sábado, 7 de março de 2026

Os Nove Mundos da cosmovisão nórdica

 É amplamente sabido que na cosmovisão nórdica, existem Nove Mundos (Níu Heimar no original) sustentados pela árvore Yggdrasil (Yggdrasill). Fotos de Internet.

 O famoso poema Völuspá nos conta que existem nove mundos. Alguns são facilmente reconhecidos por causa da palavra nórdica heimr (“mundo”). Devo mencionar que "heimr" também quer dizer "morada", "local" ou "região habitada", o que nos dá a ideia de dimensões. Vamos conhecê-los:

01) Asgard/Ásgarðr (também chamada de Ásaheimr ou Ásaland) foi edificada pelos deuses no início dos tempos. No meio de Asgard está á planície Idavoll (Iðavöllr). Aqui também se encontra Gladsheim (Glaðsheimr) onde Odin (Óðinn) e os doze deuses possuem seus assentos e Vingólf, o lar das deusas. Asgard está ligada a Midgard pela ponte Bifrost (Bifröst), que é guardada por Heimdall (Heimdallr), mas ao que parece essa ponte leva também para outros lugares. Os deuses passam a cavalo todo dia por essa ponte para irem à fonte de Urd (Urðr) para julgarem, apenas Thor (Þórr) não passa por ela, ele tem que passar pelos rios Körmt e Örmt e os gêmeos Kerlaugar para chegar lá. A fonte de Urd, segundo o Gylfaginning, está em Asgard e é muito sagrada. As Nornes (Nornir) vivem aqui num belo salão onde determinam os destinos dos homens.

02) Vanaheim/Vanaheimr (também chamado de Vanaland) é o lar dos deuses Vanir, ao qual Njord (Njörðr) originalmente pertence. Os Vanir são descritos sendo sábios, ligados à magia e de costumes bem liberais. Njord era casado com sua irmã e Freyja é acusada por Loki de ter sido pega nos braços de seu irmão Freyr. Njord diz a Loki que não há mal algum Freyja ter um marido e um amante. Snorri diz que corria um rio chamado Tanakvísl ou Vanakvísl nesse país. Os Vanir também mantinham assembléias para discutir assuntos cotidianos. Honir (Hænir) viveu por certo tempo entre eles, assim como Mimir (Mímir), mas o último foi decapitado e sua cabeça foi devolvida para os Æsir.

03) Alfheim/Álfheimr é o lar dos elfos da luz (Ljósálfar), governado por Freyr, que ganhou esse mundo como dádiva do dente. Os elfos da luz são belos e brilhantes como a Sól (a deusa do sol). O Völundarkviða, a Þiðreks Saga e Hrólfs Saga kraka contam que os elfos (Álfar) tinham a aparência e tamanho (altura) de homens, só que mais belos e mais brancos. Posteriormente no folclore escandinavo, os elfos passaram a ter tamanho pequeno (e as vezes com asas), talvez por confundi-los com outros seres. Eles adoram a dança, o amanhecer e as florestas. Dois elfos famosos são: Idun (Iðunn), a guardiã das maças de ouro e Thjalfi (Þjálfi), o criado de Thor.

04) Jotunheim/Jötunheimr é o mundo dos gigantes (Jötnar). Aqui se encontra a fonte de Mimir (Mímisbrunnr), que detém toda a sabedoria e a inteligência. Aqui também está á cidade Utgard (Útgarðr), governada por Utgard-Loki (Útgarðr-Loki). O rio Ifing separa Jotunheim de Midgard e Asgard. Em Jotunheim está Jarnvid (Járnviðr), a floresta de ferro, e a gýgr (giganta) Jarnvidia (Járnviðja), mãe de Sköll e Hati. Em Jotunheim está á cidade de Gudmund (Guðmundr) chamada Glæsisvellir e Thrymheim (Þrymheimr), o lar de Skaði. Jotunheim é descrita tendo densas florestas e grandes montanhas. Tudo aqui é extremamente colossal.

05) Midgard/Miðgarðr ou Manheimr é o lar dos homens e dado originalmente ao par primordial Askr e Embla que foram criados por Óðinn, Honir e Lodur (Lóðurr). Heimdal foi o primeiro instrutor. A ponte Bifröst liga Midgard a Asgard. A Serpente Midgard (Miðgarðsormr) está enrolada em volta da terra abaixo do oceano. Thor é o protetor de Midgard. Midgard foi feita da sobrancelha de Ymir pelos filhos de Bor (Borr).

06) Svartalfheim/Svartálfheimr é o lar dos elfos negros (Dökkálfar), que são descritos como sujos e de cor de piche. Foram os anões (Dvergar) daqui que fizeram a correia Gleipnir que foi usada para prender Fenrir. Como os elfos negros não podem ver a luz da Sól (do sol), então, sugere-se que esse mundo devia ficar abaixo da terra.

07) Muspelheim/Múspellsheimr é o mundo de fogo e do calor, cujas fagulhas foram criados os astros e as estrelas do firmamento. Esse mundo é guardado por Surtr e Sinmöra. Este foi o primeiro mundo a existir, conta-se que apenas nativos dessa região podiam suportar o calor abrasador do local. Essa terra tinha um exército de seres brilhantes conhecidos comos Filhos de Muspel (Múspellssynir).

08) Niflheim/Niflheimr é o mundo das névoas, do frio e do gelo. Aqui se encontra a fonte Hvergelmir onde correm os onze rios gelados chamados de Elivagar (Élivágar). Nidhogg (Níðhöggr) rói as raízes de Yggdrasil na fonte Hvergelmir. Naströnd, a praia dos mortos, está também nesse mundo. Niflheim foi o segundo mundo a existir.

09) Niflhel é o lar da gýgr (giganta) Hel, onde ela recebe os homens mortos. O cão Garmr guarda a entrada na caverna Gnipahellir, logo adiante está o rio Gjöll e a ponte Gjallarbrú, que é guardada por Modgud (Móðguðr). Hel governa o local num palácio que é cercado por altos muros.

 Para muitos Nidavellir (Niðavellir), o lar dos anões, é um dos nove mundos, enquanto outros acreditam que seja apenas um lugar em Svartalfheim. Niflhel ou Hel também, as vezes, parece ser o mesmo mundo que Niflheim (embora nem sempre). Se Niflhel for o mesmo que Niflheim, então, Nidavellir realmente é um dos nove mundos, o problema é que Snorri associa os elfos negros com os anões, o que dificulta mais o esclarecimento. Niflheim está na direção Norte, Muspelheim na direção Sul, Jotunheim na direção Leste, enquanto que Asgard está na direção Oeste. O poema Alvíssmál (da Edda Poética) cita o mundo dos homens, dos Æsir, dos Vanir, dos gigantes, dos elfos, dos anões e o povo de Hel (mortos). Enquanto os Escandinavos acreditavam na existência dos nove mundos, não se sabe ao certo se os Saxões partilhavam da mesma idéia. Porém, no Lay of the Nine Twigs of Woden ("O Conto dos Nove Ramos de Woden"), o mesmo deus é associado a sete mundos. É possível que com a influência cristã o número nove foi substituído por sete, o número cristão da criação. Mas, algo precisa ser mencionado: no Antigo Futhark a runa *Hagalaz, que é associada a criação do mundo, era a nona na fileira rúnica, já no Jovem Futhark a mesma runa passou a ocupar a sétima posição. A possibilidade de dois mundos dos nove estar conectados na mesma direção poderia ser a explicação para isso (algo que parece bem possível: Alfheim fica próxima do sul que é direção de Muspelheim, Svartalfheim parece ficar abaixo da terra, que é Midgard, porém, pode ser outras combinações).

