O Sussuro de Odin
Blog destinado a divulgar a religião, práticas, lendas, folclore e mitologia germano-escandinava, mas em especifico a mitologia nórdica (também conhecida como viking).
domingo, 15 de fevereiro de 2026
Quem praticou seiðr primeiro?
domingo, 1 de fevereiro de 2026
O que causou a desavença entre Freyr e Surtr?
É, nós sabemos que segundo as duas Eddas, Freyr e Surtr eram inimigos, porém não aprofunda na causa da desavença entre as duas divindades. Fotos de Internet.
As fontes apenas mencionam que Freyr e Surtr serão adversários durante o Ragnarok, no final dos tempos. Nós possuímos informações que mostram a causa da inimizade entre Odin (Óðinn) e Fenrir e de Thor (Þórr) e Jormungand (Jörmungandr). Odin mandou prender Fenrir, enquanto Thor ficou sabendo da ameaça da serpente e quis destruir o monstro. Os deuses sabiam que essas crias de Loki eram ameaças que deveriam ser contidas.
Eu suponho que a rixa entre Freyr e Surtr deve ter alguma coisa a ver com fronteiras ou proximidade. Por que digo isso? Eu digo isso usando as fontes analisando os detalhes: segundo o Grímnismál, os deuses deram à Freyr a região de Alfheim (Álfheimr) no início dos tempos, lar dos elfos da luz (Ljósálfar), depois da guerra Æsir-Vanir. O Gylfaginning afirma que os elfos da luz viviam no céu do sul.
Þá mælti Gangleri: "Hvat gætir þess staðar, þá er Surtalogi brennir himin ok jörð?"
Hárr segir: "Svá er sagt, at annarr himinn sé suðr ok upp frá þessum himni, ok heitir sá Andlangr, en inn þriði himinn sé enn upp frá þeim, ok heitir sá Víðbláinn, ok á þeim himni hyggjum vér þenna stað vera. En Ljósálfar einir, hyggjum vér, at nú byggvi þá staði."
Então Gangleri disse: "O que protegerá esse lugar quando o fogo de Surtr tiver queimado o céu e a terra?"
Hárr disse: "É dito que há outro céu ao sul acima desse céu (Himinn) e é chamado de Andlangr; e o terceiro céu se encontra acima desse um, que é chamado de Víðbláinn, e é nesse céu que nós acreditamos que esse lugar (Gimlé) está situado. Nós acreditamos que é habitado apenas por Ljósálfar." (Trad. minha)
A Gísla saga conta que Freyr protegia a sepultura de um de seus adoradores (Thorgrim Freysgodi/Þorgrímr Freysgoði), afastando o gelo com a luz no lado sul.
"Varð og sá hlutur einn er nýnæmum þótti gegna að aldrei festi snæ utan og sunnan á haugi Þorgríms og eigi fraus; og gátu menn þess til að hann myndi Frey svo ávarður fyrir blótin að hann myndi eigi vilja að freri á milli þeirra."
E então, também, aconteceu algo que pareceu estranho e novo. Não havia neve acumulada no lado sul do túmulo de Thorgrim, nem ela congelou ali. E os homens supuseram que isso se devia ao fato de Thorgrim ter sido tão querido por Freyr, a ponto de o deus não permitir que a geada se interpusesse entre eles. (Trad. minha)
Surtr é o senhor da terra do fogo, Muspelheim (Múspellsheimr), que fica situado no sul. Então, podemos supor que Surtr já regia a terra do fogo, mas ele provavelmente perdeu parte do território para Freyr (quando este recebeu Alfheim) e isso causou a inimizade entre eles. Os mundos são conectados por Yggdrasil (Yggdrasill) e imensos rios. Vale lembrar que Asgard (Ásgarðr) fazia fronteira com Vanaheim (Vanaheimr) e o mesmo deve ser entre Alfheim e Muspelheim. Isso provavelmente os colocou como oponentes no final dos tempos. Freyr representa a luz acolhedora e a fertilidade (vida), enquanto Surtr representa a fumaça enegrecida de fogo e esterilidade (suas chamas queimarão o mundo). Freyr possuía uma espada maravilhosa dotada de vontade própria, enquanto Surtr possui uma espada magnífica que brilha mais que o sol (a Sól). Os elfos súditos de Freyr são brilhantes e os subordinados de Surtr também. Freyr é um Vanr (membros dos Vanir) e Surtr é um gigante (Jötunn). Ambos possuem algumas características similares, porém são antagonistas.
FONTES:
Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall
Edda, Anthony Faulkes
Gods and Myths of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson
O Livro de Ouro da Mitologia: Histórias de Deuses e Heróis, Thomas Bulfinch
Norse Mythology: A Guide to Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, John Lindow
Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson
SITES CONSULTADOS:
https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
Qual é a arma divina mais poderosa?
Como bem sabemos, o panteão nórdico consistia de muitos deuses e deusas guerreiros, com características bélicas. Muitas divindades possuíam itens preciosos e de grande poder. Fotos de Internet.
Existem várias armas divinas na cosmovisão nórdica: a espada envenenada Tyrfingr, a espada mortal dotada de vontade própria que pertenceu a Freyr (não nomeada), os sapatos especiais de Vidar (Víðarr), a espada de Sigurd (Sigurðr), o cinturão da vitória de Hod (Höðr), a lança Gungnir, e muitas outras.
