Mostrando postagens com marcador Freyja. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Freyja. Mostrar todas as postagens

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Quem praticou seiðr primeiro?

 É sempre muito complicado falar sobre ritos que envolvem os Vanir, por causa do pouco material sobre eles ter sobrevivido, ao contrário dos Æsir. Fotos de Internet.
 É provável, que por ser ritos ligados a sexualidade e feminidade, os coletores de mitos da idade média que eram cristãos, resolveram deixá-los de fora. Lembre-se que era século 13 DC, a censura era grande a tudo que envolvia outras religiões, principalmente material de teor feminino e sexual.
 Contudo, algumas descrições são exploradas aqui e ali, que foram registradas em algumas sagas e algum pormenor nas Eddas e Ynglinga Saga. A arqueologia também nos fala um pouco sobre o tema, que é muito interessante.
 O seiðr ("canto/encantamento") era a prática mais conhecida entre os deuses Vanir. Embora sua origem seja um mistério, existe fontes que apontam para três personagens: Freyja, Gullveig, e Svarthofdi (Svarthöfði).

Gullveig sendo atacada pelos Æsir. Arte de Lorenz Frølich.

 Freyja é apontada como praticante de tal magia, segundo a Ynglinga Saga, e ela teria ensinado para o próprio Odin (Óðinn) e aos Æsir após as guerras entre as duas tribos divinas.

"Dóttir Njarðar var Freyja, hon var blótgyðja, ok hon kendi fyrst með Ásum seið, sem Vönum var títt."

"A filha de Njord era Freyja, ela era sacerdotisa dos sacrifícios, e ela foi a primeira a ensinar seiðr entre os Æsir, que era costume no Vanir." (Trad. minha)

 Como vimos pela descrição, o seiðr era costume no Vanir e praticado e ensinado por Freyja. Isso a coloca como fundadora de tal prática.
 Gullveig também é apontada como praticante dessa arte, segundo a Völuspá, e teria sido maltratada entre os Æsir assim que chegou em Asgard (Ásgarðr). Não é claro o que ela fez, mas na sequência é citado a prática de seiðr onde ela visitava. Essa citação praticamente identifica as duas divindades (Gullveig e Freyja) como uma e a mesma. Porém, devemos ter cuidado aqui, porque nem tudo é o que parece! Gullveig poderia ser uma mensageira de Freyja, tal como Gná é a mensageira de Frigg. Os grandes deuses possuem mensageiros e criados: Thjalfi (Þjálfi) era criado de Thor (Þórr), Hermod (Hermóðr) era mensageiro de Odin, Skírnir era mensageiro de Freyr. Além disso, Gullveig foi rebatizada de "Heiðr", após ser queimada e espetada por lanças no salão de Odin. 

22.
"Heiði hana hétu
hvars til húsa kom,
völu velspáa,
vitti hon ganda;
seið hon, hvars hon kunni,
seið hon hug leikinn,
æ var hon angan
illrar brúðar."

22-"Heiðr a chamaram,
em qualquer casa que viesse
a esperta adivinha em profecia,
era sábia em mágica;
seiðr ela conhecia,
com seiðr ela brincava com mentes;
ela era sempre amada
pelas noivas malignas." (Trad. minha)

 Heiðr aparece como a filha do gigante Hrimnir (Hrímnir) e irmã de Hrossthjof (Hrossþjófr) na Völuspá in skamma:

4.
"Haki var Hveðnu
hóti beztr sona,
en Hveðnu var
Hjörvarðr faðir;
Heiðr ok Hrossþjófr
Hrímnis kindar."

