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domingo, 15 de fevereiro de 2026

Quem praticou seiðr primeiro?

 É sempre muito complicado falar sobre ritos que envolvem os Vanir, por causa do pouco material sobre eles ter sobrevivido, ao contrário dos Æsir. Fotos de Internet.
 É provável, que por ser ritos ligados a sexualidade e feminidade, os coletores de mitos da idade média que eram cristãos, resolveram deixá-los de fora. Lembre-se que era século 13 DC, a censura era grande a tudo que envolvia outras religiões, principalmente material de teor feminino e sexual.
 Contudo, algumas descrições são exploradas aqui e ali, que foram registradas em algumas sagas e algum pormenor nas Eddas e Ynglinga Saga. A arqueologia também nos fala um pouco sobre o tema, que é muito interessante.
 O seiðr ("canto/encantamento") era a prática mais conhecida entre os deuses Vanir. Embora sua origem seja um mistério, existe fontes que apontam para três personagens: Freyja, Gullveig, e Svarthofdi (Svarthöfði).

Gullveig sendo atacada pelos Æsir. Arte de Lorenz Frølich.

 Freyja é apontada como praticante de tal magia, segundo a Ynglinga Saga, e ela teria ensinado para o próprio Odin (Óðinn) e aos Æsir após as guerras entre as duas tribos divinas.

"Dóttir Njarðar var Freyja, hon var blótgyðja, ok hon kendi fyrst með Ásum seið, sem Vönum var títt."

"A filha de Njord era Freyja, ela era sacerdotisa dos sacrifícios, e ela foi a primeira a ensinar seiðr entre os Æsir, que era costume no Vanir." (Trad. minha)

 Como vimos pela descrição, o seiðr era costume no Vanir e praticado e ensinado por Freyja. Isso a coloca como fundadora de tal prática.
 Gullveig também é apontada como praticante dessa arte, segundo a Völuspá, e teria sido maltratada entre os Æsir assim que chegou em Asgard (Ásgarðr). Não é claro o que ela fez, mas na sequência é citado a prática de seiðr onde ela visitava. Essa citação praticamente identifica as duas divindades (Gullveig e Freyja) como uma e a mesma. Porém, devemos ter cuidado aqui, porque nem tudo é o que parece! Gullveig poderia ser uma mensageira de Freyja, tal como Gná é a mensageira de Frigg. Os grandes deuses possuem mensageiros e criados: Thjalfi (Þjálfi) era criado de Thor (Þórr), Hermod (Hermóðr) era mensageiro de Odin, Skírnir era mensageiro de Freyr. Além disso, Gullveig foi rebatizada de "Heiðr", após ser queimada e espetada por lanças no salão de Odin. 

22.
"Heiði hana hétu
hvars til húsa kom,
völu velspáa,
vitti hon ganda;
seið hon, hvars hon kunni,
seið hon hug leikinn,
æ var hon angan
illrar brúðar."

22-"Heiðr a chamaram,
em qualquer casa que viesse
a esperta adivinha em profecia,
era sábia em mágica;
seiðr ela conhecia,
com seiðr ela brincava com mentes;
ela era sempre amada
pelas noivas malignas." (Trad. minha)

 Heiðr aparece como a filha do gigante Hrimnir (Hrímnir) e irmã de Hrossthjof (Hrossþjófr) na Völuspá in skamma:

4.
"Haki var Hveðnu
hóti beztr sona,
en Hveðnu var
Hjörvarðr faðir;
Heiðr ok Hrossþjófr
Hrímnis kindar."

