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terça-feira, 23 de junho de 2026

Búri, o primeiro ser?

 Buri (Búri) é o primeiro deus surgido depois de Ymir e a vaca Audhumbla (Auðhumbla). Mitos sobre Búri, infelizmente, não chegaram até nós, exceto por sua origem. Fotos de Internet.

Audhumbla libertando Búri do gelo, ilustração antiga.

 Os quatro textos mais importantes da Edda em Prosa são conhecidos como Codex Regius/Konungsbók ou Livro do Rei (GkS 2367 4to), o Codex Upsaliensis ou Edda de Uppsala, o Codex Wormianus (AM 242 fol), e o Codex Trajectinus ou Trektarbók (MSS 1374). Cada versão possui diferenças e nenhum deles está completo.

 Os três mais antigos são: o Codex Upsaliensis, o Codex Regius, e o Codex Wormianus (os três são datados do século 14 e com o Regius e Upsaliensis sendo considerados os mais antigos). O Codex Trajectinus é o mais recente, sendo datado do século 16, porém a obra é considerado uma cópia de um manuscrito do século 13.

 O mais intrigante de tudo é o surgimento de Buri no Codex Trajectinus, pois é diferente dos outros três. O que abre outras possibilidades. Primeiro vamos ver as três versões comparadas (obs: o Codex Regius será referido como "R", o Codex Upsaliensis como "U", e o Codex Wormianus como "W") do Gylfaginning 6.  Recapitulando: assim que a vaca Audhumbla surgiu, ela se alimentou do sal das pedras de gelo:

 "Ok hinn fyrsta er hon sleikti steina, kom ór steininum at qveldi mannz har, annan dag mannz havfvd, þriþia dag var þar allr maðr: sa er nefndr Bvri (E no primeiro que ela lambeu as pedras, surgiram das pedras no entardecer os cabelos de um homem, no segundo dia a cabeça de um homem, no terceiro dia ali estava um homem por inteiro: que se chamava Buri)." R.

 "Ok enn fyrsta dag er hon sleikti kom or manz hár annan dag havfvd enn þriþia allr maþr er Bvri het (E no primeiro dia que ela lambeu surgiram os cabelos de um homem, no segundo dia a cabeça, mas no terceiro [dia] um homem inteiro que se chamava Buri)." U.

 "Ok hinn fyrsta dagh er hon sleiktí steinana. kom or steinínum at kuelldi mannz háár. Annan dag mannz hofut. þriðia dag uar þat allr maðr sa er nefndr Buri (E no primeiro dia que ela lambeu as pedras, surgiram os cabelos de um homem nas pedras ao entardecer. No segundo dia a cabeça de um homem. No terceiro dia estava um homem inteiro que era chamado Buri)." W.

 Já o Codex Trajectinus (que será referido como "T") temos:

 "Ok inn fyrsta steinanna er hun sleikdi kom or steininom at quelldi manshár. Annann dag mans hofut. þridia dagur var þat allr madr sa er nefndr Buri (E na primeira pedra que ela lambeu, surgiram das pedras no entardecer os cabelos de um homem. No segundo dia a cabeça de um homem. No terceiro dia estava um homem inteiro que se chamava Buri)." T

 No texto do Codex Regius (R) falta a palavra nordica dag ("dia") que muitos tradutores e estudiosos acrescentam (para: "ok hinn fyrsta dag er hon sleiktí steina/E no primeiro dia que ela lambeu as pedras"), mas seu contexto não deixa dúvida que se tratava do primeiro dia. Já no texto do Codex Trajectinus isso não é o caso, o texto dá a entender que foi no primeiro dia, mas na primeira pedra de gelo formada.

 O texto de T parece sugerir que a vaca Audhumbla lambeu a primeira pedra de gelo formada no Ginnungagap, isso nos leva a pensar que o deus Buri surgiu primeiro que todos, mas estava soterrado por blocos de gelo formados uns por cima uns dos outros. Desse modo, Ymir emergiu primeiro por estar nas camadas superiores. Isso explicaria os três dias pra liberta-lo por completo do gelo. Outra coisa parece corroborar esta ideia: a etimologia de Buri. O teônimo "Buri" significa "gerador/produtor" (mas também "pai"). Teria Buri se auto gerado nos gelos sozinho e antes de Ymir?

 Buri transliterado em runas fica "Berkana", "Uruz", "Raido" e "Isa". Berkana é associada ao nascimento, Uruz é relacionado com auroque e chuva/líquido, Raido é o movimento e Isa é o gelo (mas indica algo, que pode ser um ser, indivíduo), então temos: Nascido (B) pela Vaca (U) movendo (R) o gelo (I) ou Surgido (B) pela água (U) movida (R) do gelo (I). O nome também indica: Gerador (B) do líquido (U) que move (R) o indivíduo (I), que é o sangue ou sêmen que mantém a linhagem e as gerações (algo bem próximo do significado do nome). Ambos significados são possíveis.

 O relato descrito no Codex Trajectinus pode ser um erro do copista, porém também pode ser uma versão do mito (o que é comum em religiões antigas).

 Buri possui algumas similaridades com o Mitra, que é um importante deus Persa. Mitra nasceu de uma rocha na noite mais fria de inverno (do solstício), e ele era associado ao touro, segundo os mitos. Como vimos, Buri surgiu da pedra de gelo primordial e ele foi libertado do local pela vaca Audhumbla. Outro que é similar é Tuisto que nasceu da terra, segundo Tácito.

 Já foi sugerido que Buri era a personificação da terra elevada do mar, e que seu filho Bor seria as montanhas que representava o Cáucaso que era conhecida como Borz pelos Persas.

 O mais interessante é que o mito de Ymir, Audhumbla e Buri parece ser um reflexo celestial das constelações de Gêmeos, Touro e Órion no céu. Ymir foi amamentado por Audhumbla por suas quatro tetas que jorravam leite enquanto a vaca lambeu e libertou Buri do gelo. A constelação de Gêmeos e Touro são separados pelos dois pontos cardeais primordiais Sul e Norte com o plano galático nas proximidades (durante período específico do ano) e tendo Órion logo abaixo de Touro. Isso nos faz pensar nas quatro torrentes de leite que alimentou Ymir quando ela libertar Buri. Os 4 Landvættir ("Espíritos da Terra") parecem confirmar a ideia: a constelação de Órion é o Bergrisi ("Gigante da Montanha", gigantes são seres anteriores a criação) e Touro é o Griðungr ("Touro"). Veja a imagem abaixo, print retirado do programa Stellarium visto de Oslo na Noruega no dia 22/05/794. O verão começava entre 19-25 do mês Harpa no antigo calendário Islandês que corresponde à Abril no calendário Gregoriano (e entre 9-15 do Juliano). Lembrando que no Norte as tradições pré-cristãs eram duas estações de seis meses (Inverno e Verão).

Na cosmogonia nórdica, Ymir nasceu no meio do Ginnungagap que era o ponto de encontro entre o Norte e o Sul após o derretimento dos gelos, depois veio Audhumbla e Buri. O plano galático (a linha branca na foto) passa ao lado das direções Norte e Sul ficando no meio de Touro e Gêmeos. Órion, fica logo ao lado da boca de Touro. Este cenário celeste é similar ao relato da criação nórdica. Coincidência ou não?! Vale lembrar que as eras astrológicas retrocedem (exemplo: Peixes → Aquário → Capricórnio → Sagitário, etc.) devido à precessão dos equinócios.

 Vale ressaltar que essas teorias são apenas suposições, porém interessantes que eu resolvi compartilhar com vocês!