04-"Haki era o maior
dos filhos de Hveðna,
mas Hjörvarðr era
o pai de Hveðna;
Heiðr e Hrossþjófr
eram descendentes de Hrímnir." (Trad. minha)

 Hrossthjof aparece como Rostiophus e/ou Rostiofus Phinnicus (cujo sobrenome transliterado do latim que significa "Finlandês, é do nórdico arcaico Finnr) na Gesta Danorum, que segundo Saxo Grammaticus era um profeta, e que ajudou Odin. "Hrossthjof" significa "Ladrão de Cavalo", o que sugere a captura desse animal por ele para práticas mágicas e divinatórias (os germânicos prestavam atenção no relinchar dos cavalos segundo Tácito). O cavalo era o animal sagrado de Odin e Freyr. O termo "Finnr" é sinônimo de "Sámi" (cujo povo é associado à magia nas sagas).
Ainda no poema Völuspá in skamma, na estrofe seguinte, encontramos o terceiro personagem da lista: Svarthofdi. Svarthofdi é citado como o pai dos praticantes de seiðr:
 
5.
"Eru völur allar
frá Viðolfi,
vitkar allir
frá Vilmeiði,
seiðberendr
frá Svarthöfða,
jötnar allir
frá Ymi komnir."

05-"Todas as Völur (Sibilas) são
descendentes de Viðólfr,
todos os Vitkar (Magos) são
da raça de Vilmeiði,
todos os Seiðberendr (Feiticeiros)
são descendentes de Svarthöfði,
todos os Jötnar (gigantes)
vieram de Ymir." (Trad. minha)

 O interessante é que "Svarthofdi" significa "Cabeça Negra", o que nos faz pensar no povo Sámi (da Lapônia), habitantes da Suécia, Noruega, Finlândia e partes da Rússia, que possui um histórico antigo de xamanismo. Essa conexão é evidente quando Odin é associado à Samsø no poema Lokasenna:

Loki kvað:
24.
"En þik síða kóðu
Sámseyu í,
ok draptu á vétt sem völur;
vitka líki
fórtu verþjóð yfir,
ok hugða ek þat args aðal."

Loki disse:
24-"Mas eles dizem que tu trabalhaste
magia seiðr na ilha Sámsey,
e tu batias em tambores como as Völur (Sibilas);
na forma de um Vitki (Mago)
tu viajaste entre os homens,
e eu creio que isso era de natureza argr (afeminado)." (Trad. minha)

 Samsø é uma ilha Dinamarquesa (que geralmente é aceito a identificação com Samsey), embora o nome desta mesma ilha é de etimologia incerta, isso nos faz pensar numa possível conexão entre Sámi e Samsø. A palavra "Sámi"  (de "sámr" do nórdico arcaico, veja abaixo) pode ter sido emprestada da palavra Proto-Báltico *žēmē, que significa "terra." Essa palavra é cognato com a Eslava "zemlja" que tem o mesmo significado. A deusa da terra da Lituânia, Žemyna, parece estar correlacionada, assim como a Zemes māte Letã. Conta-se que era costume sacrificar porcos negros (e outros animais da mesma cor) para a deusa, segundo o folclore. A terra e o solo nos faz lembrar da cor marrom, cor preta (solo fértil, mas também representando a morte, a sepultura). Os elfos negros (Svartálfar) são descritos negros como piche e viviam debaixo da terra.
 Odin e Skadi (Skaði) eram pais de Sæmingr, que embora de etimologia incerta, é interpretado como "(aquele do povo) Sámi". É possível que esteja relacionado com a palavra do nórdico arcaico "sámr", que significa "moreno" ou "preto", reforçando a ideia de alguém de cabelos pretos, distinto de alguém loiro, de origem Sámi. Isso corrobora com o significado de Svarthofdi, e parece conectar de algum modo com Sámi, Samsø e Sæmingr (moreno, com a cor preta dos cabelos dos Sámi, cor de terra). Então, é possível, que Svarthofdi fosse de origem Sámi assim como seus descendentes. A ilha Samsø poderia, talvez, ter praticantes de seiðr, já que em Uppsala na Suécia, os adoradores de Freyr praticavam ritos afeminados, e era costume oferecer vítimas de cor negra para o deus (Frøblot). Desse modo, podemos entender que Svarthofdi e seus descendentes eram adoradores (e/ou pertencentes ao clã) do Vanir. Tambores também eram usados por xamãs Sámi, comprovados pela arqueologia inclusive.
 Conclusão: Freyja foi a primeira a praticar seiðr, ela deve ter ensinado Gullveig/Heiðr, e Svarthofdi deve ter aprendido com a própria deusa ou até com Gullveig (que visitava as casas ensinando a magia). Porque seiðr é uma prática fortemente ligada as mulheres e ao feminino, embora homens pudessem aprender e praticar. Svarthofdi foi o primeiro ser masculino a praticar seiðr, por isso os praticantes são considerados os seus descendentes. A palavra "seiðberendr" significa "feiticeiros" como vimos, mas "berendr" vem de "bera", que significa "portar/trazer (o seiðr, a magia)", porém também significa "dar a luz", "dar nascimento", o que faz confirmar sua origem como feminina (falo da prática). Freyja era a deusa das mulheres, da fertilidade e do parto. O poema Oddrúnarkviða diz:

9.
"Svá hjalpi þér
hollar véttir,
Frigg ok Freyja
ok fleiri goð,
sem þú feldir mér
fár af höndum."

9."Assim te ajudem
os espíritos benevolentes,
Frigg e Freyja 
e muitos deuses,
que o perigo de mim tu
leve das mãos." (Trad. minha)

 Vale lembrar que "Heiðr" é um nome que aparece nas sagas associada a magia e bruxaria, mas é difícil saber se todas é a mesma personagem ou não. A Heiðr que foi até Asgard é uma figura divina. Os Vanir são associados aos gigantes por intermédio de Heiðr, filha do gigante Hrimnir. Do mesmo modo que os Æsir também eram por parte de Bestla, a mãe de Odin. Heiðr pode ter levado outro conhecimento aos Æsir como refinar ouro, e só depois levou o seiðr. Isso distingui ela de Freyja, porém as duas são associadas ao ouro. Mas, Gefjon, Frigg, Fulla e Sif também são associadas ao ouro. A genealogia de ambas também as distingui, uma é filha de Njord e a outra é filha de Hrimnir. A Völsunga Saga menciona que Hrimnir tinha uma filha chamada Hliod (Hljóð), e que ela era mensageira de Odin. Rerir queria um herdeiro e sua esposa orou aos deuses, Frigg ouviu as súplicas dela. A Frigg comentou com Odin que ordena Hliod levar uma maçã para Rerir e sua esposa. Eles comeram na elevação tumular. A filha de Hrimnir tomou a forma de um corvo e assim realizou a tarefa ordenada. Hrimnir é pai de três seres: Heiðr, Hrossthjof e Hliod, a primeira é associada à Freyja e os outros dois com Odin. E isso parece confirmar que Gullveig-Heiðr era uma mensageira de Freyja e não a própria deusa. Devo lembrar que Odin e Freyja dividem os mortos e ambos ordenam as Valquírias (Valkyrjur).
 Segundo o Gylfaginning, Freyja (e Freyr) nasceu depois da guerra Æsir-Vanir e isso é definitivo para separar Gullveig-Heiðr da filha de Njord. Porém, a Ynglinga Saga conta que Njord e seus filhos foram levados à Asgard depois da guerra e que já existiam. Mas, se eles foram levados depois, isso é decisivo para distinguir Freyja de Gullveig-Heiðr. Contudo, devemos levar em conta variações e versões diferentes do mito.
 Mas, ao que parece, pelas fontes, Freyja e Gullveig-Heiðr não são a mesma deusa, elas são distintas, são duas divindades diferentes. Basta ler e prestar atenção nas fontes antigas.


FONTES:
An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson
Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall 
Edda, Anthony Faulkes 
Gods and Myths of Northern Europe, Hilda Roderick Ellis Davidson 
Hyndluljóð e Völuspá inni skamma https://mega.nz/file/RbA0lSgR#1mc15kdmtPrUpAUweZMUcVQlx8cHPgIqVa631lwmu1Y, por Marcio A. Moreira
Myth and Religion of the North: The Religion of Ancient Scandinavia, E. O. G. Turville-Petre
Norse Mythology, a Guide to the Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, John Lindow
Saxo Grammaticus: The History of the Danes, Oliver Elton 
The Poetic Edda, Carolyne Larrington 
SITES CONSULTADOS:

sábado, 22 de julho de 2023

As origens de Freyr e Freyja

 Freyr e Freyja são os poderosos filhos de Njord (Njörðr) e sua esposa irmã não nomeada que pode ser Nerthus como vimos no post anterior. Freyr e Freyja eram muito venerados na Escandinávia, com numerosos topônimos (nome de lugar contendo o nome da divindade).