 Após lermos a descrição dos nove mundos, ficamos imaginando como os antigos Escandinavos pagãos imaginavam e/ou entendiam isso. Afinal, as descrições das posições divergem nas fontes que possuímos. Mas, segundo a Edda de Snorri, os mundos ficavam uns por cima dos outros, ou interligados por fronteiras cósmicas ligadas por rios primordiais ao redor de Yggdrasil. 

 Porém, curiosamente, existe uma estela na Suécia do período pagão que parece representar de como era esses nove mundos na sua concepção original. A estela em questão se encontra em Sanda Kyrka I em Gotland. A estela parece representar a cosmovisão nórdica: na parte superior podemos ver uma representação do sol (a Sól) girando no céu com 8 pernas indicando o Eykt ou "Octeto", que é as 8 direções cósmicas vistas do centro (8 + 1 = 9); no meio temos duas Serpentes envolvendo espirais (a primeira pode representar o dragão Nidhogg no mundo dos mortos, na fonte Hvergelmir, a segunda com certeza representa Jormungand enrolando os nove mundos com Midgard no centro, novamente 8 + 1 = 9, que é o Eykt ou as oito direções dos 8 mundos vistos da terra); logo abaixo temos uma árvore que provavelmente representa Yggdrasil.

Detalhe da estela de Sanda Kyrka I datada entre 400-600 DC, encontrada em Gotland, na Suécia. A Sól (o sol) brilha no céu da terra indicando as oito direções do Eykt na parte superior. Duas serpentes estão no centro, uma talvez representa o dragão Nidhogg na fonte primordial Hvergelmir, a outra possivelmente é Jormungand rodeando os nove mundos no mar cósmico (Midgard está no centro ladeada por outros oito mundos). Logo abaixo existe uma árvore que pode representar Yggdrasil. Esta estela está associada à motivos cosmológicos. Se analisarmos com atenção, veremos que quando Thor moveu uma das patas do gato de Utgard-Loki, que na verdade era Jormungand, então, o poderoso filho de Odin moveu toda criação porque o monstro rodeava os nove mundos e mal conseguiu fazer isso neste momento (algo que alarmou Utgard-Loki), um feito similar ao do Héracles/Hércules dos mitos Greco-romanos que segurou os céus nos ombros (o qual Thor é identificado). Os nomes da serpente na língua nórdica parece corroborar isso: "umgjörð neðan allra landa "((o que) circula abaixo de todas as terras") no Hymiskviða, "allra landa umbgjörð" ("cinto de todas as terras") pelo escaldo Ölvir hnúfa, "endiseiðr allra landa" ("peixe que liga todas as terras") pelo escaldo Bragi Boddason, "er liggr um öll lönd" ("que liga todas as terras") por Snorri Sturluson, "er liggr um heiminn allan" ("que liga todo o mundo") no Lokrur. As palavras "landa" e "lönd" estão no plural e significam "terras". Jormungand é dito "circular todas as terras", essas "terras" podem significar os nove mundos. Essa associação parece ter sentido porque Asgard também é chamada de Ásaland, Vanaheim de Vanaland, Jotunheim de Risaland e Ymisland. Assim "land" parece ser sinônimo de "heimr" ("mundo" ou "terra"). Thor elevou a serpente tão alto com sua força que chegou perto do céu, que a mandíbula e a cauda do monstro mal foram longo o suficiente para se tocar. Noutro momento, Thor chegou a puxar a cabeça da serpente fora do mar, separando-a do rabo, superando a primeira tentativa (indo mais longe), quando estava com Hymir. Então, é seguro dizer que Jormungand estava rodeando os nove mundos originalmente tal como a estela de Sanda Kyrka I nos apresenta.

A estela vista de ângulo inteiro. Na parte inferior logo abaixo da árvore, há um barco com remadores, o que sugere a viagem no mundo dos mortos. Oito círculos estão representados acima do barco, já foi sugerido de que seriam escudos (o que faz sentido). Porém, eles podem representar os oito mundos que os mortos atravessam assim que deixam Midgard. Logo acima do barco existe uma figura que se assemelha um monstro, talvez representa Garmr (ou Fenrir) acorrentado. Garmr ficava na entrada do mundo dos mortos.

Na religião hindu, Vishnu é representado repousando na serpente cósmica Adishesha, também conhecida como Ananta Shesha ou Shesha Naga, ao lado de sua esposa Lakshmi (nascida do oceano de leite) que massageia sua perna. Adishesha mantém os planetas da criação de forma similar a Jormungand. Mas, existe uma diferença aqui: nas descrições nórdicas Jormungand é maligno e inimigo de Thor, enquanto nas descrições hindu a Adishesha é benéfica e amigo de Vishnu.

No Ragnarok, Thor matará a serpente Jormungand, mas dará nove passos e cairá ao lado do monstro, segundo a Völuspá, depois disso, a Terra (Jord, a mãe-terra) afunda no mar. Esta descrição também é similar ao da famosa pesca: Thor vai no oceano cósmico (a leste de Elivagar) com Hymir e acaba por fisgar a serpente que circula as Terras, para fazer mais força o deus toma a estatura de gigante fazendo seus pés tocarem o solo (sua mãe) do fundo no oceano. A Terra (Jord ou Midgard) foi elevada das águas durante a criação, segundo a Völuspá, pelo trio criador. As similaridades entre Thor e Vishnu são claras: um deus protetor do cosmo cercado por uma serpente colossal sendo assistido por uma deusa surgida das águas e associado ao pé e/ou perna.

 Essa estela é muito interessante, porque ela, provavelmente, mostra como os antigos Escandinavos compreendiam a estrutura do universo no período pagão. Vale lembrar que mapas do mundo espiritual nem sempre são coerentes, porque eles nem sempre fazem lógica e algumas vezes são contraditórios.


FONTES:
An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson
Dicionário de Mitologia Germânica, Marcio A. Moreira https://mega.nz/file/IbghwADQ#Hgg2VrvAFJj8RYgrxnsrGTdmJYp_GNVmuchpA7GaZHc
Edda, Anthony Faulkes 
Gods and Myths of Northern Europe, Hilda Roderick Ellis Davidson
Myth and Religion of the North: The Religion of Ancient Scandinavia, E. O. G. Turville-Petre
Norse Mythology: A Guide to the Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, John Lindow
Norse Mythology A to Z, Kathleen N. Daly
O Número 108 no Grímnismál, Marcio A. Moreira https://mega.nz/file/BaIAECpB#eXPanjZs7Shn5y0UtRivc6k0Ir1QC-UE6sAk0MP3hf0
Scandinavian Mythology, Hilda Roderick Ellis Davidson
Thor vs. Malibu & DC Comics, Marcio A. Moreira (é um trabalho sobre HQs, mas tem uma parte devotada aos feitos do Thor e do Hércules mitológicos comparados lado a lado) https://mega.nz/file/lChSyQaJ#s-rfS7K0K0yptYKKbfLnER58nKnuDynfjRFDDFVKrYU
The Poetic Edda, Carolyne Larrington 

SITES CONSULTADOS:

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Quem praticou seiðr primeiro?

 É sempre muito complicado falar sobre ritos que envolvem os Vanir, por causa do pouco material sobre eles ter sobrevivido, ao contrário dos Æsir. Fotos de Internet.
 É provável, que por ser ritos ligados a sexualidade e feminidade, os coletores de mitos da idade média que eram cristãos, resolveram deixá-los de fora. Lembre-se que era século 13 DC, a censura era grande a tudo que envolvia outras religiões, principalmente material de teor feminino e sexual.
 Contudo, algumas descrições são exploradas aqui e ali, que foram registradas em algumas sagas e algum pormenor nas Eddas e Ynglinga Saga. A arqueologia também nos fala um pouco sobre o tema, que é muito interessante.
 O seiðr ("canto/encantamento") era a prática mais conhecida entre os deuses Vanir. Embora sua origem seja um mistério, existe fontes que apontam para três personagens: Freyja, Gullveig, e Svarthofdi (Svarthöfði).