FONTES:

An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson

As Casas dos Deuses no Grímnismál e o Zodíaco I (https://mega.nz/file/xWxShDgK#ZC3ofIueWJlPHl_O34NIu7Cg49wjathJrrxjlgmN2OU) & II (https://mega.nz/file/YbQinZAT#WbzlMDXB5ouhv5_x89xrmceB-MMiokUC4eadBppSSCo), por Marcio Alessandro Moreira

Cassell's Dictionary of Norse Myth and Legend, Andy Orchard

Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall

Edda, Anthony Faulkes

Icelandic Calendar, Svante Janson

Norse Mythology, a Guide to the Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, John Lindow

Northern Antiquities; or, An historical account of the manners, customs, religion and laws, maritime expeditions and discoveries, language and literature of the ancient Scandinavians, Paul-Henri Mallet

O Número 108 no Grímnismál, Marcio A. Moreira https://mega.nz/file/BaIAECpB#eXPanjZs7Shn5y0UtRivc6k0Ir1QC-UE6sAk0MP3hf0

SITES CONSULTADOS: 

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i

https://newerajournal.com/index.php/newera/article/view/89/87

https://www.ricardocosta.com/traducoes/textos/germania-98-d-c

https://www.uu.nl/en/special-collections/collections/manuscripts/modern-manuscripts/the-codex-trajectinus-of-the-prose-edda

https://web.archive.org/web/20080105215732/http://www.hi.is/~eybjorn/gg/gg4par06.html

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Quem é o rei dos deuses?

 É amplamente sabido que Odin (Óðinn) é o rei dos deuses, mas há fortes evidências de que nem sempre ele permaneceu nesse cargo. Fotos de Internet.
 Por duas vezes ele deixou esse cargo: numa vez ele viajou pelo mundo por um período longo de tempo sendo substituído por seus irmãos Vili e Ve (Vili ok Vé), na segunda vez ele foi banido pelos deuses por ter forçado Rind (Rindr) a lhe dar um filho que vingaria a morte de Baldr e Ullr o substitui como rei por quase 10 anos (mas, depois os deuses o perdoaram e ele recuperou seu cargo).
 Mithodin (Mithothyn no latim)​, certa vez, também substituiu Odin, mas ele mudou a forma de adoração aos deuses e acabou sendo expulso. Sua identidade é um mistério, mas ele é descrito como ilusionista e mágico o que sugere ser Loki. Lodur (Lóðurr) é outro nome de Loki (segundo os poemas Lokrur e Þrymlur) e ele aparece como um dos criadores da humanidade. Vale lembrar que Lodur é outro nome de Ve, desse modo, o relato que menciona os irmãos de Odin governando os deuses é corroborado (Loki/Lodur/Ve). 
 É possível que Tyr (Týr), num período antigo, também governou Asgard (Ásgarðr) no lugar de Odin, pois ele é chamado de "governante do templo" (hófa hilmir) no poema rúnico Islandês. Tyr é relatado etimologicamente ao Zeus Grego e ao Júpiter Romano e ambos eram reis dos deuses em seus respectivos panteões. Mas, Dyaus, a contraparte Védica, não manteve esse cargo, isso ficou nas mãos de Indra (análogo a Zeus, Júpiter e Thor).
 Outro deus que parece ter tido essa função foi Thor (Þórr). Thor aparece como fundador da família dos deuses no prólogo da Edda em Prosa. Na Upphaf Allra Frasagna, Thor aparece como pai de Odin (Odin son Þors/Odinus Thori filius) e fundador do clã dos deuses e portanto seu primeiro rei. Seu epíteto "Ásabragr" parece confirmar isso, pois significa "Chefe dos Æsir" ou "Chefe dos Deuses" (fortalecendo a ideia de que Thor era o rei dos deuses). Adam de Bremen mencionou que Thor era representado sentado no trono no templo de Uppsala (Thor in medio solium habeat tricoline) tendo Odin e Freyr ao se lado, numa das sagas algo similar é dito: o deus era representado nos pilares do alto assento das casas (lugar de destaque, de prestigio dos chefes). E numa das sagas, é dito que ele é o “líder dos deuses pagãos” (“höfðingja heiðinna guða”). Thor ainda é chamado de "Þrúðvaldr Goða" ou “Poderoso Líder dos Deuses”. Thor é muitas vezes identificado com Júpiter nos registros antigos.

Odin, Thor e Frigg, gravura antiga.

 Freyr também parece ter governado os deuses por algum período, pois ele é chamado de "regente dos deuses" (deorum satrapa) por Saxo Grammaticus. 
 É muito provável que quando Odin saia em viagens longas e demoradas, algum deus era deixado e/ou colocado em seu lugar até seu retorno.
 Também se deve tomar cuidado e ter um olhar critico, porque as fontes descrevem os deuses de forma evemerizada (teoria que eram mortais divinizados). Isso porque a grande maioria delas foram coletadas por cristãos já no período cristão.
 Agora iremos examinar as fontes antigas e estrangeiras. Procópio relatou que Ares, o deus da guerra, era o maior dos deuses do povo de Thule (Escandinávia). Os inimigos capturados por esse povo, eram pendurados em árvores, ou eram atirados em espinhos ou tinha outra morte violenta. É sabido que homens eram sacrificados em árvores em honra de Odin, o deus ainda havia espetado Brynhildr com um espinho mágico, os seus escolhidos eram mortos de forma violenta. Os Gauti é mencionado como a mais numerosa nação de Thule. Gauti é um dos nomes de Odin. O Ares aqui deve ser Odin e não Tyr.
 Jordanes nos contou que Marte era adorado pelos Godos, e que eles penduravam vitimas em árvores. Novamente aqui deve se tratar de Odin. Odin é associado à árvore nos mitos (sua conexão com Yggdrasill é bem explícito). Existem petroglifos na Suécia da Idade do Bronze (c. 1800 a 550 a c.) onde um deus ou xamã está em cima de uma árvore, fortalecendo essa hipótese de que Odin era conhecido na Escandinávia séculos antes do que se pensava.
 Tácito nos informou sobre o deus governante de tudo (regnator omnium deus) que era venerado numa floresta pela tribo dos Semnones. Esta divindade era associado as amarras, ancestralidade e bosque, coisas que eram associadas à Odin posteriormente. Novamente aqui deve se tratar de Odin, embora Tyr pode ser outro candidato. Vale lembrar que Odin foi identificado com Marte por Adam de Bremen (por causa de seu aspecto bélico) no templo de Uppsala.
 A tribo germânica conhecida como Tencteri, segundo Tácito, adorava Marte como líder dos seus deuses (et praecipuo deorum Marti). Provavelmente deve se tratar de Odin aqui, mas pode ser Tyr também. Odin é um deus com características de Marte, de Mercúrio, de Saturno, de Júpiter, de Plutão e de Baco. Odin é um deus de múltiplas faces e muitas atribuições.

FONTES:
As Similaridades Entre Þórr, Perkunas, Zeus, Júpiter, Indra e Héracles https://mega.nz/file/VbxRCKjQ#e0pm2D2LsgwQt54EtqedL4CQ2ylxlJQm7TKeg8PrSk4, Marcio Alessandro Moreira
Edda, Anthony Faulkes
Óðinn e os Guerreiros Berserkir, Úlfheðnar e Einherjar https://mega.nz/file/cXgjjCaL#zE4Fi2JK3VEM6JhD4YQs9anCNJFfKuRZmrA8CKtnlCM, Marcio Alessandro Moreira
Saxo Grammaticus: Gesta Danorum The History of the Danes, Peter Fisher (2 volumes)
Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson
Scriptores Rerum Danicarum Medii Ævi, Jacobus Langebek
The Poetic Edda, Carolyne Larrington
Týr e Marte - O Caso da Interpretação Romana https://mega.nz/file/UH4VRa7R#om6jCvIXwPlB04tPP2kZJyKBYIW0PjlFX2q8Vyx_O7I, Marcio Alessandro Moreira
SITES CONSULTADOS:

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Quem praticou seiðr primeiro?