Mas, o Skáldskaparmál nos informa que a arma mais eficaz e poderosa dos deuses era o martelo Mjolnir (Mjöllnir). O Mjolnir inclusive ficou na frente da Gungnir, esse veredito foi dado pelo trio supremo dos deuses: Odin (Óðinn), Thor (Þórr) e Freyr.
As características do Mjolnir eram: nunca errar o alvo, sempre retornar a mão que o atirou, a arma podia ficar pequeno ou grande e ser colocado dentro da camisa de Thor, era inquebrável e nada podia lhe resistir a pancada, mas o cabo era pequeno. A força do golpe da arma dependia do desejo de Thor ("Þá gaf hann Þórr hamarinn ok sagði, at hann myndi mega ljósta svá stórt sem hann vildi, hvat sem fyrir væri, at eigi myndi hamarrinn bila, ok ef hann yrpi honum til, þá myndi hann aldri missa ok aldri fljúga svá langt, at eigi myndi hann sækja heim hönd, ok ef þat vildi, þá var hann svá lítill, at hafa mátti serk sér. En þat var lýi á, ar forskeftit var heldr skammt. Þat var dómr þeira, at hamarrinn var beztr af öllum gripunum ok mest vörn í fyrir hrímþursum"). Quanto mais furioso Thor ficava, mais forte era a pancada. Nos desafios de Utgard-Loki (Útgarðr-Loki), o Thor bateu três vezes numa montanha de Jotunheim (Jötunheimr) pensando ser um gigante, que abriram profundamente um vale. Lembre-se: tudo em Jotunheim é extremamente colossal, muito maior que coisas de Midgard (Miðgarðr). Para ter uma ideia, a luva do gigante que Thor pensou ter golpeado serviu de palácio pro filho de Odin, Loki, Thjálfi (Þjálfi) e Röskva passarem a noite. Esse gigante imenso projetou sua imagem na montanha onde Thor bateu. A fortaleza desse gigante era colossal também e muito maior. Depois que Thor soube que foi enganado, ele voltou para a fortaleza do gigante para destruí-la em pedaços, mas tudo havia sumido (Ok þá snýst hann aftr til borgarinnar ok ætlast þá fyrir at brjóta borgina. Þá sér hann þar völlu víða ok fagra, en enga borg.). O texto original da narração conta que Thor tinha poder pra tal feito e o gigante sabia disso e ocultou seu castelo com mágica, agora imagine o tamanho dessa fortaleza? Lembrando que a luva do gigante foi usada como palácio, o próprio gigante era colossal, então, imagine o tamanho do castelo dele? Talvez seja do tamanho de um planeta!
Vale lembrar que Thor é criador de constelações como: Aurvandilstá ("Dedão de Aurvandill") e Þjaza Augu ("Olhos de Þjazi"). Fica subentendido que quem cria estrelas, pode destrui-las. Isso coloca Thor na categoria de um deus criador e destruidor.
O poder de Thor é tal que ele faz mundos tremerem: isso é descrito no Lokasenna ("Fjöll öll skjalfa/Todas as montanhas tremem"), Þrymskvida ("björg brotnuðu, brann Jörð loga/as montanhas se partiam, as chamas chamuscavam a Terra") e Skáldskaparmál ("Knóttu öll (en Ullar endilóg fyr mági Grund vas grápi hrundin) ginnunga vé brinna, þás hofregin hafrar hógreiðar fram drógu (seðr gekk Svölnis ekkja sundr) at Hrungnis fundi/Todos os santuários dos falcões (os Céus) encontrava-se em chamas, por causa do padrasto de Ullr (Thor), a Terra era sacudida pela tempestade de granizo, o Ginnunga Vé (Santuário dos deuses, os Céus) queimava quando o Hofregin (Templo do Poder, que é Thor) dos bodes do dócil carro ia em direção ao encontro de Hrungnir; - a viúva (Jörð/Jörð) de Svölnir (Odin) praticamente partia em pedaços -"). Os Céus aqui são os 9 mundos (e/ou a abóbada celeste) porque Ginnunga é o local primordial onde a criação foi estabelecida e onde Yggdrasil mantém três raízes que liga o cosmo, a árvore sagrada que é cercada por rios sagrados.
A descrição do Skáldskaparmál não deixa dúvida: Thor faz a Terra (sua mãe) tremer e até em certos pontos desmoronar, tamanho é o seu poder! A passagem do Thor pelo céu desta narração específica demonstra o quanto o deus é perigoso: seu passeio celestial faz os céus arderem e queimarem. O poema Grímnismál menciona que Thor anda a pé quando vai julgar até Yggdrasil (Yggdrasill), nadando através de rios, o que faz as águas ferverem, tal é o seu poder, o seu calor. Tal descrição é similar ao de Zeus/Júpiter quando está colérico no mito greco-romano. A demonstração é clara: Thor e Zeus/Júpiter tinham poder para ameaçar toda criação! Veja:
253. And now his thunder bolts would Jove wide scatter, but he feared the flames, unnumbered, sacred ether might ignite and burn the axle of the universe: and he remembered in the scroll of fate, there is a time appointed when the sea and earth and Heavens shall melt, and fire destroy the universe of mighty labour wrought. Such weapons by the skill of Cyclopes forged, for different punishment he laid aside - for straightway he preferred to overwhelm the mortal race beneath deep waves and storms from every raining sky. Metamorphoses, Ovid.