Gullveig sendo atacada pelos Æsir. Arte de Lorenz Frølich.

 Freyja é apontada como praticante de tal magia, segundo a Ynglinga Saga, e ela teria ensinado para o próprio Odin (Óðinn) e aos Æsir após as guerras entre as duas tribos divinas.

"Dóttir Njarðar var Freyja, hon var blótgyðja, ok hon kendi fyrst með Ásum seið, sem Vönum var títt."

"A filha de Njord era Freyja, ela era sacerdotisa dos sacrifícios, e ela foi a primeira a ensinar seiðr entre os Æsir, que era costume no Vanir." (Trad. minha)

 Como vimos pela descrição, o seiðr era costume no Vanir e praticado e ensinado por Freyja. Isso a coloca como fundadora de tal prática.
 Gullveig também é apontada como praticante dessa arte, segundo a Völuspá, e teria sido maltratada entre os Æsir assim que chegou em Asgard (Ásgarðr). Não é claro o que ela fez, mas na sequência é citado a prática de seiðr onde ela visitava. Essa citação praticamente identifica as duas divindades (Gullveig e Freyja) como uma e a mesma. Porém, devemos ter cuidado aqui, porque nem tudo é o que parece! Gullveig poderia ser uma mensageira de Freyja, tal como Gná é a mensageira de Frigg. Os grandes deuses possuem mensageiros e criados: Thjalfi (Þjálfi) era criado de Thor (Þórr), Hermod (Hermóðr) era mensageiro de Odin, Skírnir era mensageiro de Freyr. Além disso, Gullveig foi rebatizada de "Heiðr", após ser queimada e espetada por lanças no salão de Odin. 

22.
"Heiði hana hétu
hvars til húsa kom,
völu velspáa,
vitti hon ganda;
seið hon, hvars hon kunni,
seið hon hug leikinn,
æ var hon angan
illrar brúðar."

22-"Heiðr a chamaram,
em qualquer casa que viesse
a esperta adivinha em profecia,
era sábia em mágica;
seiðr ela conhecia,
com seiðr ela brincava com mentes;
ela era sempre amada
pelas noivas malignas." (Trad. minha)

 Heiðr aparece como a filha do gigante Hrimnir (Hrímnir) e irmã de Hrossthjof (Hrossþjófr) na Völuspá in skamma:

4.
"Haki var Hveðnu
hóti beztr sona,
en Hveðnu var
Hjörvarðr faðir;
Heiðr ok Hrossþjófr
Hrímnis kindar."

04-"Haki era o maior
dos filhos de Hveðna,
mas Hjörvarðr era
o pai de Hveðna;
Heiðr e Hrossþjófr
eram descendentes de Hrímnir." (Trad. minha)

 Hrossthjof aparece como Rostiophus e/ou Rostiofus Phinnicus (cujo sobrenome transliterado do latim que significa "Finlandês, é do nórdico arcaico Finnr) na Gesta Danorum, que segundo Saxo Grammaticus era um profeta, e que ajudou Odin. "Hrossthjof" significa "Ladrão de Cavalo", o que sugere a captura desse animal por ele para práticas mágicas e divinatórias (os germânicos prestavam atenção no relinchar dos cavalos segundo Tácito). O cavalo era o animal sagrado de Odin e Freyr. O termo "Finnr" é sinônimo de "Sámi" (cujo povo é associado à magia nas sagas).
Ainda no poema Völuspá in skamma, na estrofe seguinte, encontramos o terceiro personagem da lista: Svarthofdi. Svarthofdi é citado como o pai dos praticantes de seiðr:
 
5.
"Eru völur allar
frá Viðolfi,
vitkar allir
frá Vilmeiði,
seiðberendr
frá Svarthöfða,
jötnar allir
frá Ymi komnir."

05-"Todas as Völur (Sibilas) são
descendentes de Viðólfr,
todos os Vitkar (Magos) são
da raça de Vilmeiði,
todos os Seiðberendr (Feiticeiros)
são descendentes de Svarthöfði,
todos os Jötnar (gigantes)
vieram de Ymir." (Trad. minha)

 O interessante é que "Svarthofdi" significa "Cabeça Negra", o que nos faz pensar no povo Sámi (da Lapônia), habitantes da Suécia, Noruega, Finlândia e partes da Rússia, que possui um histórico antigo de xamanismo. Essa conexão é evidente quando Odin é associado à Samsø no poema Lokasenna:

Loki kvað:
24.
"En þik síða kóðu
Sámseyu í,
ok draptu á vétt sem völur;
vitka líki
fórtu verþjóð yfir,
ok hugða ek þat args aðal."

Loki disse:
24-"Mas eles dizem que tu trabalhaste
magia seiðr na ilha Sámsey,
e tu batias em tambores como as Völur (Sibilas);
na forma de um Vitki (Mago)
tu viajaste entre os homens,
e eu creio que isso era de natureza argr (afeminado)." (Trad. minha)

 Samsø é uma ilha Dinamarquesa (que geralmente é aceito a identificação com Samsey), embora o nome desta mesma ilha é de etimologia incerta, isso nos faz pensar numa possível conexão entre Sámi e Samsø. A palavra "Sámi"  (de "sámr" do nórdico arcaico, veja abaixo) pode ter sido emprestada da palavra Proto-Báltico *žēmē, que significa "terra." Essa palavra é cognato com a Eslava "zemlja" que tem o mesmo significado. A deusa da terra da Lituânia, Žemyna, parece estar correlacionada, assim como a Zemes māte Letã. Conta-se que era costume sacrificar porcos negros (e outros animais da mesma cor) para a deusa, segundo o folclore. A terra e o solo nos faz lembrar da cor marrom, cor preta (solo fértil, mas também representando a morte, a sepultura). Os elfos negros (Svartálfar) são descritos negros como piche e viviam debaixo da terra.
 Odin e Skadi (Skaði) eram pais de Sæmingr, que embora de etimologia incerta, é interpretado como "(aquele do povo) Sámi". É possível que esteja relacionado com a palavra do nórdico arcaico "sámr", que significa "moreno" ou "preto", reforçando a ideia de alguém de cabelos pretos, distinto de alguém loiro, de origem Sámi. Isso corrobora com o significado de Svarthofdi, e parece conectar de algum modo com Sámi, Samsø e Sæmingr (moreno, com a cor preta dos cabelos dos Sámi, cor de terra). Então, é possível, que Svarthofdi fosse de origem Sámi assim como seus descendentes. A ilha Samsø poderia, talvez, ter praticantes de seiðr, já que em Uppsala na Suécia, os adoradores de Freyr praticavam ritos afeminados, e era costume oferecer vítimas de cor negra para o deus (Frøblot). Desse modo, podemos entender que Svarthofdi e seus descendentes eram adoradores (e/ou pertencentes ao clã) do Vanir. Tambores também eram usados por xamãs Sámi, comprovados pela arqueologia inclusive.
 Conclusão: Freyja foi a primeira a praticar seiðr, ela deve ter ensinado Gullveig/Heiðr, e Svarthofdi deve ter aprendido com a própria deusa ou até com Gullveig (que visitava as casas ensinando a magia). Porque seiðr é uma prática fortemente ligada as mulheres e ao feminino, embora homens pudessem aprender e praticar. Svarthofdi foi o primeiro ser masculino a praticar seiðr, por isso os praticantes são considerados os seus descendentes. A palavra "seiðberendr" significa "feiticeiros" como vimos, mas "berendr" vem de "bera", que significa "portar/trazer (o seiðr, a magia)", porém também significa "dar a luz", "dar nascimento", o que faz confirmar sua origem como feminina (falo da prática). Freyja era a deusa das mulheres, da fertilidade e do parto. O poema Oddrúnarkviða diz:

9.
"Svá hjalpi þér
hollar véttir,
Frigg ok Freyja
ok fleiri goð,
sem þú feldir mér
fár af höndum."