 É sempre muito complicado falar sobre ritos que envolvem os Vanir, por causa do pouco material sobre eles ter sobrevivido, ao contrário dos Æsir. Fotos de Internet.
 É provável, que por ser ritos ligados a sexualidade e feminidade, os coletores de mitos da idade média que eram cristãos, resolveram deixá-los de fora. Lembre-se que era século 13 DC, a censura era grande a tudo que envolvia outras religiões, principalmente material de teor feminino e sexual.
 Contudo, algumas descrições são exploradas aqui e ali, que foram registradas em algumas sagas e algum pormenor nas Eddas e Ynglinga Saga. A arqueologia também nos fala um pouco sobre o tema, que é muito interessante.
 O seiðr ("canto/encantamento") era a prática mais conhecida entre os deuses Vanir. Embora sua origem seja um mistério, existe fontes que apontam para três personagens: Freyja, Gullveig, e Svarthofdi (Svarthöfði).

Gullveig sendo atacada pelos Æsir. Arte de Lorenz Frølich.

 Freyja é apontada como praticante de tal magia, segundo a Ynglinga Saga, e ela teria ensinado para o próprio Odin (Óðinn) e aos Æsir após as guerras entre as duas tribos divinas.

"Dóttir Njarðar var Freyja, hon var blótgyðja, ok hon kendi fyrst með Ásum seið, sem Vönum var títt."

"A filha de Njord era Freyja, ela era sacerdotisa dos sacrifícios, e ela foi a primeira a ensinar seiðr entre os Æsir, que era costume no Vanir." (Trad. minha)

 Como vimos pela descrição, o seiðr era costume no Vanir e praticado e ensinado por Freyja. Isso a coloca como fundadora de tal prática.
 Gullveig também é apontada como praticante dessa arte, segundo a Völuspá, e teria sido maltratada entre os Æsir assim que chegou em Asgard (Ásgarðr). Não é claro o que ela fez, mas na sequência é citado a prática de seiðr onde ela visitava. Essa citação praticamente identifica as duas divindades (Gullveig e Freyja) como uma e a mesma. Porém, devemos ter cuidado aqui, porque nem tudo é o que parece! Gullveig poderia ser uma mensageira de Freyja, tal como Gná é a mensageira de Frigg. Os grandes deuses possuem mensageiros e criados: Thjalfi (Þjálfi) era criado de Thor (Þórr), Hermod (Hermóðr) era mensageiro de Odin, Skírnir era mensageiro de Freyr. Além disso, Gullveig foi rebatizada de "Heiðr", após ser queimada e espetada por lanças no salão de Odin. 

22.
"Heiði hana hétu
hvars til húsa kom,
völu velspáa,
vitti hon ganda;
seið hon, hvars hon kunni,
seið hon hug leikinn,
æ var hon angan
illrar brúðar."

22-"Heiðr a chamaram,
em qualquer casa que viesse
a esperta adivinha em profecia,
era sábia em mágica;
seiðr ela conhecia,
com seiðr ela brincava com mentes;
ela era sempre amada
pelas noivas malignas." (Trad. minha)

 Heiðr aparece como a filha do gigante Hrimnir (Hrímnir) e irmã de Hrossthjof (Hrossþjófr) na Völuspá in skamma:

4.
"Haki var Hveðnu
hóti beztr sona,
en Hveðnu var
Hjörvarðr faðir;
Heiðr ok Hrossþjófr
Hrímnis kindar."

04-"Haki era o maior
dos filhos de Hveðna,
mas Hjörvarðr era
o pai de Hveðna;
Heiðr e Hrossþjófr
eram descendentes de Hrímnir." (Trad. minha)

 Hrossthjof aparece como Rostiophus e/ou Rostiofus Phinnicus (cujo sobrenome transliterado do latim que significa "Finlandês, é do nórdico arcaico Finnr) na Gesta Danorum, que segundo Saxo Grammaticus era um profeta, e que ajudou Odin. "Hrossthjof" significa "Ladrão de Cavalo", o que sugere a captura desse animal por ele para práticas mágicas e divinatórias (os germânicos prestavam atenção no relinchar dos cavalos segundo Tácito). O cavalo era o animal sagrado de Odin e Freyr. O termo "Finnr" é sinônimo de "Sámi" (cujo povo é associado à magia nas sagas).
Ainda no poema Völuspá in skamma, na estrofe seguinte, encontramos o terceiro personagem da lista: Svarthofdi. Svarthofdi é citado como o pai dos praticantes de seiðr:
 
5.
"Eru völur allar
frá Viðolfi,
vitkar allir
frá Vilmeiði,
seiðberendr
frá Svarthöfða,
jötnar allir
frá Ymi komnir."

05-"Todas as Völur (Sibilas) são
descendentes de Viðólfr,
todos os Vitkar (Magos) são
da raça de Vilmeiði,
todos os Seiðberendr (Feiticeiros)
são descendentes de Svarthöfði,
todos os Jötnar (gigantes)
vieram de Ymir." (Trad. minha)

 O interessante é que "Svarthofdi" significa "Cabeça Negra", o que nos faz pensar no povo Sámi (da Lapônia), habitantes da Suécia, Noruega, Finlândia e partes da Rússia, que possui um histórico antigo de xamanismo. Essa conexão é evidente quando Odin é associado à Samsø no poema Lokasenna:

Loki kvað:
24.
"En þik síða kóðu
Sámseyu í,
ok draptu á vétt sem völur;
vitka líki
fórtu verþjóð yfir,
ok hugða ek þat args aðal."

Loki disse:
24-"Mas eles dizem que tu trabalhaste
magia seiðr na ilha Sámsey,
e tu batias em tambores como as Völur (Sibilas);
na forma de um Vitki (Mago)
tu viajaste entre os homens,
e eu creio que isso era de natureza argr (afeminado)." (Trad. minha)

 Samsø é uma ilha Dinamarquesa (que geralmente é aceito a identificação com Samsey), embora o nome desta mesma ilha é de etimologia incerta, isso nos faz pensar numa possível conexão entre Sámi e Samsø. A palavra "Sámi"  (de "sámr" do nórdico arcaico, veja abaixo) pode ter sido emprestada da palavra Proto-Báltico *žēmē, que significa "terra." Essa palavra é cognato com a Eslava "zemlja" que tem o mesmo significado. A deusa da terra da Lituânia, Žemyna, parece estar correlacionada, assim como a Zemes māte Letã. Conta-se que era costume sacrificar porcos negros (e outros animais da mesma cor) para a deusa, segundo o folclore. A terra e o solo nos faz lembrar da cor marrom, cor preta (solo fértil, mas também representando a morte, a sepultura). Os elfos negros (Svartálfar) são descritos negros como piche e viviam debaixo da terra.
 Odin e Skadi (Skaði) eram pais de Sæmingr, que embora de etimologia incerta, é interpretado como "(aquele do povo) Sámi". É possível que esteja relacionado com a palavra do nórdico arcaico "sámr", que significa "moreno" ou "preto", reforçando a ideia de alguém de cabelos pretos, distinto de alguém loiro, de origem Sámi. Isso corrobora com o significado de Svarthofdi, e parece conectar de algum modo com Sámi, Samsø e Sæmingr (moreno, com a cor preta dos cabelos dos Sámi, cor de terra). Então, é possível, que Svarthofdi fosse de origem Sámi assim como seus descendentes. A ilha Samsø poderia, talvez, ter praticantes de seiðr, já que em Uppsala na Suécia, os adoradores de Freyr praticavam ritos afeminados, e era costume oferecer vítimas de cor negra para o deus (Frøblot). Desse modo, podemos entender que Svarthofdi e seus descendentes eram adoradores (e/ou pertencentes ao clã) do Vanir. Tambores também eram usados por xamãs Sámi, comprovados pela arqueologia inclusive.
 Conclusão: Freyja foi a primeira a praticar seiðr, ela deve ter ensinado Gullveig/Heiðr, e Svarthofdi deve ter aprendido com a própria deusa ou até com Gullveig (que visitava as casas ensinando a magia). Porque seiðr é uma prática fortemente ligada as mulheres e ao feminino, embora homens pudessem aprender e praticar. Svarthofdi foi o primeiro ser masculino a praticar seiðr, por isso os praticantes são considerados os seus descendentes. A palavra "seiðberendr" significa "feiticeiros" como vimos, mas "berendr" vem de "bera", que significa "portar/trazer (o seiðr, a magia)", porém também significa "dar a luz", "dar nascimento", o que faz confirmar sua origem como feminina (falo da prática). Freyja era a deusa das mulheres, da fertilidade e do parto. O poema Oddrúnarkviða diz:

9.
"Svá hjalpi þér
hollar véttir,
Frigg ok Freyja
ok fleiri goð,
sem þú feldir mér
fár af höndum."