Arte tirada de internet representando Freyr e Freyja e seus animais sagrados.

 No Lokasenna e na Ynglinga Saga, Freyr e Freyja nasceram no Vanir e depois foram levados pelo Æsir num tratado de paz com troca de reféns. Ou seja, eles já eram nascidos na guerra divina.

 No Skírnismál, Skadi (Skaði) clamou que Freyr é seu filho, algo confirmado por Skirnir (Skírnir) no poema, mas, aqui pode ser no aspecto de consideração já que ela foi esposa de Njord. O Gylfaginning mencionou que os irmãos nasceram depois da separação de Njord e Skadi, o que é algo contraditório.

 No Grímnismál é dito que os deuses (tívar) deram Alfheim (Álfheimr) para Freyr como dádiva do dente no início dos tempos, o que indica que foi na mocidade desta poderosa divindade. Provavelmente isso ocorreu quando o trio Vanir foi aceito entre os Æsir: porque os três receberam grandes honrarias. Njord, Freyr e Freyja se tornaram os sacerdotes de sacrifícios dos deuses Æsir e Freyja ensinou magia Vanir para eles. Freyr e Freyja também eram amantes e já foram pegos juntos na cama segundo Loki (pode ser mentira, mas esse hábito sexual entre irmãos era comum entre os Vanir). No poema rúnico Anglo-saxão é registrado que Ing (Yngvi que é outro nome de Freyr) foi visto partindo em direção ao mar. Ing, Ingui, Yngvi e Ingunar-Freyr são variações das denominações de Freyr.

 Freyja pode ter nascido no mar tal como a Afrodite dos gregos (a qual tem muitas similaridades) e a Lakshmi dos hindus, Njord, seu pai, era regente desse elemento, e Vanaheim (Vanaheimr) é descrito sendo ladeado por um rio segundo a Ynglinga Saga (embora os relatos são evemerizados, eles podem conter algum eco pagão verdadeiro). A outra denominação de Freyja, Mardöll que significa "Brilho do Mar", parece confirmar isso. Com isso, podemos deduzir que os irmãos nasceram entre a união do mar (Njord) e da terra (Nerthus). A procissão de Nerthus ia da terra para o mar onde o escravo era sacrificado. Njord, Freyr e Freyja são todos associados ao mar e a terra tal como Nerthus. O mar e a terra são símbolos de abundância e vida. 


FONTES:

A Genealogia dos Deuses Nórdicos, Marcio Alessandro Moreira (Vitki Þórsgoði)

Dictionary of Norse Myth and Legend, Andy Orchard

Edda, Anthony Faulkes

The Poetic Edda, Carolyne Larrington

SITES CONSULTADOS:

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i

https://heimskringla.no/wiki/Ynglinga_saga

https://sourcebooks.fordham.edu/basis/tacitus-germanygord.asp

https://web.archive.org/web/19990417051946/http://www.ragweedforge.com/rpaa.html

https://web.archive.org/web/19991008051502/http://www.ragweedforge.com/rpae.html

quinta-feira, 23 de março de 2023

Os nomes dos planetas e astros na língua Nórdica

 Pouco se sabe sobre a astronomia germânica, porque como já falei antes, os povos germânicos passavam quase todos os seus conhecimentos oralmente. Mas, existe alguma coisa aqui e ali, que é um verdadeiro quebra-cabeças.

Deuses dos planetas e da semana: Tyr (Marte), Odin (Mercúrio), Thor (Júpiter), Frey (Saturno), Freyja e/ou Frigg (Vênus). Arte tirada da internet.