9."Assim te ajudem
os espíritos benevolentes,
Frigg e Freyja 
e muitos deuses,
que o perigo de mim tu
leve das mãos." (Trad. minha)

 Vale lembrar que "Heiðr" é um nome que aparece nas sagas associada a magia e bruxaria, mas é difícil saber se todas é a mesma personagem ou não. A Heiðr que foi até Asgard é uma figura divina. Os Vanir são associados aos gigantes por intermédio de Heiðr, filha do gigante Hrimnir. Do mesmo modo que os Æsir também eram por parte de Bestla, a mãe de Odin. Heiðr pode ter levado outro conhecimento aos Æsir como refinar ouro, e só depois levou o seiðr. Isso distingui ela de Freyja, porém as duas são associadas ao ouro. Mas, Gefjon, Frigg, Fulla e Sif também são associadas ao ouro. A genealogia de ambas também as distingui, uma é filha de Njord e a outra é filha de Hrimnir. A Völsunga Saga menciona que Hrimnir tinha uma filha chamada Hliod (Hljóð), e que ela era mensageira de Odin. Rerir queria um herdeiro e sua esposa orou aos deuses, Frigg ouviu as súplicas dela. A Frigg comentou com Odin que ordena Hliod levar uma maçã para Rerir e sua esposa. Eles comeram na elevação tumular. A filha de Hrimnir tomou a forma de um corvo e assim realizou a tarefa ordenada. Hrimnir é pai de três seres: Heiðr, Hrossthjof e Hliod, a primeira é associada à Freyja e os outros dois com Odin. E isso parece confirmar que Gullveig-Heiðr era uma mensageira de Freyja e não a própria deusa. Devo lembrar que Odin e Freyja dividem os mortos e ambos ordenam as Valquírias (Valkyrjur).
 Segundo o Gylfaginning, Freyja (e Freyr) nasceu depois da guerra Æsir-Vanir e isso é definitivo para separar Gullveig-Heiðr da filha de Njord. Porém, a Ynglinga Saga conta que Njord e seus filhos foram levados à Asgard depois da guerra e que já existiam. Mas, se eles foram levados depois, isso é decisivo para distinguir Freyja de Gullveig-Heiðr. Contudo, devemos levar em conta variações e versões diferentes do mito.
 Mas, ao que parece, pelas fontes, Freyja e Gullveig-Heiðr não são a mesma deusa, elas são distintas, são duas divindades diferentes. Basta ler e prestar atenção nas fontes antigas.


FONTES:
An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson
Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall 
Edda, Anthony Faulkes 
Gods and Myths of Northern Europe, Hilda Roderick Ellis Davidson 
Hyndluljóð e Völuspá inni skamma https://mega.nz/file/RbA0lSgR#1mc15kdmtPrUpAUweZMUcVQlx8cHPgIqVa631lwmu1Y, por Marcio A. Moreira
Myth and Religion of the North: The Religion of Ancient Scandinavia, E. O. G. Turville-Petre
Norse Mythology, a Guide to the Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, John Lindow
Saxo Grammaticus: The History of the Danes, Oliver Elton 
The Poetic Edda, Carolyne Larrington 
SITES CONSULTADOS:

domingo, 1 de fevereiro de 2026

O que causou a desavença entre Freyr e Surtr?

 É, nós sabemos que segundo as duas Eddas, Freyr e Surtr eram inimigos, porém não aprofunda na causa da desavença entre as duas divindades. Fotos de Internet.

 As fontes apenas mencionam que Freyr e Surtr serão adversários durante o Ragnarok, no final dos tempos. Nós possuímos informações que mostram a causa da inimizade entre Odin (Óðinn) e Fenrir e de Thor (Þórr) e Jormungand (Jörmungandr). Odin mandou prender Fenrir, enquanto Thor ficou sabendo da ameaça da serpente e quis destruir o monstro. Os deuses sabiam que essas crias de Loki eram ameaças que deveriam ser contidas.

Freyr by Johannes Gehrts.

 Eu suponho que a rixa entre Freyr e Surtr deve ter alguma coisa a ver com fronteiras ou proximidade. Por que digo isso? Eu digo isso usando as fontes analisando os detalhes: segundo o Grímnismál, os deuses deram à Freyr a região de Alfheim (Álfheimr) no início dos tempos, lar dos elfos da luz (Ljósálfar), depois da guerra Æsir-Vanir. O Gylfaginning afirma que os elfos da luz viviam no céu do sul.

Þá mælti Gangleri: "Hvat gætir þess staðar, þá er Surtalogi brennir himin ok jörð?"

   Hárr segir: "Svá er sagt, at annarr himinn sé suðr ok upp frá þessum himni, ok heitir sá Andlangr, en inn þriði himinn sé enn upp frá þeim, ok heitir sá Víðbláinn, ok á þeim himni hyggjum vér þenna stað vera. En Ljósálfar einir, hyggjum vér, at nú byggvi þá staði."

Então Gangleri disse: "O que protegerá esse lugar quando o fogo de Surtr tiver queimado o céu e a terra?"

 Hárr disse: "É dito que há outro céu ao sul acima desse céu (Himinn) e é chamado de Andlangr; e o terceiro céu se encontra acima desse um, que é chamado de Víðbláinn, e é nesse céu que nós acreditamos que esse lugar (Gimlé) está situado. Nós acreditamos que é habitado apenas por Ljósálfar." (Trad. minha)

 A Gísla saga conta que Freyr protegia a sepultura de um de seus adoradores (Thorgrim Freysgodi/Þorgrímr Freysgoði), afastando o gelo com a luz no lado sul.

"Varð og sá hlutur einn er nýnæmum þótti gegna að aldrei festi snæ utan og sunnan á haugi Þorgríms og eigi fraus; og gátu menn þess til að hann myndi Frey svo ávarður fyrir blótin að hann myndi eigi vilja að freri á milli þeirra."

E então, também, aconteceu algo que pareceu estranho e novo. Não havia neve acumulada no lado sul do túmulo de Thorgrim, nem ela congelou ali. E os homens supuseram que isso se devia ao fato de Thorgrim ter sido tão querido por Freyr, a ponto de o deus não permitir que a geada se interpusesse entre eles. (Trad. minha)

 Surtr é o senhor da terra do fogo, Muspelheim (Múspellsheimr), que fica situado no sul. Então, podemos supor que Surtr já regia a terra do fogo, mas ele provavelmente perdeu parte do território para Freyr (quando este recebeu Alfheim) e isso causou a inimizade entre eles. Os mundos são conectados por Yggdrasil (Yggdrasill) e imensos rios. Vale lembrar que Asgard (Ásgarðr) fazia fronteira com Vanaheim (Vanaheimr) e o mesmo deve ser entre Alfheim e Muspelheim. Isso provavelmente os colocou como oponentes no final dos tempos. Freyr representa a luz acolhedora e a fertilidade (vida), enquanto Surtr representa a fumaça enegrecida de fogo e esterilidade (suas chamas queimarão o mundo). Freyr possuía uma espada maravilhosa dotada de vontade própria, enquanto Surtr possui uma espada magnífica que brilha mais que o sol (a Sól). Os elfos súditos de Freyr são brilhantes e os subordinados de Surtr também. Freyr é um Vanr (membros dos Vanir) e Surtr é um gigante (Jötunn). Ambos possuem algumas características similares, porém são antagonistas. 