9."Assim te ajudem
os espíritos benevolentes,
Frigg e Freyja 
e muitos deuses,
que o perigo de mim tu
leve das mãos." (Trad. minha)

 Vale lembrar que "Heiðr" é um nome que aparece nas sagas associada a magia e bruxaria, mas é difícil saber se todas é a mesma personagem ou não. A Heiðr que foi até Asgard é uma figura divina. Os Vanir são associados aos gigantes por intermédio de Heiðr, filha do gigante Hrimnir. Do mesmo modo que os Æsir também eram por parte de Bestla, a mãe de Odin. Heiðr pode ter levado outro conhecimento aos Æsir como refinar ouro, e só depois levou o seiðr. Isso distingui ela de Freyja, porém as duas são associadas ao ouro. Mas, Gefjon, Frigg, Fulla e Sif também são associadas ao ouro. A genealogia de ambas também as distingui, uma é filha de Njord e a outra é filha de Hrimnir. A Völsunga Saga menciona que Hrimnir tinha uma filha chamada Hliod (Hljóð), e que ela era mensageira de Odin. Rerir queria um herdeiro e sua esposa orou aos deuses, Frigg ouviu as súplicas dela. A Frigg comentou com Odin que ordena Hliod levar uma maçã para Rerir e sua esposa. Eles comeram na elevação tumular. A filha de Hrimnir tomou a forma de um corvo e assim realizou a tarefa ordenada. Hrimnir é pai de três seres: Heiðr, Hrossthjof e Hliod, a primeira é associada à Freyja e os outros dois com Odin. E isso parece confirmar que Gullveig-Heiðr era uma mensageira de Freyja e não a própria deusa. Devo lembrar que Odin e Freyja dividem os mortos e ambos ordenam as Valquírias (Valkyrjur).
 Segundo o Gylfaginning, Freyja (e Freyr) nasceu depois da guerra Æsir-Vanir e isso é definitivo para separar Gullveig-Heiðr da filha de Njord. Porém, a Ynglinga Saga conta que Njord e seus filhos foram levados à Asgard depois da guerra e que já existiam. Mas, se eles foram levados depois, isso é decisivo para distinguir Freyja de Gullveig-Heiðr. Contudo, devemos levar em conta variações e versões diferentes do mito.
 Mas, ao que parece, pelas fontes, Freyja e Gullveig-Heiðr não são a mesma deusa, elas são distintas, são duas divindades diferentes. Basta ler e prestar atenção nas fontes antigas.


FONTES:
An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson
Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall 
Edda, Anthony Faulkes 
Gods and Myths of Northern Europe, Hilda Roderick Ellis Davidson 
Hyndluljóð e Völuspá inni skamma https://mega.nz/file/RbA0lSgR#1mc15kdmtPrUpAUweZMUcVQlx8cHPgIqVa631lwmu1Y, por Marcio A. Moreira
Myth and Religion of the North: The Religion of Ancient Scandinavia, E. O. G. Turville-Petre
Norse Mythology, a Guide to the Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, John Lindow
Saxo Grammaticus: The History of the Danes, Oliver Elton 
The Poetic Edda, Carolyne Larrington 
SITES CONSULTADOS:

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O que causou a desavença entre Freyr e Surtr?

 É, nós sabemos que segundo as duas Eddas, Freyr e Surtr eram inimigos, porém não aprofunda na causa da desavença entre as duas divindades. Fotos de Internet.

 As fontes apenas mencionam que Freyr e Surtr serão adversários durante o Ragnarok, no final dos tempos. Nós possuímos informações que mostram a causa da inimizade entre Odin (Óðinn) e Fenrir e de Thor (Þórr) e Jormungand (Jörmungandr). Odin mandou prender Fenrir, enquanto Thor ficou sabendo da ameaça da serpente e quis destruir o monstro. Os deuses sabiam que essas crias de Loki eram ameaças que deveriam ser contidas.

Freyr by Johannes Gehrts.

 Eu suponho que a rixa entre Freyr e Surtr deve ter alguma coisa a ver com fronteiras ou proximidade. Por que digo isso? Eu digo isso usando as fontes analisando os detalhes: segundo o Grímnismál, os deuses deram à Freyr a região de Alfheim (Álfheimr) no início dos tempos, lar dos elfos da luz (Ljósálfar), depois da guerra Æsir-Vanir. O Gylfaginning afirma que os elfos da luz viviam no céu do sul.

Þá mælti Gangleri: "Hvat gætir þess staðar, þá er Surtalogi brennir himin ok jörð?"

   Hárr segir: "Svá er sagt, at annarr himinn sé suðr ok upp frá þessum himni, ok heitir sá Andlangr, en inn þriði himinn sé enn upp frá þeim, ok heitir sá Víðbláinn, ok á þeim himni hyggjum vér þenna stað vera. En Ljósálfar einir, hyggjum vér, at nú byggvi þá staði."

Então Gangleri disse: "O que protegerá esse lugar quando o fogo de Surtr tiver queimado o céu e a terra?"

 Hárr disse: "É dito que há outro céu ao sul acima desse céu (Himinn) e é chamado de Andlangr; e o terceiro céu se encontra acima desse um, que é chamado de Víðbláinn, e é nesse céu que nós acreditamos que esse lugar (Gimlé) está situado. Nós acreditamos que é habitado apenas por Ljósálfar." (Trad. minha)

 A Gísla saga conta que Freyr protegia a sepultura de um de seus adoradores (Thorgrim Freysgodi/Þorgrímr Freysgoði), afastando o gelo com a luz no lado sul.

"Varð og sá hlutur einn er nýnæmum þótti gegna að aldrei festi snæ utan og sunnan á haugi Þorgríms og eigi fraus; og gátu menn þess til að hann myndi Frey svo ávarður fyrir blótin að hann myndi eigi vilja að freri á milli þeirra."

E então, também, aconteceu algo que pareceu estranho e novo. Não havia neve acumulada no lado sul do túmulo de Thorgrim, nem ela congelou ali. E os homens supuseram que isso se devia ao fato de Thorgrim ter sido tão querido por Freyr, a ponto de o deus não permitir que a geada se interpusesse entre eles. (Trad. minha)

 Surtr é o senhor da terra do fogo, Muspelheim (Múspellsheimr), que fica situado no sul. Então, podemos supor que Surtr já regia a terra do fogo, mas ele provavelmente perdeu parte do território para Freyr (quando este recebeu Alfheim) e isso causou a inimizade entre eles. Os mundos são conectados por Yggdrasil (Yggdrasill) e imensos rios. Vale lembrar que Asgard (Ásgarðr) fazia fronteira com Vanaheim (Vanaheimr) e o mesmo deve ser entre Alfheim e Muspelheim. Isso provavelmente os colocou como oponentes no final dos tempos. Freyr representa a luz acolhedora e a fertilidade (vida), enquanto Surtr representa a fumaça enegrecida de fogo e esterilidade (suas chamas queimarão o mundo). Freyr possuía uma espada maravilhosa dotada de vontade própria, enquanto Surtr possui uma espada magnífica que brilha mais que o sol (a Sól). Os elfos súditos de Freyr são brilhantes e os subordinados de Surtr também. Freyr é um Vanr (membros dos Vanir) e Surtr é um gigante (Jötunn). Ambos possuem algumas características similares, porém são antagonistas. 