 Como vimos no post anterior, os povos germânicos transliteraram os nomes dos dias da semana quando adotaram a semana romana de 7 dias. Porém, irei focar nos escandinavos para o post não ficar muito longo. O domingo foi chamado, então, pelos escandinavos de "dia do Sol" ou Sunnudagr (Søndag em dinamarquês e norueguês, Söndag em sueco). A segunda-feira era o "dia da Lua" ou Mánadagr (Mandag em dinamarquês e norueguês, Måndag no sueco). A terça-feira era o "dia de Tyr" ou Týsdagr (Tirsdag no dinamarquês e norueguês, Tisdag no sueco). A quarta-feira era o "dia de Odin" ou Óðinsdagr (Onsdag em dinamarquês, norueguês e sueco). A quinta-feira era o "dia de Thor" ou Þórsdagr (Torsdag em dinamarquês, norueguês e sueco). A sexta-feira era o "dia de Freyja" ou Frjádagr (Fredag em dinamarquês, norueguês e sueco). O sábado era o "dia do banho" ou Laugardagr (Lørdag em dinamarquês e norueguês, Lördag em sueco). Os 7 dias da semana eram um reflexo dos 5 planetas visíveis a olho nu juntamente com o Sol e Lua. É claro que em cada país nórdico o dialeto mudou um pouco, mas o significado é o mesmo. Porém, a semana islandesa originalmente não começava no domingo, e sim sempre na quinta-feira no verão e sempre na sexta-feira e/ou sábado no inverno. Isso porque as estações eram divididas em duas partes de 6 meses: verão e inverno (a data do começo do inverno na sexta-feira e sábado existe contradições).

 Contudo, os 5 planetas, e a Lua tinham outras denominações, mas que eram uma referência aos deuses nórdicos. Isso foi registrado no manuscrito islandês Rím I do século 12 d.C. por sacerdotes cristãos (essa obra era uma compilação da contagem de tempo, calendário, sinais do zodíaco, que eram usados pela igreja pra determinar a data de suas celebrações). Vale lembrar que esses nomes podem ou não ser pré-cristãos, porque na Islândia os nomes dos deuses nórdicos na semana foram substituídos depois da cristianização e o mesmo pode ter ocorrido com o nome dos planetas. Na Clemens Saga que é datado entre o século 12 ou 13 d.C. podemos ler algo curioso: o planeta Vênus é chamado de Friggjar Stjarna ("Estrela de Frigg"). Voltando ao manuscrito Rím I, a Lua era chamada de Tungl ("Lua"), Marte era chamado Þrekstjarna ("Estrela da Coragem"), Mercúrio era Málsstjarna ("Estrela do Discurso"), Júpiter era Meginstjarna ("Estrela do Poder"), Vênus era Blóðstjarna ("Estrela de Sangue"), e Saturno era Gnógleiksstjarna ("Estrela da Abundância"). O Sol permaneceu com sua denominação comum: Sól ("Sol"). As características dos nomes planetários neste manuscrito islandês batem com os deuses Máni (deus da Lua, pois na Edda Em Prosa "Tungl" aparece como epiteto da Lua), Tyr (deus da coragem), Odin (deus da sabedoria e da escrita/palavra), Thor (deus do poder, pois ele é descrito como dotado de força e poder na Edda em Prosa e, por isso, ele vence todas as criaturas vivas, sua residência Þrúðheimr significa "Mundo do Poder"), Freyja (ou Frigg, deusa das mulheres, do fluxo menstrual, ambas deusas eram associadas ao parto na Edda Poética) e Njord (ou Freyr, deus da abundância). 

 Vênus era associada principalmente com Freyja na Escandinávia, mas ocasionalmente com Frigg também. Isso se deve por causa da confusão entre as duas deusas que possuem diversas similaridades. O nome do planeta Saturno: Gnógleiksstjarna ou "Estrela da Abundância" somado ao sábado que era o "dia do banho" e relacionado ao mesmo planeta parece confirmar sua conexão com Njord (ou Freyr). Njord era o deus dos mares e da abundância, e seu filho Freyr era associado ao mar, pois ele era dono do navio Skíðblaðnir e ele é o deus da abundância também.

