 1270 d.C.. Na foto destaquei em vermelho o texto onde Thor é chamado de "Orms Einbani" ou "O Único Matador da Serpente". Pouco abaixo há um espaço vazio no texto (logo após o ataque de Thor na serpente), embora não indique lacuna, é muito provável que parte do texto está faltando. 

 No Gylfaginning também é comentado por Snorri que os homens pagãos diziam que Thor havia matado a serpente antes do Ragnarök e durante a pesca, arrancando-lhe a cabeça com uma martelada, mas que ele achava que o monstro sobreviveu para poder morrer junto com o deus no final dos tempos (En Þórr kastaði hamrinum eftir honum, ok segja menn, at hann lysti af honum höfuðit við hrönnunum, en ek hygg hitt vera þér satt at segja, at Miðgarðsormr lifir enn ok liggr í umsjá). Os escaldos Gamli e Úlfr Uggason corroboram com está versão onde Thor matou a serpente durante a pesca (citações registradas no Skáldskaparmál). Ou essa batalha cósmica entre o deus do trovão vs. a serpente tinha duas versões ou a versão original é onde o filho da Terra triunfava e saia ileso da pescaria que terminava com a morte do monstro, enquanto a versão da Völuspá e Gylfaginning seria rearranjado depois do contato com o cristianismo (por influência cristã) ou mesmo adulterado. Na bíblia, no apocalipse, Deus derrotará o dragão e o lançara no abismo, provavelmente esta versão influenciou os escandinavos pagãos de fé mista (que acreditavam em deuses e na trindade cristã ao mesmo tempo, algo citado nas sagas) que tiveram contato com o cristianismo nas ilhas britânicas durante o período da era Viking. Gerando uma cosmovisão dessa batalha mista, hibrida, com elementos pagãos e cristãos. O poema Lokasenna parece confirmar que a serpente estava morta durante o Ragnarök, pois Loki provocou Thor dizendo que ele não estará tão corajoso quando for enfrentar o lobo no fim dos tempos (Jarðar burr er hér nú inn kominn, hví þrasir þú svá, Þórr? En þá þorir þú ekki, er þú skalt við úlfinn vega, ok svelgr hann allan Sigföður). Ué, pra onde a serpente foi então? Não é uma evidência que a serpente já estava morta?

Outra pagina original do manuscrito GKS 2365 4º. Na foto destaquei em vermelho o texto onde Loki falou que Thor combaterá o lobo ("Úlfinn vega") e não a serpente no Ragnarök. Como Thor é chamado de "O Único Matador da Serpente" antes de enfrentar o monstro no Hymiskviða, é possível que o deus exterminou a serpente na pesca e a fala de Loki confirmou isso. Se o Ragnarök era uma profecia onde o filho da Terra e o filho de Loki se matarão, é provável que Thor a anulou.

 As versões de Gamli e Úlfr onde Thor decapitou a serpente são muito importantes porque são datados de meados do século 10 d.C. que corresponde ao final do período pagão. A composição da Völuspá também é datada do final do século 10 d.C., porém a influência cristã na obra é inegável (note que no final pagão temos: os filhos dos deuses, um casal humano, uma árvore, um dragão e um deus que surgirá, que é exatamente o começo que é dito na bíblia: deus e seus anjos, um casal humano, uma árvore e uma serpente), o que coloca esta versão em dúvida. Porque parece que o fim do paganismo abre alas para o cristianismo, a antiga fé morre para dar entrada para a outra. Lembrando que usar "roupagem pagã" nos elementos cristãos (e vice versa) era comum no norte assim que o cristianismo chegou na Escandinávia: Jesus é apresentado como um guerreiro, São Olavo era descrito como Thor, Santa Lucia é associada ao Sol o que lembra a deusa Sunna e etc. Desse modo, elementos pagãos podem ter sido reinterpretados com "roupagem cristã" no período de transição entre as duas religiões. A possibilidade da profecia da Völva tenha sido anulada é grande, pois ela narrou eventos que poderia acontecer, então, Thor matou a serpente na pesca, evitando assim o pior no Ragnarök. Vale lembrar que narrações religiosas possuem muitas versões que nem sempre batem, mas provavelmente a versão mais antiga é onde Thor matava a serpente e sobrevivia ileso (algo mencionado pela renomada Hilda R. E. Davidson). A grande maioria das pessoas preferem acreditar na versão da Völuspá que é mais famosa e bem construída, do que nas versões de Gamli e Úlfr porque ambas conseguem pôr o Ragnarök em xeque.

 Os termos "laust af" e "lysti af" (de "ljósta af") usado na ação de Thor na cabeça da serpente no texto tem sentido de cortar fora, separar, arrancar, ou remover.

 Então, temos a opinião de dois homens pagãos, Gamli e Úlfr, que afirmam que Thor matou a serpente na pesca; e a opinião de Snorri que era cristão do século 13 d.C. achando que o monstro sobreviveu. Qual opinião é mais importante? A dos pagãos que veneravam Thor ou a de Snorri que era cristão e dizia que os deuses eram homens divinizados? Pensem nisso!  

 Outra coisa deve ser mencionada: a maioria das fontes sobre a religião nórdica e seus deuses chegaram até nós pelas mãos da igreja (exceto alguns textos rúnicos e arte pagã nas estelas), alguns relatos são provados pela arqueologia, mas devemos ter muito cuidado aqui, pois esta mesma instituição, no passado, fraldava milagres, relíquias, e era comum eles insultarem e rebaixarem as divindades nas sagas. Por isso devemos ter olhar crítico sempre! Os povos pagãos da Escandinávia passavam sua história oralmente, e as runas que era o alfabeto deles, era usado por quem entendia, afinal nem todos sabiam ler. 


FONTES:

Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall

Edda, Anthony Faulkes

Gods And Myths Of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson

Myth and Religion of the North: The Religion of Ancient Scandinavia, E. O. G. Turville-Petre

Myths of the Pagan North: The Gods of the Norsemen, Christopher Abram 

Norse Mythology: A Guide to the Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, John Lindow

Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson

The Poetic Edda, Henry Adams Bellows

Thor's Hammer, Hilda R. E. Davidson

SITES CONSULTADOS:

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i

http://www.vsnrweb-publications.org.uk/Saga-Book%20XXIV.pdf

Os Nove Mundos da cosmovisão nórdica

 É amplamente sabido que na cosmovisão nórdica, existem Nove Mundos ( Níu Heimar no original) sustentados pela árvore Yggdrasil ( Yggdrasil...

Mais Vistos