 

FONTES:

Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall 

Edda, Anthony Faulkes

Gods and Myths of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson 

O Livro de Ouro da Mitologia: Histórias de Deuses e Heróis, Thomas Bulfinch

Norse Mythology: A Guide to Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, John Lindow

Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson

SITES CONSULTADOS:

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i

https://www.snerpa.is/net/isl/gisl.htm

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

Qual é a arma divina mais poderosa?

 Como bem sabemos, o panteão nórdico consistia de muitos deuses e deusas guerreiros, com características bélicas. Muitas divindades possuíam itens preciosos e de grande poder. Fotos de Internet.

 Existem várias armas divinas na cosmovisão nórdica: a espada envenenada Tyrfingr, a espada mortal dotada de vontade própria que pertenceu a Freyr (não nomeada), os sapatos especiais de Vidar (Víðarr), a espada de Sigurd (Sigurðr), o cinturão da vitória de Hod (Höðr), a lança Gungnir, e muitas outras.

 Mas, o Skáldskaparmál nos informa que a arma mais eficaz e poderosa dos deuses era o martelo Mjolnir (Mjöllnir). O Mjolnir inclusive ficou na frente da Gungnir, esse veredito foi dado pelo trio supremo dos deuses: Odin (Óðinn), Thor (Þórr) e Freyr.

Vários tipos de pingentes do martelo do Thor. O martelo de Thor foi fabricado por anões ferreiros.

 As características do Mjolnir eram: nunca errar o alvo, sempre retornar a mão que o atirou, a arma podia ficar pequeno ou grande e ser colocado dentro da camisa de Thor, era inquebrável e nada podia lhe resistir a pancada, mas o cabo era pequeno. A força do golpe da arma dependia do desejo de Thor ("Þá gaf hann Þórr hamarinn ok sagði, at hann myndi mega ljósta svá stórt sem hann vildi, hvat sem fyrir væri, at eigi myndi hamarrinn bila, ok ef hann yrpi honum til, þá myndi hann aldri missa ok aldri fljúga svá langt, at eigi myndi hann sækja heim hönd, ok ef þat vildi, þá var hann svá lítill, at hafa mátti serk sér. En þat var lýi á, ar forskeftit var heldr skammt. Þat var dómr þeira, at hamarrinn var beztr af öllum gripunum ok mest vörn í fyrir hrímþursum"). Quanto mais furioso Thor ficava, mais forte era a pancada. Nos desafios de Utgard-Loki (Útgarðr-Loki), o Thor bateu três vezes numa montanha de Jotunheim (Jötunheimr) pensando ser um gigante, que abriram profundamente um vale. Lembre-se: tudo em Jotunheim é extremamente colossal, muito maior que coisas de Midgard (Miðgarðr). Para ter uma ideia, a luva do gigante que Thor pensou ter golpeado serviu de palácio pro filho de Odin, Loki, Thjálfi (Þjálfi) e Röskva passarem a noite. Esse gigante imenso projetou sua imagem na montanha onde Thor bateu. A fortaleza desse gigante era colossal também e muito maior. Depois que Thor soube que foi enganado, ele voltou para a fortaleza do gigante para destruí-la em pedaços, mas tudo havia sumido (Ok þá snýst hann aftr til borgarinnar ok ætlast þá fyrir at brjóta borgina. Þá sér hann þar völlu víða ok fagra, en enga borg.). O texto original da narração conta que Thor tinha poder pra tal feito e o gigante sabia disso e ocultou seu castelo com mágica, agora imagine o tamanho dessa fortaleza? Lembrando que a luva do gigante foi usada como palácio, o próprio gigante era colossal, então, imagine o tamanho do castelo dele? Talvez seja do tamanho de um planeta!

 Vale lembrar que Thor é criador de constelações como: Aurvandilstá ("Dedão de Aurvandill") e Þjaza Augu ("Olhos de Þjazi"). Fica subentendido que quem cria estrelas, pode destrui-las. Isso coloca Thor na categoria de um deus criador e destruidor.

 O poder de Thor é tal que ele faz mundos tremerem: isso é descrito no Lokasenna ("Fjöll öll skjalfa/Todas as montanhas tremem"), Þrymskvida ("björg brotnuðu, brann Jörð loga/as montanhas se partiam, as chamas chamuscavam a Terra") e Skáldskaparmál ("Knóttu öll (en Ullar endilóg fyr mági Grund vas grápi hrundin) ginnunga vé brinna, þás hofregin hafrar hógreiðar fram drógu (seðr gekk Svölnis ekkja sundr) at Hrungnis fundi/Todos os santuários dos falcões (os Céus) encontrava-se em chamas, por causa do padrasto de Ullr (Thor), a Terra era sacudida pela tempestade de granizo, o Ginnunga Vé (Santuário dos deuses, os Céus) queimava quando o Hofregin (Templo do Poder, que é Thor) dos bodes do dócil carro ia em direção ao encontro de Hrungnir; - a viúva (Jörð/Jörð) de Svölnir (Odin) praticamente partia em pedaços -"). Os Céus aqui são os 9 mundos (e/ou a abóbada celeste) porque Ginnunga é o local primordial onde a criação foi estabelecida e onde Yggdrasil mantém três raízes que liga o cosmo, a árvore sagrada que é cercada por rios sagrados.

 A descrição do Skáldskaparmál não deixa dúvida: Thor faz a Terra (sua mãe) tremer e até em certos pontos desmoronar, tamanho é o seu poder! A passagem do Thor pelo céu desta narração específica demonstra o quanto o deus é perigoso: seu passeio celestial faz os céus arderem e queimarem. O poema Grímnismál menciona que Thor anda a pé quando vai julgar até Yggdrasil (Yggdrasill), nadando através de rios, o que faz as águas ferverem, tal é o seu poder, o seu calor. Tal descrição é similar ao de Zeus/Júpiter quando está colérico no mito greco-romano. A demonstração é clara: Thor e Zeus/Júpiter tinham poder para ameaçar toda criação! Veja:

253. And now his thunder bolts would Jove wide scatter, but he feared the flames, unnumbered, sacred ether might ignite and burn the axle of the universe: and he remembered in the scroll of fate, there is a time appointed when the sea and earth and Heavens shall melt, and fire destroy the universe of mighty labour wrought. Such weapons by the skill of Cyclopes forged, for different punishment he laid aside - for straightway he preferred to overwhelm the mortal race beneath deep waves and storms from every raining sky. Metamorphoses, Ovid.

253. E agora seus raios, Júpiter, espalhariam-se por toda parte, mas ele temia que as chamas, incontáveis, do éter sagrado pudessem inflamar e queimar o eixo do universo: e ele se lembrou no pergaminho do destino, que há um tempo determinado em que o mar, a terra e os céus derreterão, e o fogo destruirá o universo de trabalho grandioso. Tais armas, forjadas pela habilidade dos Ciclopes, ele rejeitou para outro castigo – pois preferia imediatamente subjugar a raça mortal sob ondas profundas e tempestades de todos os céus chuvosos. (Tradução).

 No mito grego, Zeus/Júpiter recebeu o raio e o relâmpago dos Hecatonquiros depois de serem libertados do Tártaro pelo filho de Cronos, armas estas que estavam sepultados nos flancos da terra. No norte, os anões forjaram o martelo que foi dado a Thor, depois de Loki cortar os cabelos de Sif, que é uma deusa da terra (Sif aparece como outro nome de Jord na Edda de Snorri). 