 Seguindo a lógica da Clemens Saga é possível que os outros planetas eram assim denominados na era pré-cristã: Týs Stjarna ("Estrela de Tyr", Marte), Óðins Stjarna ("Estrela de Odin", Mercúrio), Þórs Stjarna ("Estrela de Thor", Júpiter), e Njarðar Stjarna ("Estrela de Njord", Saturno) ou Freys Stjarna ("Estrela de Freyr", Saturno). Infelizmente, apenas a "Estrela de Frigg" é mencionado nesta saga, embora incerto, provavelmente era desse jeito que os outros corpos celestes deveriam ser chamados no passado. Corroborando assim com os dias da semana escandinavo que contém o nome dos deuses correspondente aos 5 planetas, Sol e Lua. Porém, a Clemens Saga é uma tradução islandesa do latim da vida de São Clemente I (Papa Clemente I que também é conhecido como Clemente Romano). Desse modo, o nome do planeta Friggjar Stjarna (Vênus) pode apenas ser uma tradução do latim para o islandês, mas a evidência do fato dos dias da semana conter nomes de deuses, então, é muito possível que seja verdadeiro. O Templo de Júpiter era traduzido como Þórshof ('Templo de Thor") nos manuscritos islandeses, e na Escandinávia existem locais com essa denominação, corroborando a ideia, lugares onde o deus do trovão era realmente venerado. Nomes transliterados mantém algum fundo de verdade por assim dizer. 


FONTES:

An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson

Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall

Invocando os Deuses Nórdicos: dos tempos primitivos aos tempos modernos, Marcio Alessandro Moreira (Vitki Þórsgoði)

Gods and Myths of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson

Myth and Religion of the North: The Religion of Ancient Scandinavia, E. O. G. Turville-Petre  

The Icelandic Calendar, Svante Janson

SITES CONSULTADOS:

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar 

http://www.septentrionalia.net/etexts/

https://time-meddler.co.uk/the-old-icelandic-calendar/

domingo, 19 de março de 2023

Folclore Islandês - Dias da Semana

 Os povos germânicos adaptaram e adotaram a semana romana de 7 dias ao redor do 4 século d.C., mas traduziram o nomes das divindades estrangeiras pelas nativas. A tradução foi com base nos poderes e/ou símbolos comum a ambos panteões. Os romanos por sua vez adaptaram dos gregos, os gregos dos babilônicos e os babilônicos dos sumérios.

Caçada Selvagem dos deuses (Åsgårdsreien), arte de Peter Nicolai Arbo de 1868.

 A escolha de 7 dias da semana é referente aos 5 planetas visíveis a olho nu (Marte, Mercúrio, Júpiter, Vênus e Saturno) juntamente com o Sol e Lua (5 + 2 = 7. Na antiguidade os planetas eram reverenciados e cercados de misticismo e folclore. Na Escandinávia o domingo era chamado de o dia do Sol (Sunnudagr), a segunda-feira era o dia da Lua (Mánadagr), a terça-feira era o dia de Tyr (Týsdagr), a quarta-feira era dia de Odin (Óðinsdagr), a quinta-feira era dia de Thor (Þórsdagr), a sexta-feira era dia de Freyja ou Frigg (Frjádagr) e sábado era o dia do banho (Laugardagr).