 

FONTES:

Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall 

Edda, Anthony Faulkes

Gods and Myths of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson 

O Livro de Ouro da Mitologia: Histórias de Deuses e Heróis, Thomas Bulfinch

Norse Mythology: A Guide to Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, John Lindow

Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson

SITES CONSULTADOS:

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i

https://www.snerpa.is/net/isl/gisl.htm

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Qual é a arma divina mais poderosa?

 Como bem sabemos, o panteão nórdico consistia de muitos deuses e deusas guerreiros, com características bélicas. Muitas divindades possuíam itens preciosos e de grande poder. Fotos de Internet.

 Existem várias armas divinas na cosmovisão nórdica: a espada envenenada Tyrfingr, a espada mortal dotada de vontade própria que pertenceu a Freyr (não nomeada), os sapatos especiais de Vidar (Víðarr), a espada de Sigurd (Sigurðr), o cinturão da vitória de Hod (Höðr), a lança Gungnir, e muitas outras.

 Mas, o Skáldskaparmál nos informa que a arma mais eficaz e poderosa dos deuses era o martelo Mjolnir (Mjöllnir). O Mjolnir inclusive ficou na frente da Gungnir, esse veredito foi dado pelo trio supremo dos deuses: Odin (Óðinn), Thor (Þórr) e Freyr.

Vários tipos de pingentes do martelo do Thor. O martelo de Thor foi fabricado por anões ferreiros.

 As características do Mjolnir eram: nunca errar o alvo, sempre retornar a mão que o atirou, a arma podia ficar pequeno ou grande e ser colocado dentro da camisa de Thor, era inquebrável e nada podia lhe resistir a pancada, mas o cabo era pequeno. A força do golpe da arma dependia do desejo de Thor ("Þá gaf hann Þórr hamarinn ok sagði, at hann myndi mega ljósta svá stórt sem hann vildi, hvat sem fyrir væri, at eigi myndi hamarrinn bila, ok ef hann yrpi honum til, þá myndi hann aldri missa ok aldri fljúga svá langt, at eigi myndi hann sækja heim hönd, ok ef þat vildi, þá var hann svá lítill, at hafa mátti serk sér. En þat var lýi á, ar forskeftit var heldr skammt. Þat var dómr þeira, at hamarrinn var beztr af öllum gripunum ok mest vörn í fyrir hrímþursum"). Quanto mais furioso Thor ficava, mais forte era a pancada. Nos desafios de Utgard-Loki (Útgarðr-Loki), o Thor bateu três vezes numa montanha de Jotunheim (Jötunheimr) pensando ser um gigante, que abriram profundamente um vale. Lembre-se: tudo em Jotunheim é extremamente colossal, muito maior que coisas de Midgard (Miðgarðr). Para ter uma ideia, a luva do gigante que Thor pensou ter golpeado serviu de palácio pro filho de Odin, Loki, Thjálfi (Þjálfi) e Röskva passarem a noite. Esse gigante imenso projetou sua imagem na montanha onde Thor bateu. A fortaleza desse gigante era colossal também e muito maior. Depois que Thor soube que foi enganado, ele voltou para a fortaleza do gigante para destruí-la em pedaços, mas tudo havia sumido (Ok þá snýst hann aftr til borgarinnar ok ætlast þá fyrir at brjóta borgina. Þá sér hann þar völlu víða ok fagra, en enga borg.). O texto original da narração conta que Thor tinha poder pra tal feito e o gigante sabia disso e ocultou seu castelo com mágica, agora imagine o tamanho dessa fortaleza? Lembrando que a luva do gigante foi usada como palácio, o próprio gigante era colossal, então, imagine o tamanho do castelo dele? Talvez seja do tamanho de um planeta!

 Vale lembrar que Thor é criador de constelações como: Aurvandilstá ("Dedão de Aurvandill") e Þjaza Augu ("Olhos de Þjazi"). Fica subentendido que quem cria estrelas, pode destrui-las. Isso coloca Thor na categoria de um deus criador e destruidor.

 O poder de Thor é tal que ele faz mundos tremerem: isso é descrito no Lokasenna ("Fjöll öll skjalfa/Todas as montanhas tremem"), Þrymskvida ("björg brotnuðu, brann Jörð loga/as montanhas se partiam, as chamas chamuscavam a Terra") e Skáldskaparmál ("Knóttu öll (en Ullar endilóg fyr mági Grund vas grápi hrundin) ginnunga vé brinna, þás hofregin hafrar hógreiðar fram drógu (seðr gekk Svölnis ekkja sundr) at Hrungnis fundi/Todos os santuários dos falcões (os Céus) encontrava-se em chamas, por causa do padrasto de Ullr (Thor), a Terra era sacudida pela tempestade de granizo, o Ginnunga Vé (Santuário dos deuses, os Céus) queimava quando o Hofregin (Templo do Poder, que é Thor) dos bodes do dócil carro ia em direção ao encontro de Hrungnir; - a viúva (Jörð/Jörð) de Svölnir (Odin) praticamente partia em pedaços -"). Os Céus aqui são os 9 mundos (e/ou a abóbada celeste) porque Ginnunga é o local primordial onde a criação foi estabelecida e onde Yggdrasil mantém três raízes que liga o cosmo, a árvore sagrada que é cercada por rios sagrados.

 A descrição do Skáldskaparmál não deixa dúvida: Thor faz a Terra (sua mãe) tremer e até em certos pontos desmoronar, tamanho é o seu poder! A passagem do Thor pelo céu desta narração específica demonstra o quanto o deus é perigoso: seu passeio celestial faz os céus arderem e queimarem. O poema Grímnismál menciona que Thor anda a pé quando vai julgar até Yggdrasil (Yggdrasill), nadando através de rios, o que faz as águas ferverem, tal é o seu poder, o seu calor. Tal descrição é similar ao de Zeus/Júpiter quando está colérico no mito greco-romano. A demonstração é clara: Thor e Zeus/Júpiter tinham poder para ameaçar toda criação! Veja:

253. And now his thunder bolts would Jove wide scatter, but he feared the flames, unnumbered, sacred ether might ignite and burn the axle of the universe: and he remembered in the scroll of fate, there is a time appointed when the sea and earth and Heavens shall melt, and fire destroy the universe of mighty labour wrought. Such weapons by the skill of Cyclopes forged, for different punishment he laid aside - for straightway he preferred to overwhelm the mortal race beneath deep waves and storms from every raining sky. Metamorphoses, Ovid.

253. E agora seus raios, Júpiter, espalhariam-se por toda parte, mas ele temia que as chamas, incontáveis, do éter sagrado pudessem inflamar e queimar o eixo do universo: e ele se lembrou no pergaminho do destino, que há um tempo determinado em que o mar, a terra e os céus derreterão, e o fogo destruirá o universo de trabalho grandioso. Tais armas, forjadas pela habilidade dos Ciclopes, ele rejeitou para outro castigo – pois preferia imediatamente subjugar a raça mortal sob ondas profundas e tempestades de todos os céus chuvosos. (Tradução).

 No mito grego, Zeus/Júpiter recebeu o raio e o relâmpago dos Hecatonquiros depois de serem libertados do Tártaro pelo filho de Cronos, armas estas que estavam sepultados nos flancos da terra. No norte, os anões forjaram o martelo que foi dado a Thor, depois de Loki cortar os cabelos de Sif, que é uma deusa da terra (Sif aparece como outro nome de Jord na Edda de Snorri). 