 O martelo também podia aumentar de tamanho, algo que é perceptível durante a pesca de Thor. Quando Thor fisga e puxa a serpente do mar, ele cresce ficando gigante apoiando os pés no fundo do mar, ele levantou e atirou o martelo no monstro mesmo depois da linha ter sido cortada por Hymir. Então, o martelo estava ajustado ao seu tamanho gigante. Assim, a arma sagrada podia aumentar e diminuir de tamanho conforme a necessidade de Thor.

 "Mjolnir" é de significado incerto, mas é provável estar relacionado a palavra nórdica mala/mola que significa "esmagar/moer" ou talvez do sueco moln que significa "armando nuvem negras". Ambos significados são possíveis: o raio/relâmpago e o trovão era a arma mais devastadora e destruidora nas religiões antigas e faz sentido significar nuvem, pois é da onde nasce o raio. Outro possível significado associado é a palavra russa molnija que significa "relâmpago", que também faz sentido.


FONTES:

All the Mountains Shake Seismic and Volcanic Imagery in the Old Norse Literature of Þórr, Declan Taggart 

An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson

Edda, Anthony Faulkes

Gods And Myths Of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson

Mitologia Greco-romana vol. 1, René Ménard

Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson

The Poetic Edda, Carolyne Larrington

Thor's Hammer, Hilda Roderick Ellis Davidson 

SITES CONSULTADOS:

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i

http://heimskringla.no/wiki/Ynglinga_saga

https://www.theoi.com/Text/OvidMetamorphoses1.html#4

https://web.archive.org/web/20140714215920/http://kurs.lt/norse/skaitiniai/haustlong_apie_tora_ir_hrungnira.htm

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

O Fôlego/Espírito (Ǫnd/Önd) e a Vida (Líf)

 É amplamente conhecido que o trio criador: Odin, Vili e Ve (Óðinn, Vili e) criaram o primeiro casal humano. Fotos de Internet.

 O trio criador deu várias dádivas ao casal humano, mas esse post irá focar apenas nas dádivas de Odin. As outras dádivas dos outros deuses ficará para posts vindouros.

 Quando o trio criador recolheu os troncos de madeiras a beira mar, Odin deu o fôlego e/ou espírito e a vida para a dupla mortal recém criada (na Völuspáönd gaf Óðinn, no GylfaginningGaf inn fyrsti önd ok líf). A palavra nórdica "ϙnd/önd" (também "anda") significa tanto "fôlego" quanto "espírito". Tanto é que as traduções do inglês da Völuspá usam as duas possibilidades (explicarei logo a seguir). Essa palavra aparece em algumas runestones (pedras rúnicas) da era viking como "ont" (runas áss, nauðr e Týr) e "ant" (ár, nauðr e Týr). Lembrando que na era viking os escandinavos usavam as 16 runas do Jovem Futhark. Veja dois exemplos abaixo (embora haja outros):

Pedra rúnica U212 de Uppland. "Deus ajude seu espírito (ont)". Pedra rúnica com referência ao deus cristão usando runas.

Pedra rúnica U409, Uppland. "Deus ajude seu espírito (anta)". Outra pedra rúnica com alusão ao deus cristão.

 Outra coisa precisa ser explicada: o som da runa Áss passou de "a" para "o" com a mudança do Antigo Futhark para o Jovem Futhark, o som da runa Jera passou de "j" para "a" e foi batizada de Ár ("ano"). A runa Dagaz (23 na fila rúnica) foi tirada do Jovem Futhark e o som de "d" passou a ser usado por "t" de Týr. A runa Ansuz (Áss) representava os deuses no Antigo Futhark e no Jovem Futhark a runa Ár passou a representá-los. Um antigo manuscrito associa a runa Ár com os deuses confirmando essa conexão. A runa Dagaz significa "dia" (luz) e Týr significa "deus", mas que indica originalmente "brilho ou luz celeste". Desse modo, as substituições eram mais ou menos equivalentes.

 O ato de respirar (fôlego) é o que anima o corpo, portanto respirar está intimamente ligado ao espírito, pois é o espírito que anima o corpo. Por isso, essa dádiva de Odin é traduzida de ambas as formas. Sem fôlego não há vida, sem espírito não há vida.

 O significado rúnico de "ϙnd/önd" é basicamente isso: sopro (Áss) divino (Týr) necessário (Nauðr). Ou seja: o sopro divino é restrito até certo tempo no corpo físico, quando se esvai a vida chega ao fim.

 O ϙnd/önd é intimamente ligado à Óðinn no período pagão (evidenciado pela Völuspá), e após a cristianização da Escandinávia, a palavra passou a ser usada associada ao deus cristão (com o tempo, ϙnd/önd foi sendo substituído por sál ou "alma", talvez pra se afastar da sombra pagã). O interessante é a ideia do espírito estar associada a luz (via runa Týr, algo também visível em sál via Sól).

 A outra dádiva de Odin ao casal humano foi a vida (líf na língua nórdica). O fluxo individual da vida é representado por Lϙgr, Íss e (Laguz, Isa e Fehu). De certa forma, isso confirma a associação da criação humana a beira mar (via Lϙgr, o mar, e Íss que representa um indivíduo).

 Com isso podemos entender que o fluxo individual da vida (líf) precisa do sopro divino necessário (ϙnd/önd) para se sustentar.

FONTES:

An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson

Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall

Edda, Anthony Faulkes

Os Deuses Nórdicos são Imortais?, Marcio Alessandro Moreira, link: https://mega.nz/file/NfpilZiL#UBctotG_nrZdTbQ85TrmKQF0gAUMag0jsWdSrFux3Ks

The Poetic Edda, Carolyne Larrington 

SITES CONSULTADOS:

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i

sábado, 29 de novembro de 2025

A substância criadora "eitr"

 Na cosmogonia nórdica, a substância "eitr" ("veneno") desencadeia um papel importante na criação: o nascimento de Ymir, o primeiro ser vivo. Essa substância correu dos rios gelados de Élivágar, do mundo do frio, até o Ginnungagap onde acumulou camadas de gelo até ser derretido pelo calor do mundo de fogo. Fotos de Internet.

A vaca Auðhumbla libertando Buri (Búri) do gelo.

 Na Edda em Prosa, a substância é descrita como: kvikudropar (gotas correntes de fluido). Isso é dito no Gylfaginning:

Þá mælti Hárr: "Ár þær, er kallaðar eru Élivágar, þá er þær váru svá langt komnar frá uppsprettum, at eitrkvika sú, er þar fylgði, harðnaði svá sem sindr þat, er renn ór eldinum, þá varð þat íss. Ok þá er sá íss gaf staðar ok rann eigi, þá hélði yfir þannig, en úr þat, er af stóð eitrinu, fraus at hrími, ok jók hrímit hvert yfir annat allt í Ginnungagap."

Þá mælti Þriði: "Svá sem kalt stóð af Niflheimi ok allir hlutir grimmir, svá var allt þat, er vissi námunda Múspelli, heitt ok ljóst, en Ginnungagap var svá hlætt sem loft vindlaust. Ok þá er mættist hrímin ok blær hitans, svá at bráðnaði ok draup, ok af þeim kvikudropum kviknaði með krafti þess, er til sendi hitann, ok varð manns líkandi, ok var sá nefndr Ymir, en hrímþursar kalla hann Aurgelmi, ok eru þaðan komnar ættir hrímþursa..."


Hárr disse: "Quando esses rios que são chamados Élivágar vieram de tão distante de suas fontes, fermentados venenos os acompanhou endurecendo como escória quando corre do fogo, e se transformou em gelo. E então quando esse gelo se formou e se solidificou uma chuva que surgiu do veneno, verteu em cima disso e esfriou a geada, e uma camada de gelo se formou sobre outras através do Ginnungagap."