253. E agora seus raios, Júpiter, espalhariam-se por toda parte, mas ele temia que as chamas, incontáveis, do éter sagrado pudessem inflamar e queimar o eixo do universo: e ele se lembrou no pergaminho do destino, que há um tempo determinado em que o mar, a terra e os céus derreterão, e o fogo destruirá o universo de trabalho grandioso. Tais armas, forjadas pela habilidade dos Ciclopes, ele rejeitou para outro castigo – pois preferia imediatamente subjugar a raça mortal sob ondas profundas e tempestades de todos os céus chuvosos. (Tradução).
No mito grego, Zeus/Júpiter recebeu o raio e o relâmpago dos Hecatonquiros depois de serem libertados do Tártaro pelo filho de Cronos, armas estas que estavam sepultados nos flancos da terra. No norte, os anões forjaram o martelo que foi dado a Thor, depois de Loki cortar os cabelos de Sif, que é uma deusa da terra (Sif aparece como outro nome de Jord na Edda de Snorri).
O martelo também podia aumentar de tamanho, algo que é perceptível durante a pesca de Thor. Quando Thor fisga e puxa a serpente do mar, ele cresce ficando gigante apoiando os pés no fundo do mar, ele levantou e atirou o martelo no monstro mesmo depois da linha ter sido cortada por Hymir. Então, o martelo estava ajustado ao seu tamanho gigante. Assim, a arma sagrada podia aumentar e diminuir de tamanho conforme a necessidade de Thor.
"Mjolnir" é de significado incerto, mas é provável estar relacionado a palavra nórdica mala/mola que significa "esmagar/moer" ou talvez do sueco moln que significa "armando nuvem negras". Ambos significados são possíveis: o raio/relâmpago e o trovão era a arma mais devastadora e destruidora nas religiões antigas e faz sentido significar nuvem, pois é da onde nasce o raio. Outro possível significado associado é a palavra russa molnija que significa "relâmpago", que também faz sentido.
FONTES:
All the Mountains Shake Seismic and Volcanic Imagery in the Old Norse Literature of Þórr, Declan Taggart
An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson
Edda, Anthony Faulkes
Gods And Myths Of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson
Mitologia Greco-romana vol. 1, René Ménard
Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson
The Poetic Edda, Carolyne Larrington
Thor's Hammer, Hilda Roderick Ellis Davidson
SITES CONSULTADOS:
https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar
https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i
http://heimskringla.no/wiki/Ynglinga_saga
quarta-feira, 24 de dezembro de 2025
O Fôlego/Espírito (Ǫnd/Önd) e a Vida (Líf)
É amplamente conhecido que o trio criador: Odin, Vili e Ve (Óðinn, Vili e Vé) criaram o primeiro casal humano. Fotos de Internet.
O trio criador deu várias dádivas ao casal humano, mas esse post irá focar apenas nas dádivas de Odin. As outras dádivas dos outros deuses ficará para posts vindouros.
Quando o trio criador recolheu os troncos de madeiras a beira mar, Odin deu o fôlego e/ou espírito e a vida para a dupla mortal recém criada (na Völuspá: önd gaf Óðinn, no Gylfaginning: Gaf inn fyrsti önd ok líf). A palavra nórdica "ϙnd/önd" (também "anda") significa tanto "fôlego" quanto "espírito". Tanto é que as traduções do inglês da Völuspá usam as duas possibilidades (explicarei logo a seguir). Essa palavra aparece em algumas runestones (pedras rúnicas) da era viking como "ont" (runas áss, nauðr e Týr) e "ant" (ár, nauðr e Týr). Lembrando que na era viking os escandinavos usavam as 16 runas do Jovem Futhark. Veja dois exemplos abaixo (embora haja outros):
Outra coisa precisa ser explicada: o som da runa Áss passou de "a" para "o" com a mudança do Antigo Futhark para o Jovem Futhark, o som da runa Jera passou de "j" para "a" e foi batizada de Ár ("ano"). A runa Dagaz (23 na fila rúnica) foi tirada do Jovem Futhark e o som de "d" passou a ser usado por "t" de Týr. A runa Ansuz (Áss) representava os deuses no Antigo Futhark e no Jovem Futhark a runa Ár passou a representá-los. Um antigo manuscrito associa a runa Ár com os deuses confirmando essa conexão. A runa Dagaz significa "dia" (luz) e Týr significa "deus", mas que indica originalmente "brilho ou luz celeste". Desse modo, as substituições eram mais ou menos equivalentes.
O ato de respirar (fôlego) é o que anima o corpo, portanto respirar está intimamente ligado ao espírito, pois é o espírito que anima o corpo. Por isso, essa dádiva de Odin é traduzida de ambas as formas. Sem fôlego não há vida, sem espírito não há vida.
O significado rúnico de "ϙnd/önd" é basicamente isso: sopro (Áss) divino (Týr) necessário (Nauðr). Ou seja: o sopro divino é restrito até certo tempo no corpo físico, quando se esvai a vida chega ao fim.
O ϙnd/önd é intimamente ligado à Óðinn no período pagão (evidenciado pela Völuspá), e após a cristianização da Escandinávia, a palavra passou a ser usada associada ao deus cristão (com o tempo, ϙnd/önd foi sendo substituído por sál ou "alma", talvez pra se afastar da sombra pagã). O interessante é a ideia do espírito estar associada a luz (via runa Týr, algo também visível em sál via Sól).