 O martelo também podia aumentar de tamanho, algo que é perceptível durante a pesca de Thor. Quando Thor fisga e puxa a serpente do mar, ele cresce ficando gigante apoiando os pés no fundo do mar, ele levantou e atirou o martelo no monstro mesmo depois da linha ter sido cortada por Hymir. Então, o martelo estava ajustado ao seu tamanho gigante. Assim, a arma sagrada podia aumentar e diminuir de tamanho conforme a necessidade de Thor.

 "Mjolnir" é de significado incerto, mas é provável estar relacionado a palavra nórdica mala/mola que significa "esmagar/moer" ou talvez do sueco moln que significa "armando nuvem negras". Ambos significados são possíveis: o raio/relâmpago e o trovão era a arma mais devastadora e destruidora nas religiões antigas e faz sentido significar nuvem, pois é da onde nasce o raio. Outro possível significado associado é a palavra russa molnija que significa "relâmpago", que também faz sentido.


FONTES:

All the Mountains Shake Seismic and Volcanic Imagery in the Old Norse Literature of Þórr, Declan Taggart 

An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson

Edda, Anthony Faulkes

Gods And Myths Of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson

Mitologia Greco-romana vol. 1, René Ménard

Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson

The Poetic Edda, Carolyne Larrington

Thor's Hammer, Hilda Roderick Ellis Davidson 

SITES CONSULTADOS:

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i

http://heimskringla.no/wiki/Ynglinga_saga

https://www.theoi.com/Text/OvidMetamorphoses1.html#4

https://web.archive.org/web/20140714215920/http://kurs.lt/norse/skaitiniai/haustlong_apie_tora_ir_hrungnira.htm

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

O Fôlego/Espírito (Ǫnd/Önd) e a Vida (Líf)

 É amplamente conhecido que o trio criador: Odin, Vili e Ve (Óðinn, Vili e) criaram o primeiro casal humano. Fotos de Internet.

 O trio criador deu várias dádivas ao casal humano, mas esse post irá focar apenas nas dádivas de Odin. As outras dádivas dos outros deuses ficará para posts vindouros.

 Quando o trio criador recolheu os troncos de madeiras a beira mar, Odin deu o fôlego e/ou espírito e a vida para a dupla mortal recém criada (na Völuspáönd gaf Óðinn, no GylfaginningGaf inn fyrsti önd ok líf). A palavra nórdica "ϙnd/önd" (também "anda") significa tanto "fôlego" quanto "espírito". Tanto é que as traduções do inglês da Völuspá usam as duas possibilidades (explicarei logo a seguir). Essa palavra aparece em algumas runestones (pedras rúnicas) da era viking como "ont" (runas áss, nauðr e Týr) e "ant" (ár, nauðr e Týr). Lembrando que na era viking os escandinavos usavam as 16 runas do Jovem Futhark. Veja dois exemplos abaixo (embora haja outros):

Pedra rúnica U212 de Uppland. "Deus ajude seu espírito (ont)". Pedra rúnica com referência ao deus cristão usando runas.

Pedra rúnica U409, Uppland. "Deus ajude seu espírito (anta)". Outra pedra rúnica com alusão ao deus cristão.

 Outra coisa precisa ser explicada: o som da runa Áss passou de "a" para "o" com a mudança do Antigo Futhark para o Jovem Futhark, o som da runa Jera passou de "j" para "a" e foi batizada de Ár ("ano"). A runa Dagaz (23 na fila rúnica) foi tirada do Jovem Futhark e o som de "d" passou a ser usado por "t" de Týr. A runa Ansuz (Áss) representava os deuses no Antigo Futhark e no Jovem Futhark a runa Ár passou a representá-los. Um antigo manuscrito associa a runa Ár com os deuses confirmando essa conexão. A runa Dagaz significa "dia" (luz) e Týr significa "deus", mas que indica originalmente "brilho ou luz celeste". Desse modo, as substituições eram mais ou menos equivalentes.

 O ato de respirar (fôlego) é o que anima o corpo, portanto respirar está intimamente ligado ao espírito, pois é o espírito que anima o corpo. Por isso, essa dádiva de Odin é traduzida de ambas as formas. Sem fôlego não há vida, sem espírito não há vida.

 O significado rúnico de "ϙnd/önd" é basicamente isso: sopro (Áss) divino (Týr) necessário (Nauðr). Ou seja: o sopro divino é restrito até certo tempo no corpo físico, quando se esvai a vida chega ao fim.

 O ϙnd/önd é intimamente ligado à Óðinn no período pagão (evidenciado pela Völuspá), e após a cristianização da Escandinávia, a palavra passou a ser usada associada ao deus cristão (com o tempo, ϙnd/önd foi sendo substituído por sál ou "alma", talvez pra se afastar da sombra pagã). O interessante é a ideia do espírito estar associada a luz (via runa Týr, algo também visível em sál via Sól).

 A outra dádiva de Odin ao casal humano foi a vida (líf na língua nórdica). O fluxo individual da vida é representado por Lϙgr, Íss e (Laguz, Isa e Fehu). De certa forma, isso confirma a associação da criação humana a beira mar (via Lϙgr, o mar, e Íss que representa um indivíduo).

 Com isso podemos entender que o fluxo individual da vida (líf) precisa do sopro divino necessário (ϙnd/önd) para se sustentar.

FONTES:

An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson

Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall

Edda, Anthony Faulkes

Os Deuses Nórdicos são Imortais?, Marcio Alessandro Moreira, link: https://mega.nz/file/NfpilZiL#UBctotG_nrZdTbQ85TrmKQF0gAUMag0jsWdSrFux3Ks

The Poetic Edda, Carolyne Larrington 

SITES CONSULTADOS:

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Thor era representado como personificação do céu?

 Thor (Þórr), o filho primogênito de Odin (Óðinn) e Jord (Jörð), é muito conhecido pelas pessoas por ser o deus da força e do raio. Fotos de Internet.

 Segundo o Gylfaginning de Snorri, o Thor nasceu forte e poderoso e por isso vencia todas as criaturas. Thor é explicitamente a personificação do poder e da força.

 Mas, quando analisamos as fontes antigas mais atentamente, nós podemos ver que o deus é a própria personificação do céu para os antigos escandinavos.

 E como cheguei nessa conclusão? Simples! Eu segui as metáforas nórdicas (kenningar). A barba ruiva de Thor foi associada as nuvens de tempestades por Hilda R. E. Davidson. Eu não discordo dessa grande autora e acadêmica, porém os sprites (duendes) vermelhos vistos durante as tormentas podem estar relacionadas também, pois lembram fios eriçados tal como nas descrições dos cabelos de Thor no Þrymskviða.

Thor em sua carruagem manejando o Mjöllnir.

Foto tirada de sprites, fonte da imagem: https://earthsky.org/earth/definition-what-are-lightning-sprites/. Note a semelhança disso com uma barba espessa e eriçada.   

 O poema Húsdrápa associou os olhos brilhantes de Thor (innmáni ennis ou "lua interior da sobrancelha") com a Lua (Máni). Thor também é conhecido por ter criado as constelações "Olhos de Thiazi (Þjaza Augu)" e "Dedão de Aurvandill (Aurvandilstá)". Na idade média, nas ilustrações, Thor era representado com 12 estrelas na cabeça. 

 No Þórsdrápa, compilado no Skáldskaparmál, quando Thor vai ao encontro de Geirrod (Geirröðr), as duas filhas do gigante levantaram a cadeira onde o deus se sentou tentando fazê-lo se chocar com o teto da residência, mas o filho de Odin conseguiu impedir a ação, a cabeça de Thor é referenciada como o Céu e seus olhos novamente associados a Lua (hám himni loga brátungls). O combate entre eles parece ser uma referência entre o poder celeste e o poder ctônico.