Então Þriði disse: "Da mesma maneira que o frio e todas as coisas terríveis emanam de Niflheimr, então tudo na vizinhança de Múspell eram quente e brilhante, que o Ginnungagap estava tão moderado como ar sem vento. E então quando o sopro de calor se encontrou com o gelo, de repente descongelou e pingou, pelo poder daquele que envia o calor, a vida apareceu em gotas correntes de fluido e cresceu na semelhança de um homem; que teve o nome de Ymir, mas os Hrímþursar o chamam de Aurgelmir, e é de onde a família dos Hrímþursar surgiu." (trad. minha)

 O poema Vafþrúðnismál corrobora essa ideia: o gigante Vafþrúðnir mencionou que os gigantes nasceram das gotas de veneno (eitrdropar) de Élivágar e por isso são terríveis.

"Ór Élivágum

stukku eitrdropar,

svá óx, unz varð jötunn;

þar eru órar ættir

komnar allar saman;

því er þat æ allt til atalt."


 "De Élivágar

saltaram gotas de veneno,

e aumentou até que um Jötunn nasceu;

de lá toda nossa tribo

veio a existir,

por isso todos são sempre terríveis." (trad. minha)

 A palavra "eitr" parece significar "liquido corporal" ou "pus" além de "veneno" noutras línguas com cognato germânico (Anglo-saxão âtor, Alto-Alemão Antigo eitar, Dinamarquês ædder, Elfdaliano Sueco "ietter" e no antigo dialeto do Reino Unido "atter"). Na literatura, essa substância é associado a um tipo de liquido divino: tal como o sopro de um dragão. Mas também significa bebida forte ou amarga, tal como vinagre (fermentado), novamente corroborando a ideia de Snorri e sua interpretação de kvikudropar (gotas correntes [fermentadas] de fluido). No Fáfnismál nós podemos ler:

"En er Fáfnir skreið af gullinu, blés hann eitri, ok hraut þat fyrir ofan höfuð Sigurði."

"E quando Fáfnir se afastou do ouro, ele soprou veneno e este caiu na cabeça de Sigurd." (trad. minha)

 No Jovem Fuþark runicamente temos "ár (bom tempo, plenitude), íss (gelo), Týr (deus) e reiðr (cavalgar, movimentar)" que significa: "plenitude de gelo divino em movimento". Ou seja, o poder criativo e gerador estava presente nas águas geladas do caldeirão primitivo de Élivágar. A substância está ligada diretamente ao gelo e talvez ao sal, já que o significado de "veneno" nos faz lembrar de algo que queima, arde ou ferve. Curiosamente o anão que forjou as armas divinas dos deuses Odin (Óðinn) Thor (Þórr) e Freyr se chamava Eitri ("Venenoso", mas também Sindri). Desse modo, o anão com grande poder criador/forjador tinha o mesmo nome que a substância criadora. Só pra esclarecer: na era viking o Antigo Fuþark (de 24 caracteres) já tinha sido substituído pelo Jovem Fuþark (de 16 caracteres) por causa da evolução linguística. A runa ár representava o som de "a" e de "e". Podemos sugerir que a substância era tanto criativa quanto destrutiva.

 Então, porque os gigantes e os deuses, que tinham origem similar, eram diferentes? Ymir nasceu diretamente dessa substância venenosa (eitr) que é descrita como escória (tipo as sobras de metal na forja), enquanto Buri foi libertado por Auðhumbla que lambeu o sal das pedras de gelo (Hon sleikði hrímsteinana, er saltir váru).

 Com isso, podemos entender que mesmo com origem similar (ter origem no gelo), Buri nasceu de um gelo limpo (lambido pela vaca divina) e puro; enquanto Ymir (e Auðhumbla?) nasceu de um gelo sujo e impuro (da substância eitri, mas talvez também por causa da fuligem soprada de Muspell que caia no Ginnungagap).

 Tácito mencionou que o sal era muito importante para duas tribos germânicas que inclusive se enfrentaram para tomar posse de um rio que continha o mineral, que fazia divisa de suas terras e era considerado sagrado e perto do céu. Onde as orações eram melhor atendidas pelas divindades. As tribos em questão eram os Chatti (Catos) e os Hermunduri (Hermonduros) que tinham invocado Mercúrio (Odin) e Marte (Tyr). Os Hermunduri saíram vencedores do conflito. O interessante é que o sal era importante desde os tempos primitivos germânicos até a era viking segundo sua cosmovisão. Veja o trecho:

"No mesmo verão, uma grande batalha foi travada entre os Hermunduri e os Chatti, ambos reivindicando à força um rio que produzia sal em abundância e delimitava seus territórios. Eles não tinham apenas uma paixão por resolver todas as questões pelas armas, mas também uma superstição profundamente enraizada de que tais localidades são especialmente próximas do céu e que as preces mortais não são ouvidas com mais atenção pelos deuses. É, eles pensam, pela generosidade do poder divino, que naquele rio e naquelas florestas o sal é produzido, não, como em outros países, pela secagem de um transbordamento do mar, mas pela combinação de dois elementos opostos, fogo e água, quando este último foi derramado sobre uma pilha de madeira em chamas. A guerra foi um sucesso para os Hermunduri e mais desastrosa para os Chatti porque eles haviam devotado, em caso de vitória, o exército inimigo a Marte e Mercúrio, um voto que consigna cavalos, homens, tudo de fato do lado vencido à destruição." (trad. minha)

 Na Noruega e na Islândia, o sal era obtido principalmente pela queima de algas marinhas. O sal era importante em muitas tradições religiosas do mundo antigo. A descrição de Tácito lembra muito a narração da criação de Snorri.

FONTES:

An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson

Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall

Edda, Anthony Faulkes

Etymological Dictionary of Proto-Germanic, Guus Kroonen

The Annals, Tacitus trad. de Alfred John Church e William Jackson Brodribb

The Poetic Edda, Carolyne Larrington

SITES CONSULTADOS:

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar (especialmente: https://heimskringla.no/wiki/Gylfaginning)

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i (especialmente: https://heimskringla.no/wiki/Vaf%C3%BEr%C3%BA%C3%B0nism%C3%A1l e https://heimskringla.no/wiki/F%C3%A1fnism%C3%A1l)

https://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus:text:1999.02.0078:book=13:chapter=57&highlight=hermunduri

https://super.abril.com.br/mundo-estranho/por-que-as-vacas-lambem-sal

https://www.tastesofhistory.co.uk/post/a-brief-history-of-foods-salt

https://web.archive.org/web/20140314070618/http://www.cargill.com/salt/about/historyofsalt/religion/     

quinta-feira, 16 de outubro de 2025

Quem foi o primeiro ser a existir? Surtr ou Ymir?

 Olá pessoal, este post será dedicado exclusivamente à Surtr e Ymir. Muito é conhecido da criação da cosmovisão Nórdica, porém, poucos se atentam para algo que é, as vezes, mal interpretado. Afinal, quem veio primeiro? Surtr ou Ymir? Fotos de Internet.
 Vamos por partes: Surtr é o gigante de fogo guardião de Muspelheim (Múspellsheimr) e Ymir é o gigante de gelo. Segundo as fontes que possuímos, o mundo de fogo, Muspelheim, surgiu primeiro e depois surgiu o mundo de gelo, Niflheim (Niflheimr). O mundo de fogo ficava ao sul e o de gelo ao norte.
 Quando Snorri descreveu a criação, ele citou o mundo de fogo como surgido primeiro e, então, ele descreveu o seu guardião, Surtr, com sua espada flamejante. Depois, continuando a narrativa, ele descreveu o surgimento de Ymir.

Ymir, Buri e Audhumbla.