A outra dádiva de Odin ao casal humano foi a vida (líf na língua nórdica). O fluxo individual da vida é representado por Lϙgr, Íss e Fé (Laguz, Isa e Fehu). De certa forma, isso confirma a associação da criação humana a beira mar (via Lϙgr, o mar, e Íss que representa um indivíduo).
Com isso podemos entender que o fluxo individual da vida (líf) precisa do sopro divino necessário (ϙnd/önd) para se sustentar.
FONTES:
An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson
Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall
Edda, Anthony Faulkes
Os Deuses Nórdicos são Imortais?, Marcio Alessandro Moreira, link: https://mega.nz/file/NfpilZiL#UBctotG_nrZdTbQ85TrmKQF0gAUMag0jsWdSrFux3Ks
The Poetic Edda, Carolyne Larrington
SITES CONSULTADOS:
sábado, 29 de novembro de 2025
A substância criadora "eitr"
Na cosmogonia nórdica, a substância "eitr" ("veneno") desencadeia um papel importante na criação: o nascimento de Ymir, o primeiro ser vivo. Essa substância correu dos rios gelados de Élivágar, do mundo do frio, até o Ginnungagap onde acumulou camadas de gelo até ser derretido pelo calor do mundo de fogo. Fotos de Internet.
Na Edda em Prosa, a substância é descrita como: kvikudropar (gotas correntes de fluido). Isso é dito no Gylfaginning:
Þá mælti Hárr: "Ár þær, er kallaðar eru Élivágar, þá er þær váru svá langt komnar frá uppsprettum, at eitrkvika sú, er þar fylgði, harðnaði svá sem sindr þat, er renn ór eldinum, þá varð þat íss. Ok þá er sá íss gaf staðar ok rann eigi, þá hélði yfir þannig, en úr þat, er af stóð eitrinu, fraus at hrími, ok jók hrímit hvert yfir annat allt í Ginnungagap."
Þá mælti Þriði: "Svá sem kalt stóð af Niflheimi ok allir hlutir grimmir, svá var allt þat, er vissi námunda Múspelli, heitt ok ljóst, en Ginnungagap var svá hlætt sem loft vindlaust. Ok þá er mættist hrímin ok blær hitans, svá at bráðnaði ok draup, ok af þeim kvikudropum kviknaði með krafti þess, er til sendi hitann, ok varð manns líkandi, ok var sá nefndr Ymir, en hrímþursar kalla hann Aurgelmi, ok eru þaðan komnar ættir hrímþursa..."
Hárr disse: "Quando esses rios que são chamados Élivágar vieram de tão distante de suas fontes, fermentados venenos os acompanhou endurecendo como escória quando corre do fogo, e se transformou em gelo. E então quando esse gelo se formou e se solidificou uma chuva que surgiu do veneno, verteu em cima disso e esfriou a geada, e uma camada de gelo se formou sobre outras através do Ginnungagap."
Então Þriði disse: "Da mesma maneira que o frio e todas as coisas terríveis emanam de Niflheimr, então tudo na vizinhança de Múspell eram quente e brilhante, que o Ginnungagap estava tão moderado como ar sem vento. E então quando o sopro de calor se encontrou com o gelo, de repente descongelou e pingou, pelo poder daquele que envia o calor, a vida apareceu em gotas correntes de fluido e cresceu na semelhança de um homem; que teve o nome de Ymir, mas os Hrímþursar o chamam de Aurgelmir, e é de onde a família dos Hrímþursar surgiu." (trad. minha)
O poema Vafþrúðnismál corrobora essa ideia: o gigante Vafþrúðnir mencionou que os gigantes nasceram das gotas de veneno (eitrdropar) de Élivágar e por isso são terríveis.
"Ór Élivágum
stukku eitrdropar,
svá óx, unz varð jötunn;
þar eru órar ættir
komnar allar saman;
því er þat æ allt til atalt."
"De Élivágar
saltaram gotas de veneno,
e aumentou até que um Jötunn nasceu;
de lá toda nossa tribo
veio a existir,
por isso todos são sempre terríveis." (trad. minha)
A palavra "eitr" parece significar "liquido corporal" ou "pus" além de "veneno" noutras línguas com cognato germânico (Anglo-saxão âtor, Alto-Alemão Antigo eitar, Dinamarquês ædder, Elfdaliano Sueco "ietter" e no antigo dialeto do Reino Unido "atter"). Na literatura, essa substância é associado a um tipo de liquido divino: tal como o sopro de um dragão. Mas também significa bebida forte ou amarga, tal como vinagre (fermentado), novamente corroborando a ideia de Snorri e sua interpretação de kvikudropar (gotas correntes [fermentadas] de fluido). No Fáfnismál nós podemos ler:
"En er Fáfnir skreið af gullinu, blés hann eitri, ok hraut þat fyrir ofan höfuð Sigurði."