 O duelo entre Thor e Hrungnir também parece indicar um "embate celestial". Thor seria a representação do céu e do raio que esmigalha as altas montanhas representados por Hrungnir e seu aliado Mökkurkálfi. Thjalfi (Þjálfi) seria o vento. A ideia de lascas de pedra na cabeça de Thor parece indicar que era como os meteoritos eram entendidos pelos escandinavos. Eles caiam do céu e ardiam, e o povo talvez acreditassem que havia ocorrido uma batalha entre Thor e os gigantes. O martelo era a representação do relâmpago que saia das nuvens. Raios também saiam dos olhos do deus.

 É comum na poesia dos escaldos ver partes do corpo humano e divino ser relacionados com a natureza, porém isso é muito importante porque liga esse entendimento a cosmovisão pagã, a natureza e a maioria dos deuses foram feitos das partes do cadáver de Ymir pelo trio divino criador. Então, é natural entender dessa forma, fazer essa associação através de metáforas. Vale lembrar que o cérebro de Ymir foi transformado em nuvens e o seu crânio no céu pelos deuses, mas isso não desqualifica a associação de Thor com esses elementos. Thor é o regente deles.

 Então, com esses exemplos metafóricos, podemos entender que Thor era visto como a personificação da abóbada celeste, seus cabelos eram as nuvens avermelhadas de tempestades (ou sprites), sua cabeça o céu e seus olhos a Lua. Essa imagem simbólica parece ser melhor compreendida quando enxergamos Thor como protetor dos deuses e homens e ele seria a "barreira" contra os gigantes que vivem do lado de fora. Vale lembrar que na cosmovisão nórdica, haviam 9 céus uns por cima dos outros (os céus dos 9 mundos). Thor (o ar, atmosfera) era filho de Odin (Céu primordial) e de Jord (a Terra). Com o nascimento de Thor, Odin foi distanciado de Jord, e assim o filho herdou os domínios do pai. As viagens constantes de Thor para o leste (para destruir Trolls) e para o oeste (retorno para o seu lar) lembra o movimento do Sol pelo céu. Algumas fontes indicam que Asgard (Ásgarðr) ficava no oeste.

 Odin, Thor e Týr (Týr) são a trindade celeste, o primeiro representa o céu noturno/primordial, o segundo representa o céu tempestuoso e o terceiro representa o céu luminoso, diurno.

 O Zeus dos gregos era visto de forma parecida na antiguidade, nos hinos órficos, Zeus era o céu. O Sol (Hélios) era chamado de "Olho de Zeus". Thor foi identificado com o romano Júpiter, o equivalente do Zeus, em alguns manuscritos antigos. A quinta feira é a prova disso, pois é o dia sagrado desses três deuses.


FONTES:

As Similaridades Entre Þórr, Perkunas, Zeus, Júpiter, Indra e Héracles, Marcio Alessandro Moreira

Edda, Anthony Faulkes

Myths and Symbols in Pagan Europe Early Scandinavian and Celtic Religions, Hilda Roderick Ellis Davidson

Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson 

Teutonic Mythology Vol. 1, Jacob Grimm

The Poetic Edda, Carolyne Larrington 

SITES CONSULTADOS:

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

A origem da Yggdrasill

 Este post será dedicado a árvore cósmica Yggdrasill, o centro da cosmologia nórdica. Apesar de grande importância dentro do paganismo nórdico, sua origem é envolto em mistério. Foto de Internet.

 Porém, examinando as fontes primárias que temos (as duas Eddur), podemos enxergar nas entrelinhas.

Descrição de Yggdrasill do manuscrito AM 738 4to.

 A Völuspá conta que a árvore é eterna, enquanto o Grímnismál menciona animais abaixo e acima dela, o Snorri relatou que era nela que os deuses se reuniam com as Nornas (Nornir) para julgarem assuntos divinos diários.

 Mesmo ela sendo descrita como eterna, suas raízes denunciam que ela teve um início, uma origem. A Yggdrasill possui três raízes: uma na terra dos mortos, uma na terra dos gigantes e a outra na terra dos homens ou deuses (dependendo da fonte).

 A raiz da fonte da terra dos mortos, Niflheimr, era chamada Hvergelmir, onde o dragão Nidhogg roia a raiz.

 A raiz da fonte dos gigantes, Mimisbrunnr, era guardada por Mimir, aqui ficava escondida toda a sabedoria e entendimento.

 A outra raiz não é tão clara, pois numa fonte é dito ficar no mundo dos homens e outra diz estar na terra dos deuses. E outra parece indicar que ela ficava no sul (o que a coloca na direção de Muspelheimr).

 Pra entendermos como Yggdrasill pode ter surgido devemos recorrer as fontes. No início nada havia, apenas o mundo de fogo no sul (Muspelheimr) e o mundo de gelo no norte (Niflheimr), do encontro entre as duas regiões, no meio, ficava Ginnungagap. E Ginnungagap ficava ao leste, onde posteriormente seria a terra dos gigantes. Ymir surgiu do degelo do encontro do norte e sul, assim como Audhumbla que libertou Buri do gelo. Da união dos descendentes de Ymir e Buri surgiram os deuses. Os deuses mataram Ymir e jogaram seu corpo no Ginnungagap. O mundo é criado a partir daí, a terra é feito da carne de Ymir, as nuvens de seu cérebro, o mar de seu sangue, as montanhas dos ossos e as árvores de seus cabelos. Os homens foram criados de árvores a beira mar. Note aqui que a humanidade provavelmente tem origem dos ramos de Yggdrasill. A humanidade é como galhos da árvore cósmica. O poema Grímnismál menciona que Odin é o maior dos æsir e Yggdrasill das árvores, e Odin é o mais velho dos deuses e o mesmo deve se aplicar a Yggdrasill (como a mais antiga das árvores).

 Então, se as árvores vieram dos cabelos de Ymir, provavelmente esta foi a origem da árvore cósmica, pois como é dito na Völuspá não havia grama ou vegetação em lugar nenhum antes da criação, depois, no poema, é narrado que assim que a humanidade foi criada de árvores a beira mar as Nornes surgiram (estas poderosas entidades cuidavam de Yggdrasill e riscava os destinos em chapas de madeira). Desse modo, a humanidade pode ter sido criada dos ramos de Yggdrasill pelo trio criador. Isso explicaria a conexão da raça humana com as árvores e adoração das mesmas. Assim, todos os seres humanos estão ligados e possuem uma conexão, cada ser humano é uma "folha" de Yggdrasill. 

 Para maior entendimento leiam aqui: https://osegredodasrunas.blogspot.com/2023/04/o-parentesco-entre-os-seres-na-criacao.html


FONTES:

Edda, Anthony Faulkes

Gods and Myths of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson

Myth and Religion of the North: The Religion of Ancient Scandinavia, E. O. G. Turville-Petre

Myths and Symbols in Pagan Europe: Early Scandinavian and Celtic Religions, Hilda R. E. Davidson

Saxo Grammaticus Gesta Danorum: The History of the Danes Volume I, trad. Peter Fisher

Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson

The Poetic Edda, Carolyne Larrington 

SITES CONSULTADOS:

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i

quarta-feira, 1 de maio de 2024

Os deuses e o Halo divino

 Hoje é muito comum ver halos e/ou auréolas nas representações nas artes de divindades Greco-romanas, no Hinduísmo, no Budismo e até na arte sacra da igreja (Cristianismo). O halo divino e/ou as auréolas são símbolos do poder celestial e também do conhecimento superior, o que distingue o divino do comum e do ordinário. O halo na arte pode ser representado por um disco solar, raios tipo de um zigue zague (feixe de luz) ou auréola. Fotos de Internet.

 Hélio o deus sol, Apolo (que mais tarde é identificado com o primeiro), Krishna, Hathor, Sekhmet, Rá, Dionísio, Perseu, Nike, Ares, Afrodite, Jesus e outros aparecem com esse sinal na arte e nas descrições literárias que os distingue dos mortais. Contudo, alguns personagens importantes do mundo greco-romano, santos da bíblia e de outros povos também aparecem como halo na cabeça, mas a ideia é a mesma: os imperadores eram considerados e até adorados como divinos, e os santos foram venerados ao longo da história, ou seja, alguns homens distintos eram assim representados de acordo com suas crenças. Vale lembrar que nem sempre as divindades eram representados com halo.