04-"Haki era o maior
dos filhos de Hveðna,
mas Hjörvarðr era
o pai de Hveðna;
Heiðr e Hrossþjófr
eram descendentes de Hrímnir." (Trad. minha)

 Hrossthjof aparece como Rostiophus e/ou Rostiofus Phinnicus (cujo sobrenome transliterado do latim que significa "Finlandês, é do nórdico arcaico Finnr) na Gesta Danorum, que segundo Saxo Grammaticus era um profeta, e que ajudou Odin. "Hrossthjof" significa "Ladrão de Cavalo", o que sugere a captura desse animal por ele para práticas mágicas e divinatórias (os germânicos prestavam atenção no relinchar dos cavalos segundo Tácito). O cavalo era o animal sagrado de Odin e Freyr. O termo "Finnr" é sinônimo de "Sámi" (cujo povo é associado à magia nas sagas).
Ainda no poema Völuspá in skamma, na estrofe seguinte, encontramos o terceiro personagem da lista: Svarthofdi. Svarthofdi é citado como o pai dos praticantes de seiðr:
 
5.
"Eru völur allar
frá Viðolfi,
vitkar allir
frá Vilmeiði,
seiðberendr
frá Svarthöfða,
jötnar allir
frá Ymi komnir."

05-"Todas as Völur (Sibilas) são
descendentes de Viðólfr,
todos os Vitkar (Magos) são
da raça de Vilmeiði,
todos os Seiðberendr (Feiticeiros)
são descendentes de Svarthöfði,
todos os Jötnar (gigantes)
vieram de Ymir." (Trad. minha)

 O interessante é que "Svarthofdi" significa "Cabeça Negra", o que nos faz pensar no povo Sámi (da Lapônia), habitantes da Suécia, Noruega, Finlândia e partes da Rússia, que possui um histórico antigo de xamanismo. Essa conexão é evidente quando Odin é associado à Samsø no poema Lokasenna:

Loki kvað:
24.
"En þik síða kóðu
Sámseyu í,
ok draptu á vétt sem völur;
vitka líki
fórtu verþjóð yfir,
ok hugða ek þat args aðal."

Loki disse:
24-"Mas eles dizem que tu trabalhaste
magia seiðr na ilha Sámsey,
e tu batias em tambores como as Völur (Sibilas);
na forma de um Vitki (Mago)
tu viajaste entre os homens,
e eu creio que isso era de natureza argr (afeminado)." (Trad. minha)

 Samsø é uma ilha Dinamarquesa (que geralmente é aceito a identificação com Samsey), embora o nome desta mesma ilha é de etimologia incerta, isso nos faz pensar numa possível conexão entre Sámi e Samsø. A palavra "Sámi"  (de "sámr" do nórdico arcaico, veja abaixo) pode ter sido emprestada da palavra Proto-Báltico *žēmē, que significa "terra." Essa palavra é cognato com a Eslava "zemlja" que tem o mesmo significado. A deusa da terra da Lituânia, Žemyna, parece estar correlacionada, assim como a Zemes māte Letã. Conta-se que era costume sacrificar porcos negros (e outros animais da mesma cor) para a deusa, segundo o folclore. A terra e o solo nos faz lembrar da cor marrom, cor preta (solo fértil, mas também representando a morte, a sepultura). Os elfos negros (Svartálfar) são descritos negros como piche e viviam debaixo da terra.
 Odin e Skadi (Skaði) eram pais de Sæmingr, que embora de etimologia incerta, é interpretado como "(aquele do povo) Sámi". É possível que esteja relacionado com a palavra do nórdico arcaico "sámr", que significa "moreno" ou "preto", reforçando a ideia de alguém de cabelos pretos, distinto de alguém loiro, de origem Sámi. Isso corrobora com o significado de Svarthofdi, e parece conectar de algum modo com Sámi, Samsø e Sæmingr (moreno, com a cor preta dos cabelos dos Sámi, cor de terra). Então, é possível, que Svarthofdi fosse de origem Sámi assim como seus descendentes. A ilha Samsø poderia, talvez, ter praticantes de seiðr, já que em Uppsala na Suécia, os adoradores de Freyr praticavam ritos afeminados, e era costume oferecer vítimas de cor negra para o deus (Frøblot). Desse modo, podemos entender que Svarthofdi e seus descendentes eram adoradores (e/ou pertencentes ao clã) do Vanir. Tambores também eram usados por xamãs Sámi, comprovados pela arqueologia inclusive.
 Conclusão: Freyja foi a primeira a praticar seiðr, ela deve ter ensinado Gullveig/Heiðr, e Svarthofdi deve ter aprendido com a própria deusa ou até com Gullveig (que visitava as casas ensinando a magia). Porque seiðr é uma prática fortemente ligada as mulheres e ao feminino, embora homens pudessem aprender e praticar. Svarthofdi foi o primeiro ser masculino a praticar seiðr, por isso os praticantes são considerados os seus descendentes. A palavra "seiðberendr" significa "feiticeiros" como vimos, mas "berendr" vem de "bera", que significa "portar/trazer (o seiðr, a magia)", porém também significa "dar a luz", "dar nascimento", o que faz confirmar sua origem como feminina (falo da prática). Freyja era a deusa das mulheres, da fertilidade e do parto. O poema Oddrúnarkviða diz:

9.
"Svá hjalpi þér
hollar véttir,
Frigg ok Freyja
ok fleiri goð,
sem þú feldir mér
fár af höndum."

9."Assim te ajudem
os espíritos benevolentes,
Frigg e Freyja 
e muitos deuses,
que o perigo de mim tu
leve das mãos." (Trad. minha)

 Vale lembrar que "Heiðr" é um nome que aparece nas sagas associada a magia e bruxaria, mas é difícil saber se todas é a mesma personagem ou não. A Heiðr que foi até Asgard é uma figura divina. Os Vanir são associados aos gigantes por intermédio de Heiðr, filha do gigante Hrimnir. Do mesmo modo que os Æsir também eram por parte de Bestla, a mãe de Odin.  Heiðr pode ter levado outro conhecimento aos Æsir como refinar ouro, e só depois levou o seiðr. Isso distingui ela de Freyja, porém as duas são associadas ao ouro. Mas, Gefjon, Frigg, Fulla e Sif também são associadas ao ouro. A genealogia de ambas também as distingui, uma é filha de Njord e a outra é filha de Hrimnir. A Völsunga Saga menciona que Hrimnir tinha uma filha chamada Hliod (Hljóð), e que ela era mensageira de Odin. Rerir queria um herdeiro e sua esposa orou aos deuses, Frigg ouviu as súplicas dela. A Frigg comentou com Odin que ordena Hliod levar uma maçã para Rerir e sua esposa. Eles comeram na elevação tumular. A filha de Hrimnir tomou a forma de um corvo e assim realizou a tarefa ordenada. Hrimnir é pai de três seres: Heiðr, Hrossthjof e Hliod, a primeira é associada à Freyja e os outros dois com Odin. E isso parece confirmar que Gullveig-Heiðr era uma mensageira de Freyja e não a própria deusa. Devo lembrar que Odin e Freyja dividem os mortos e ambos ordenam as Valquírias (Valkyrjur).
 Segundo o Gylfaginning, Freyja (e Freyr) nasceu depois da guerra Æsir-Vanir e isso é definitivo para separar Gullveig-Heiðr da filha de Njord. Porém, a Ynglinga Saga conta que Njord e seus filhos foram levados à Asgard depois da guerra e que já existiam. Mas, se eles foram levados depois, isso é decisivo para distinguir Freyja de Gullveig-Heiðr. Contudo, devemos levar em conta variações e versões diferentes do mito.
 Mas, ao que parece, pelas fontes, Freyja e Gullveig-Heiðr não são a mesma deusa, elas são distintas, são duas divindades diferentes. Basta ler e prestar atenção nas fontes antigas.


FONTES:
An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson
Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall 
Edda, Anthony Faulkes 
Gods and Myths of Northern Europe, Hilda Roderick Ellis Davidson 
Hyndluljóð e Völuspá inni skamma https://mega.nz/file/RbA0lSgR#1mc15kdmtPrUpAUweZMUcVQlx8cHPgIqVa631lwmu1Y, por Marcio A. Moreira
Myth and Religion of the North: The Religion of Ancient Scandinavia, E. O. G. Turville-Petre
Norse Mythology, a Guide to the Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, John Lindow
Saxo Grammaticus: The History of the Danes, Oliver Elton 
The Poetic Edda, Carolyne Larrington 
SITES CONSULTADOS:

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