"E quando Fáfnir se afastou do ouro, ele soprou veneno e este caiu na cabeça de Sigurd." (trad. minha)
No Jovem Fuþark runicamente temos "ár (bom tempo, plenitude), íss (gelo), Týr (deus) e reiðr (cavalgar, movimentar)" que significa: "plenitude de gelo divino em movimento". Ou seja, o poder criativo e gerador estava presente nas águas geladas do caldeirão primitivo de Élivágar. A substância está ligada diretamente ao gelo e talvez ao sal, já que o significado de "veneno" nos faz lembrar de algo que queima, arde ou ferve. Curiosamente o anão que forjou as armas divinas dos deuses Odin (Óðinn) Thor (Þórr) e Freyr se chamava Eitri ("Venenoso", mas também Sindri). Desse modo, o anão com grande poder criador/forjador tinha o mesmo nome que a substância criadora. Só pra esclarecer: na era viking o Antigo Fuþark (de 24 caracteres) já tinha sido substituído pelo Jovem Fuþark (de 16 caracteres) por causa da evolução linguística. A runa ár representava o som de "a" e de "e". Podemos sugerir que a substância era tanto criativa quanto destrutiva.
Então, porque os gigantes e os deuses, que tinham origem similar, eram diferentes? Ymir nasceu diretamente dessa substância venenosa (eitr) que é descrita como escória (tipo as sobras de metal na forja), enquanto Buri foi libertado por Auðhumbla que lambeu o sal das pedras de gelo (Hon sleikði hrímsteinana, er saltir váru).
Com isso, podemos entender que mesmo com origem similar (ter origem no gelo), Buri nasceu de um gelo limpo (lambido pela vaca divina) e puro; enquanto Ymir (e Auðhumbla?) nasceu de um gelo sujo e impuro (da substância eitri, mas talvez também por causa da fuligem soprada de Muspell que caia no Ginnungagap).
Tácito mencionou que o sal era muito importante para duas tribos germânicas que inclusive se enfrentaram para tomar posse de um rio que continha o mineral, que fazia divisa de suas terras e era considerado sagrado e perto do céu. Onde as orações eram melhor atendidas pelas divindades. As tribos em questão eram os Chatti (Catos) e os Hermunduri (Hermonduros) que tinham invocado Mercúrio (Odin) e Marte (Tyr). Os Hermunduri saíram vencedores do conflito. O interessante é que o sal era importante desde os tempos primitivos germânicos até a era viking segundo sua cosmovisão. Veja o trecho:
"No mesmo verão, uma grande batalha foi travada entre os Hermunduri e os Chatti, ambos reivindicando à força um rio que produzia sal em abundância e delimitava seus territórios. Eles não tinham apenas uma paixão por resolver todas as questões pelas armas, mas também uma superstição profundamente enraizada de que tais localidades são especialmente próximas do céu e que as preces mortais não são ouvidas com mais atenção pelos deuses. É, eles pensam, pela generosidade do poder divino, que naquele rio e naquelas florestas o sal é produzido, não, como em outros países, pela secagem de um transbordamento do mar, mas pela combinação de dois elementos opostos, fogo e água, quando este último foi derramado sobre uma pilha de madeira em chamas. A guerra foi um sucesso para os Hermunduri e mais desastrosa para os Chatti porque eles haviam devotado, em caso de vitória, o exército inimigo a Marte e Mercúrio, um voto que consigna cavalos, homens, tudo de fato do lado vencido à destruição." (trad. minha)
Na Noruega e na Islândia, o sal era obtido principalmente pela queima de algas marinhas. O sal era importante em muitas tradições religiosas do mundo antigo. A descrição de Tácito lembra muito a narração da criação de Snorri.
FONTES:
An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson
Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall
Edda, Anthony Faulkes
Etymological Dictionary of Proto-Germanic, Guus Kroonen
The Annals, Tacitus trad. de Alfred John Church e William Jackson Brodribb
The Poetic Edda, Carolyne Larrington
SITES CONSULTADOS:
https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar (especialmente: https://heimskringla.no/wiki/Gylfaginning)
https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i (especialmente: https://heimskringla.no/wiki/Vaf%C3%BEr%C3%BA%C3%B0nism%C3%A1l e https://heimskringla.no/wiki/F%C3%A1fnism%C3%A1l)
https://super.abril.com.br/mundo-estranho/por-que-as-vacas-lambem-sal
https://www.tastesofhistory.co.uk/post/a-brief-history-of-foods-salt
https://web.archive.org/web/20140314070618/http://www.cargill.com/salt/about/historyofsalt/religion/
quinta-feira, 16 de outubro de 2025
Quem foi o primeiro ser a existir? Surtr ou Ymir?
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
Thor era representado como personificação do céu?
Thor (Þórr), o filho primogênito de Odin (Óðinn) e Jord (Jörð), é muito conhecido pelas pessoas por ser o deus da força e do raio. Fotos de Internet.
Segundo o Gylfaginning de Snorri, o Thor nasceu forte e poderoso e por isso vencia todas as criaturas. Thor é explicitamente a personificação do poder e da força.
Mas, quando analisamos as fontes antigas mais atentamente, nós podemos ver que o deus é a própria personificação do céu para os antigos escandinavos.
E como cheguei nessa conclusão? Simples! Eu segui as metáforas nórdicas (kenningar). A barba ruiva de Thor foi associada as nuvens de tempestades por Hilda R. E. Davidson. Eu não discordo dessa grande autora e acadêmica, porém os sprites (duendes) vermelhos vistos durante as tormentas podem estar relacionadas também, pois lembram fios eriçados tal como nas descrições dos cabelos de Thor no Þrymskviða.