 Os germânicos substituíram os deuses greco-romanos da semana: o deus Hélios ou Sol (domingo), senhor do astro Solar, pela deusa Sunna ou Sól; Selene ou Luna (segunda-feira), a deusa da Lua, por Máni, o deus da Lua; Ares ou Marte (terça-feira), o deus da guerra e do furor guerreiro, por Ziu/Tiw/Týr; Hermes ou Mercúrio (quarta-feira), deus das artes, magia, intelecto, sabedoria, por Wodan/Woden/Óðinn; Zeus ou Júpiter (quinta-feira), senhor do clima, das tempestades e do raio, por Þonar/Þunor/Þorr; Afrodite ou Vênus (sexta-feira), deusa do amor, beleza e fertilidade, por Freyja (ou Frigg); e Saturno (sábado) ficou sem um correspondente claro, mas foi associado a água ("dia do banho"). Os deuses Njord (Njörðr) e Freyr são identificados com Saturno em manuscritos antigos, pois eles eram deuses da abundância, colheita e ligado ao plantio. Há outras semelhanças: Njord era o chefe do Vanir e foi enviado aos Æsir e Saturno foi expulso do cargo de rei dos deuses e enviado ao Campo dos Afortunados ou no Lácio (dependendo da fonte). Saturno tinha uma foice e Freyr uma espada. Njord era associado as águas, pois vivia perto do mar, sua contraparte germânica, Nerthus, também tinha conexão com a água. É muito possível que o sábado era ligado ao Vanir, que conhecem o futuro, que é o dia que representa a sorte. Assim, temos três Æsir nos dias da semana: Tyr, Odin e Thor; dois Vanir: Freyja e Njord (ou Freyr); e dois seres divinos: Sunna e Máni. A raça de Sunna e Máni são é clara, eles são chamados de filhos de Mundilfari que é referido como um homem (maðr), mas pode ser apenas pra indicar o sexo biológico dele (o mesmo acontece com deuses e gigantes). Contudo, vale lembrar que o Sol e Lua foram criados das fagulhas de Muspellsheim (Múspellsheimr) pelo trio criador, os filhos de Bor (Borr), e que os irmãos Sunna e Máni foram colocados no céu para conduzir esses astros, ou seja, os astros já estavam criados e seus condutores foram colocados depois. É possível que eles sejam elfos, porque a Sól é chamada de "Glória dos Elfos" (Álfröðull). A sexta-feira é relacionado a Freyja na Escandinávia e a Frigg no território inglês.

 O folclore da Islândia coletado em 1866 contava que:

"É dito que quem nasceu domingo, nasceu para vencer! 

 "Numa segunda-feira, para incomodar;

Numa terça-feira, para prosperar;

Numa quarta-feira, para moldar;

Numa quinta-feira, para a glória;

Numa sexta-feira, para a riqueza;

Num sábado, para a sorte." 

Tradução minha. 

 Com base no folclore, é possível que isso venha de longa data, práticas antigas, mesmo quando uma religião é extinta, permanece no imaginário popular. O Sol representa a vitória porque a luz ilumina a escuridão e afasta as trevas que é os obstáculos (a deusa Sól tem esse papel, pois ela transforma Trolls em pedra com sua luz). A Lua muda de fases e simboliza a incerteza, confusão, inconstância e por isso incomoda e causa problemas (o deus Máni é associado aos eclipses, fim de ciclo, mudanças e antigamente a loucura era associado ao corpo celeste). A terça-feira representa a coragem e persistência para superar desafios e assim prosperar por sua determinação (Tyr representa exatamente isso na antiga fé). A quarta-feira simboliza o intelecto para realizar, modelar e moldar os objetivos (Odin é o moldador de destinos, reis, heróis, ele é o senhor das artes). A quinta-feira representa a força para superar obstáculos e com isso ter a glória desejada (Thor é o maior guerreiro de Asgard (Ásgarðr), é o maior dos heróis, e o mais famoso dos deuses e heróis). A sexta-feira simboliza a prosperidade, abundância e riqueza (Freyja é a deusa que possui tesouros e é filha do deus da abundância e riqueza: Njord). O sábado representa o destino e a sorte, mas é como um presente: pode ser benigno como maligno. 


FONTES:

An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson

As Casas dos Deuses no Grímnismál e o Zodíaco, Marcio A. Moreira

Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall

Icelandic Legends, collected by Jón Arnason trad. de George E. J. Powell & Eiríkr Magnússon

Invocando os Deuses Nórdicos dos Tempos Primitivos aos Tempos Modernos, Marcio A. Moreira

Scandinavian Mythology, Hilda R.E. Davidson

Os Nove Mundos da cosmovisão nórdica

 É amplamente sabido que na cosmovisão nórdica, existem Nove Mundos ( Níu Heimar no original) sustentados pela árvore Yggdrasil ( Yggdrasil...

Mais Vistos