 Este símbolo divino também aparece no extremo norte. Nas lâminas da era do bronze escandinavo (cerca de 1800-500 a.C.) podemos ver um ser ou dupla de homens e/ou divindades com halo na cabeça. 


A navalha/lâmina encontrada no sul da Jutlandia, Dinamarca, onde vemos dois homens ou deuses com halo na cabeça remando num barco. Fonte da imagem: https://en.natmus.dk/historical-knowledge/denmark/prehistoric-period-until-1050-ad/the-bronze-age/the-people-in-the-bronze-age-barrows/life-after-death/

Navalha de Voel, Gjern, Dinamarca, novamente um par de seres são representados com halo na cabeça.

Navalha da Região de Bremen, Alemanha, onde apenas um ser aparece e é representado com o halo na cabeça.

Petroglífo de Östfold, Noruega, onde um ser aparece representado com o disco solar (?) na cabeça.

 O deus adorado na idade do bronze escandinavo é muito parecido com o Thor da era viking. Ele é descrito usando machado e/ou martelo, e costumava consagrar casais e caçadas (ao julgar pelas representações dos petroglífos). Algumas vezes, o disco solar aparece sobre sua cabeça. Veja abaixo:

Petroglífo de Aspeberget, Tegneby, Tanum, Suécia, onde podemos ver um provável deus segurando um martelo (precursor do Thor?) tendo o sol sobre sua cabeça, talvez simbolizando o halo. O sol parece estar circulado por pássaros ou aves de algum tipo ou talvez represente os seus feixes de luz. A roda solar aparece representado em seu corpo também.

 Num dos famosos chifres de Gallehus, podemos ver seres que parecem representar deuses e/ou guerreiros divinos com estrelas em cima da cabeça, tal como o halo.

Parte do chifre dourado de Gallehus encontrado na Dinamarca e datado do 5º século na nossa era, onde deuses e/ou guerreiros são representados com estrelas acima da cabeça.

 Curiosamente o Thor é descrito de forma similar também: segundo se acredita era possível obter fogo (que também representa o raio celeste) da cabeça de Thor através de um ritual relatado entre os Lapões onde o deus era conhecido e venerado como "Horagalles". Esse rito parece ter conexão com o combate de Thor e Hrungnir. Os Æsir ("deuses") é outro exemplo: as runas que formam a palavra que os define são as runas *Ansuz ("deus", a runa A) e *Sowilo ("sol", a runa S), o que indica que são deuses solares, da luz. Os deuses ainda são descritos como seres brilhantes nas fontes.

 Em 1555, o sueco Olaus Magnus compilou a história de seu povo, lendas e folclore e ele descreveu o deus Thor com 12 estrelas ao redor da cabeça (Thor autem cum corona, & sceptro, ac XII stellis defignabatur), que talvez simboliza o raio solar divino, tal como o halo.

Imagem de Historia de Gentibus Septentrionalibus de Olaus Magnus. Thor está no meio com estrelas na cabeça, rodeado de Odin e Frigg.

 Existe outra versão dessa imagem também, porém similar:

Thor sentado no trono representado com um halo de estrelas, rodeado de Odin e Frigg. Fonte da imagem: https://myndir.uvic.ca/index.html.

 Muito mais tarde, os deuses Thor e Odin foram sendo relacionados a esse sinal divino no manuscrito Nks1867 4to de 1760 e SÁM 66 de 1765. Note que as estrelas são atadas as cabeças dos dois deuses por um tipo de fio.

1) Thor e seu martelo no manuscrito Nks 1867 4to representado com uma estrela atrás da cabeça e o crânio de Jormungandr. 2) Thor no manuscrito SÁM 66 com as mesmas características do primeiro. As duas representações lembram muito o petroglífo de Tanum.
 
Odin tendo uma estrela atrás da cabeça, ambos do manuscrito SÁM 66. Fonte das imagens: https://myndir.uvic.ca/index.html.

 A deusa Sól da idade do bronze nórdico aparece nos petroglífos também puxando seu carro. O aro celeste aparece nas mais variadas formas, tal como um disco, um disco rodeado por aves ou pessoas, uma roda solar, e outros. 

O carro da Sól de Bohuslän, Suécia, onde um animal puxa o astro seguido por aves ou seria seu fagulhas de seu brilho (?).

Outro exemplo do carro solar de Bohuslän, Suécia, onde o astro solar é puxado por um animal. 

 A deusa Sól é a divindade que rege a jornada do astro solar, mas Thor e Odin parecem representar seu poder, já que os dois deuses eram associados as estrelas (Odin é tido como o criador das estrelas junto com seus irmãos, Thor era conhecido por criar constelações). Freyr também era conectado ao sol.

 Então, podemos deduzir que tal ideia (do halo) era conhecido no norte desde a era do bronze e permaneceu nas sucessivas gerações através da oralidade. Vale lembrar que os deuses da idade do bronze era bastante similar aos da era viking, embora haja muito espaço de tempo entre eles, mas podem muito bem ser suas evoluções religiosas.

 Abaixo algumas representações de deuses com o disco solar, halo ou auréola de certas culturas antigas:

Egito: Rá sentado no trono com o disco solar e o uraeus (serpente), tumba de Nefertari, 13º século a.C.

Egito: Ra-Horakhty (Rá sincretizado com Hórus) com o disco solar e uraeus abençoando mulher com o raio solar.

Grécia: Vaso ateniense representando Hélio com halo na cabeça, 5º século a.C.

Ásia: Urna de Kanishka representando Indra, Buda e Brama com halo na cabeça, Sul da Ásia, datado de 127 da era comum.

Roma: Mosaico romano descrevendo o triunfo de Netuno com halo na cabeça, do 2º século.

Roma: Júpiter representado com halo na cabeça, mosaico romano do 3-4º século.

Pérsia: Mitra com o halo na cabeça, relevo sassânida do 4º século.

Alemanha Cristã: A natividade e transfiguração de Cristo, seus anjos e santos com halo na cabeça, cerca de 1025-50, Colônia, Alemanha.

Índia: Krishna e Rukmini, ambos com halo na cabeça, mural de 1840-50 de Sheesh Mahal.

Japão: Amaterasu emergindo da caverna com halo na cabeça, 1856. 

 Como podemos ver, o halo e/ou auréola é um símbolo antigo e quase universal, associado principalmente com divindades solares e do fogo, mas também a outros deuses com outras esferas de poder. O halo na cultura hindu está ligado ao chacra da coroa (o 7º) e a aura da alma.

FONTES: 

Dictionary Of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall

Edda, Anthony Faulkes

Gods And Myths Of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson

Historia de Gentibus Septentrionalibus, Olaus Magnus

Pagan Scandinavia, Hilda R. E. Davidson

Saxo Grammaticus Gesta Danorum: The History of the Danes Volume I, trad. Peter Fisher

Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson

Shadows of a Northern Past Rock Carvings of Bohuslän and Østfold, John Coles

The Chariot of the Sun and Other Rites and Symbols of the Northern Bronze Age, Peter Gelling e H. R. E. Davidson

The Poetic Edda, Carolyne Larrington

SITES:

https://www.arhantayoga.org/pt/chakra-da-coroa-a-energia-divina-do-chakra-sahasrara/

https://www.britannica.com/art/halo-art

https://www.cais-soas.com/CAIS/Religions/iranian/Zarathushtrian/halo_its_origin.htm

https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/7438322/mod_resource/content/0/%28Mnemosyne%20Supplements%20273%29%20Nicholas%20Horsfall%20-%20Virgil%2C%20Aeneid%203-Brill%20Academic%20Publishers%20%282006%29.pdf

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i

https://heimskringla.no/wiki/Ynglinga_saga

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