O poema Húsdrápa associou os olhos brilhantes de Thor (innmáni ennis ou "lua interior da sobrancelha") com a Lua (Máni). Thor também é conhecido por ter criado as constelações "Olhos de Thiazi (Þjaza Augu)" e "Dedão de Aurvandill (Aurvandilstá)". Na idade média, nas ilustrações, Thor era representado com 12 estrelas na cabeça.
No Þórsdrápa, compilado no Skáldskaparmál, quando Thor vai ao encontro de Geirrod (Geirröðr), as duas filhas do gigante levantaram a cadeira onde o deus se sentou tentando fazê-lo se chocar com o teto da residência, mas o filho de Odin conseguiu impedir a ação, a cabeça de Thor é referenciada como o Céu e seus olhos novamente associados a Lua (hám himni loga brátungls). O combate entre eles parece ser uma referência entre o poder celeste e o poder ctônico.
O duelo entre Thor e Hrungnir também parece indicar um "embate celestial". Thor seria a representação do céu e do raio que esmigalha as altas montanhas representados por Hrungnir e seu aliado Mökkurkálfi. Thjalfi (Þjálfi) seria o vento. A ideia de lascas de pedra na cabeça de Thor parece indicar que era como os meteoritos eram entendidos pelos escandinavos. Eles caiam do céu e ardiam, e o povo talvez acreditassem que havia ocorrido uma batalha entre Thor e os gigantes. O martelo era a representação do relâmpago que saia das nuvens. Raios também saiam dos olhos do deus.
É comum na poesia dos escaldos ver partes do corpo humano e divino ser relacionados com a natureza, porém isso é muito importante porque liga esse entendimento a cosmovisão pagã, a natureza e a maioria dos deuses foram feitos das partes do cadáver de Ymir pelo trio divino criador. Então, é natural entender dessa forma, fazer essa associação através de metáforas. Vale lembrar que o cérebro de Ymir foi transformado em nuvens e o seu crânio no céu pelos deuses, mas isso não desqualifica a associação de Thor com esses elementos. Thor é o regente deles.
Então, com esses exemplos metafóricos, podemos entender que Thor era visto como a personificação da abóbada celeste, seus cabelos eram as nuvens avermelhadas de tempestades (ou sprites), sua cabeça o céu e seus olhos a Lua. Essa imagem simbólica parece ser melhor compreendida quando enxergamos Thor como protetor dos deuses e homens e ele seria a "barreira" contra os gigantes que vivem do lado de fora. Vale lembrar que na cosmovisão nórdica, haviam 9 céus uns por cima dos outros (os céus dos 9 mundos). Thor (o ar, atmosfera) era filho de Odin (Céu primordial) e de Jord (a Terra). Com o nascimento de Thor, Odin foi distanciado de Jord, e assim o filho herdou os domínios do pai. As viagens constantes de Thor para o leste (para destruir Trolls) e para o oeste (retorno para o seu lar) lembra o movimento do Sol pelo céu. Algumas fontes indicam que Asgard (Ásgarðr) ficava no oeste.
Odin, Thor e Týr (Týr) são a trindade celeste, o primeiro representa o céu noturno/primordial, o segundo representa o céu tempestuoso e o terceiro representa o céu luminoso, diurno.
O Zeus dos gregos era visto de forma parecida na antiguidade, nos hinos órficos, Zeus era o céu. O Sol (Hélios) era chamado de "Olho de Zeus". Thor foi identificado com o romano Júpiter, o equivalente do Zeus, em alguns manuscritos antigos. A quinta feira é a prova disso, pois é o dia sagrado desses três deuses.
FONTES:
As Similaridades Entre Þórr, Perkunas, Zeus, Júpiter, Indra e Héracles, Marcio Alessandro Moreira
Edda, Anthony Faulkes
Myths and Symbols in Pagan Europe Early Scandinavian and Celtic Religions, Hilda Roderick Ellis Davidson
Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson
Teutonic Mythology Vol. 1, Jacob Grimm
The Poetic Edda, Carolyne Larrington
SITES CONSULTADOS:
quinta-feira, 20 de março de 2025
Lytir, o deus do vagão
Lytir (Lýtir no nórdico arcaico) é uma divindade mencionada no Hauks Þáttr Hábrókar do Flateyjarbók, porém quase nada sobre ele é conhecido. A pequena descrição sobre ele sugere uma conexão com o Vanir, porém é apenas especulação. Fotos de Internet.
Segundo a passagem no texto, o deus foi levado numa carruagem até o rei sueco para ser consultado, tal como numa procissão. A carruagem primeiro foi levada a um local sagrado onde o deus entrou, antes de seguir viagem ao reino. Esta descrição lembra muito a da Nerthus (mencionada em Germania por Tácito) e Freyr (mencionado no Ögmundar Þáttr Dytts).
A Nerthus era levada num carro puxado por bois até o povo porque costumava intervir nos casos humanos, seu carro ficava numa ilha num bosque consagrado e coberto por um véu. Os sacerdotes pressentiam a presença da deusa antes de transportá-la numa procissão.
A estátua de Freyr era levada numa carruagem por uma jovem sacerdotisa para ser consultado na Suécia, sua imagem estava viva (Freyr væri lifandi) e falava com o povo. A passagem menciona roupas colocadas na estátua do deus. A ótica cristã do redator da saga descreve a cena como o demônio animando a estátua de Freyr (obviamente pervertendo o simbolismo pagão). Talvez, esse rito era pra celebrar a fertilidade da Terra simbolizado pela união do deus com a sacerdotisa.
O nome "Lytir" pode estar associado a palavra nórdica antiga "hlutr" significando "sorte" (de cerimonial de tirar a sorte), "quinhão/porção" ou "adivinhar" e com "lýta" (e litr "colorido") que significa "mancha[do]". A velha palavra nórdica "liðr" significa "membro viril/pênis" e também pode estar relacionada. É mais comum Lytir ser identificado com Freyr por causa do seu possível significado de "sorte" algo que é relacionado com o Vanir. Mas, também já foi sugerido que Lytir poderia ser uma variação de Lodur (Lóðurr), um dos três deuses criadores, o que parece bastante improvável, embora o mesmo viajava pelo mundo com Odin (Óðinn) e Hœnir como um trio. Lodur é identificado com Loki em alguns manuscritos, e como o último não é uma divindade benfazeja isso fala contra esta identificação. Contudo, se o nome significar "pênis", isso corrobora com a identificação à Freyr cuja representação era um largo falo segundo o relato de Adam de Bremen (a imagem de Rällinge parece confirmar tal ideia), e ritos com teor sexual são mencionados também por Saxo no templo do deus na Suécia.
Outra coisa fala em favor dessa identificação: segundo Saxo, as vitimas sacrificadas para Freyr eram negras (furvis hostiis), enquanto o significado de "manchado" pode indicar que a imagem do deus era pintada ou regada a sangue que quando seco ficava escurecida.
FONTES:
A Latin-English Dictionary, William Smith
A Germania, Maria Cecília Albernaz Lins Silva de Andrade
Adam de Bremen - History of the Archbishops of Hamburg-Bremen, Francis J. Tschan
An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson
Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall
Gods and Myths of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson
Lokrur, Lóðurr and Late Evidence, Haukur Þorgeirsson
Saxo Grammaticus vol I & II - Gesta Danorum/The History of the Danes, Peter Fisher
Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson
SITES CONSULTADOS:
https://heimskringla.no/wiki/%C3%96gmundar_%C3%BE%C3%A1ttr_dytts_ok_Gunnars_helmings
quarta-feira, 28 de agosto de 2024
A origem da Yggdrasill
Este post será dedicado a árvore cósmica Yggdrasill, o centro da cosmologia nórdica. Apesar de grande importância dentro do paganismo nórdico, sua origem é envolto em mistério. Foto de Internet.
Porém, examinando as fontes primárias que temos (as duas Eddur), podemos enxergar nas entrelinhas.
A Völuspá conta que a árvore é eterna, enquanto o Grímnismál menciona animais abaixo e acima dela, o Snorri relatou que era nela que os deuses se reuniam com as Nornas (Nornir) para julgarem assuntos divinos diários.
Mesmo ela sendo descrita como eterna, suas raízes denunciam que ela teve um início, uma origem. A Yggdrasill possui três raízes: uma na terra dos mortos, uma na terra dos gigantes e a outra na terra dos homens ou deuses (dependendo da fonte).
A raiz da fonte da terra dos mortos, Niflheimr, era chamada Hvergelmir, onde o dragão Nidhogg roia a raiz.
A raiz da fonte dos gigantes, Mimisbrunnr, era guardada por Mimir, aqui ficava escondida toda a sabedoria e entendimento.
A outra raiz não é tão clara, pois numa fonte é dito ficar no mundo dos homens e outra diz estar na terra dos deuses. E outra parece indicar que ela ficava no sul (o que a coloca na direção de Muspelheimr).
Pra entendermos como Yggdrasill pode ter surgido devemos recorrer as fontes. No início nada havia, apenas o mundo de fogo no sul (Muspelheimr) e o mundo de gelo no norte (Niflheimr), do encontro entre as duas regiões, no meio, ficava Ginnungagap. E Ginnungagap ficava ao leste, onde posteriormente seria a terra dos gigantes. Ymir surgiu do degelo do encontro do norte e sul, assim como Audhumbla que libertou Buri do gelo. Da união dos descendentes de Ymir e Buri surgiram os deuses. Os deuses mataram Ymir e jogaram seu corpo no Ginnungagap. O mundo é criado a partir daí, a terra é feito da carne de Ymir, as nuvens de seu cérebro, o mar de seu sangue, as montanhas dos ossos e as árvores de seus cabelos. Os homens foram criados de árvores a beira mar. Note aqui que a humanidade provavelmente tem origem dos ramos de Yggdrasill. A humanidade é como galhos da árvore cósmica. O poema Grímnismál menciona que Odin é o maior dos æsir e Yggdrasill das árvores, e Odin é o mais velho dos deuses e o mesmo deve se aplicar a Yggdrasill (como a mais antiga das árvores).
Então, se as árvores vieram dos cabelos de Ymir, provavelmente esta foi a origem da árvore cósmica, pois como é dito na Völuspá não havia grama ou vegetação em lugar nenhum antes da criação, depois, no poema, é narrado que assim que a humanidade foi criada de árvores a beira mar as Nornes surgiram (estas poderosas entidades cuidavam de Yggdrasill e riscava os destinos em chapas de madeira). Desse modo, a humanidade pode ter sido criada dos ramos de Yggdrasill pelo trio criador. Isso explicaria a conexão da raça humana com as árvores e adoração das mesmas. Assim, todos os seres humanos estão ligados e possuem uma conexão, cada ser humano é uma "folha" de Yggdrasill.
Para maior entendimento leiam aqui: https://osegredodasrunas.blogspot.com/2023/04/o-parentesco-entre-os-seres-na-criacao.html
FONTES:
Edda, Anthony Faulkes
Gods and Myths of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson
Myth and Religion of the North: The Religion of Ancient Scandinavia, E. O. G. Turville-Petre
Myths and Symbols in Pagan Europe: Early Scandinavian and Celtic Religions, Hilda R. E. Davidson
Saxo Grammaticus Gesta Danorum: The History of the Danes Volume I, trad. Peter Fisher
Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson
The Poetic Edda, Carolyne Larrington
SITES CONSULTADOS:
quarta-feira, 1 de maio de 2024
Os deuses e o Halo divino
Hoje é muito comum ver halos e/ou auréolas nas representações nas artes de divindades Greco-romanas, no Hinduísmo, no Budismo e até na arte sacra da igreja (Cristianismo). O halo divino e/ou as auréolas são símbolos do poder celestial e também do conhecimento superior, o que distingue o divino do comum e do ordinário. O halo na arte pode ser representado por um disco solar, raios tipo de um zigue zague (feixe de luz) ou auréola. Fotos de Internet.
Hélio o deus sol, Apolo (que mais tarde é identificado com o primeiro), Krishna, Hathor, Sekhmet, Rá, Dionísio, Perseu, Nike, Ares, Afrodite, Jesus e outros aparecem com esse sinal na arte e nas descrições literárias que os distingue dos mortais. Contudo, alguns personagens importantes do mundo greco-romano, santos da bíblia e de outros povos também aparecem como halo na cabeça, mas a ideia é a mesma: os imperadores eram considerados e até adorados como divinos, e os santos foram venerados ao longo da história, ou seja, alguns homens distintos eram assim representados de acordo com suas crenças. Vale lembrar que nem sempre as divindades eram representados com halo.
Este símbolo divino também aparece no extremo norte. Nas lâminas da era do bronze escandinavo (cerca de 1800-500 a.C.) podemos ver um ser ou dupla de homens e/ou divindades com halo na cabeça.
Curiosamente o Thor é descrito de forma similar também: segundo se acredita era possível obter fogo (que também representa o raio celeste) da cabeça de Thor através de um ritual relatado entre os Lapões onde o deus era conhecido e venerado como "Horagalles". Esse rito parece ter conexão com o combate de Thor e Hrungnir. Os Æsir ("deuses") é outro exemplo: as runas que formam a palavra que os define são as runas *Ansuz ("deus", a runa A) e *Sowilo ("sol", a runa S), o que indica que são deuses solares, da luz. Os deuses ainda são descritos como seres brilhantes nas fontes.
Em 1555, o sueco Olaus Magnus compilou a história de seu povo, lendas e folclore e ele descreveu o deus Thor com 12 estrelas ao redor da cabeça (Thor autem cum corona, & sceptro, ac XII stellis defignabatur), que talvez simboliza o raio solar divino, tal como o halo.
Existe outra versão dessa imagem também, porém similar:
Muito mais tarde, os deuses Thor e Odin foram sendo relacionados a esse sinal divino no manuscrito Nks1867 4to de 1760 e SÁM 66 de 1765. Note que as estrelas são atadas as cabeças dos dois deuses por um tipo de fio.
A deusa Sól da idade do bronze nórdico aparece nos petroglífos também puxando seu carro. O aro celeste aparece nas mais variadas formas, tal como um disco, um disco rodeado por aves ou pessoas, uma roda solar, e outros.
A deusa Sól é a divindade que rege a jornada do astro solar, mas Thor e Odin parecem representar seu poder, já que os dois deuses eram associados as estrelas (Odin é tido como o criador das estrelas junto com seus irmãos, Thor era conhecido por criar constelações). Freyr também era conectado ao sol.
Então, podemos deduzir que tal ideia (do halo) era conhecido no norte desde a era do bronze e permaneceu nas sucessivas gerações através da oralidade. Vale lembrar que os deuses da idade do bronze era bastante similar aos da era viking, embora haja muito espaço de tempo entre eles, mas podem muito bem ser suas evoluções religiosas.
Abaixo algumas representações de deuses com o disco solar, halo ou auréola de certas culturas antigas:
FONTES:
Dictionary Of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall
Edda, Anthony Faulkes
Gods And Myths Of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson
Historia de Gentibus Septentrionalibus, Olaus Magnus
Pagan Scandinavia, Hilda R. E. Davidson
Saxo Grammaticus Gesta Danorum: The History of the Danes Volume I, trad. Peter Fisher
Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson
Shadows of a Northern Past Rock Carvings of Bohuslän and Østfold, John Coles
The Chariot of the Sun and Other Rites and Symbols of the Northern Bronze Age, Peter Gelling e H. R. E. Davidson
The Poetic Edda, Carolyne Larrington
SITES:
https://www.arhantayoga.org/pt/chakra-da-coroa-a-energia-divina-do-chakra-sahasrara/
https://www.britannica.com/art/halo-art
https://www.cais-soas.com/CAIS/Religions/iranian/Zarathushtrian/halo_its_origin.htm
https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar
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