 Mas, o que as fontes falam sobre isso? Vamos ver:
 No Gylfaginning, Gangleri (Gylfi disfarçado) perguntou ao trio Hár, Jafnhár e Thridi (Hárr, Jafnhárr ok Þriði) em Asgard quem era o ser mais velho e eles responderam que era o Alföðr (Odin, Sá heitir Alföðr at váru máli. En í Ásgarði hefir hann tólfi nöfn: Alföðr, Herjann, Nikaðr, Nikuðr, Fjölnir, Óski, Ómi, Riflindi, Sviðurr, Sviðrir, Viðrir, Sálkr). Mas isso tem explicação: depois da morte de Ymir e o dilúvio causado por seu sangue que matou todos os gigantes (exceto Bergelmir e sua esposa), Odin se tornou o ser mais antigo existente (vivo). Odin é o primeiro filho de Borr e Bestla.
 No questionamento de Gangleri, o trio também informou que Ymir é o primeiro ser vivente.
 Nos poemas da Edda Poética, Ymir também é descrito como primeiro ser.
 Na genealogia Norueguesa, Fornjótr aparece como mais antigo ser e seu nome parece significar algo como "Primeiro Gigante", e dele surgiu os clãs dos gigantes marinhos, gigantes das montanhas e gigantes do fogo. Nesta versão, os personagens são evemerizados, ou seja, transformados em seres humanos que foram divinizados. Note que aqui Fornjót é pai dos 3 clãs de gigantes elementais.
 No 1° século da nossa era, Tácito mencionou que os germanos contavam que eram descendentes do deus Tuisto, filho da terra. Tuisto significa algo como "Duplo" ou "Gêmeo" que bate diretamente com o significado de Ymir. Tuisto foi ancestral de 3 seres e Ymir também (um casal saídos do braço esquerdo e um filho monstruoso das pernas). Nas fontes nórdicas, Fornjótr é pai de Hlér ou Ægir, e nos kenningar (metáforas) o oceano, que é Ægir, é chamado de "sangue de Ymir" indicando descendência, o que reforça essa identificação. Alguns estudiosos até aceitam essa identificação (Tuisto/Ymir), embora não seja unânime.
 Então aqui temos 4 fontes de períodos diferentes que colocam Ymir como o ser primordial, o primeiro a surgir (Gylfaginning da Edda em Prosa, Vafþrúðnismál da Edda Poética, Hversu Noregr byggðist, e Germania de Tácito).
 Então, por que Surtr é visto como anterior a Ymir por muitos, inclusive alguns acadêmicos? A resposta pode ser simples: interpretação. Quando Snorri narrava sobre o primeiro mundo de fogo e comentou sobre Surtr, as pessoas entendem que ele deve ter vindo primeiro, ignorando todo o resto. Snorri fez isso apenas pra mencionar o gigante de fogo numa mesma estrofe ao invés de ter que fazer outra, já que ele falava do mundo de fogo. Sacou? 
 Surtr provavelmente é uma figura nativa da religião Escandinava, mas sua imagem lembra muito o anjo com espada de fogo guardião do paraíso da Bíblia (algo já percebido e mencionado por pesquisadores da área). A religião cristã veio do Sul até o Norte e Surtr é relacionado a essa direção. Surtr significa "Negro" de fuligem de fogo e/ou vulcão, porém pode ser uma referência a pessoa de pele escura, o que torna tudo mais misterioso e suspeito. E não acaba por aí, no manuscrito da Edda de Uppsala (um dos 4 manuscritos mais antigos e conhecidos), Surtr é dito estar no palácio Gimlé após o Ragnarok recebendo os justos (Bezt er at vera á Gimlé meðr Surti, ok gott er til drykkjar í Brimlé eða þar sem heitir Sindri. Þar byggja góðir menn). O problema é que no início do Gylfaginning é dito que o Alföðr (Odin) viverá com os justos no Gimlé (Þó allir búa með honum réttsiðaðir þar sem heitir Gimlé). Um escaldo que foi convertido ao cristianismo mencionou que Jesus estará na fonte de Urd (Urðr, após o Ragnarök) que fica no sul, que é a localização de Muspelheim. Será que Surtr é a representação cristã de um anjo ou de Jesus inserido nos mitos com roupagem nórdica? Pessoas do oriente médio possuem pele escura. Surtr é inimigo especialmente de Freyr (cujo nome significa "Senhor") e isso lembra o YHWH de Israel e sua luta contra Baal (que também significa "Senhor") no antigo testamento. Freyr é o mais pacífico dos deuses, gentil, sábio, e querido pelos deuses e homens (mencionado no Lokasenna). A luta de Freyr e Surtr pode simbolizar a luz versus as trevas.

Surtr por John Charles Dollman (1909).

 É claro que isso pode ser uma grande coincidência, mas é interessante. Surtr é inimigo de Freyr e dos deuses, e segundo as Eddas, ele trará o fogo consumidor de mundos, porém no poema Þrymlur (século 15), o gigante de fogo é morto por Thor durante a recuperação do martelo roubado por Thrym (Þrymr). O poema Bergbúa Þáttr também parece confirmar a inimizade entre Thor e Surtr. Vale lembrar que na Edda em Prosa é dito que Thor é o mais poderoso dos seres, não importa quanto um gigante seja poderoso, o deus do trovão sempre irá prevalecer (En þótt svá hafi verit, at nökkurr hlutr hafi svá verit rammr eða sterkr, at Þórr hafi eigi sigr fengit á unnit, þá er eigi skylt at segja frá, fyrir því at mörg dæmi eru til þess ok því eru allir skyldir at trúa, at Þórr er máttkastr).
 Com base (apoiado nas fontes) é seguro dizer que Ymir é o primeiro dos seres, e que Surtr provavelmente descende de Logi/Eldr (o Fogo) ou surgiu de outra forma depois de Ymir.


FONTES:
An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson

Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall

Edda, Anthony Faulkes

Myth and Religion of the North: The Religion of Ancient Scandinavia, E. O. G. Turville-Petre

Norse Mythology, a Guide to the Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, John Lindow

Saxo Grammaticus: The History of the Danes, Oliver Elton 

Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson
 
The Poetic Edda, Carolyne Larrington

SITES CONSULTADOS:




segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Thor era representado como personificação do céu?

 Thor (Þórr), o filho primogênito de Odin (Óðinn) e Jord (Jörð), é muito conhecido pelas pessoas por ser o deus da força e do raio. Fotos de Internet.

 Segundo o Gylfaginning de Snorri, o Thor nasceu forte e poderoso e por isso vencia todas as criaturas. Thor é explicitamente a personificação do poder e da força.

 Mas, quando analisamos as fontes antigas mais atentamente, nós podemos ver que o deus é a própria personificação do céu para os antigos escandinavos.

 E como cheguei nessa conclusão? Simples! Eu segui as metáforas nórdicas (kenningar). A barba ruiva de Thor foi associada as nuvens de tempestades por Hilda R. E. Davidson. Eu não discordo dessa grande autora e acadêmica, porém os sprites (duendes) vermelhos vistos durante as tormentas podem estar relacionadas também, pois lembram fios eriçados tal como nas descrições dos cabelos de Thor no Þrymskviða.

Thor em sua carruagem manejando o Mjöllnir.

Foto tirada de sprites, fonte da imagem: https://earthsky.org/earth/definition-what-are-lightning-sprites/. Note a semelhança disso com uma barba espessa e eriçada.   

 O poema Húsdrápa associou os olhos brilhantes de Thor (innmáni ennis ou "lua interior da sobrancelha") com a Lua (Máni). Thor também é conhecido por ter criado as constelações "Olhos de Thiazi (Þjaza Augu)" e "Dedão de Aurvandill (Aurvandilstá)". Na idade média, nas ilustrações, Thor era representado com 12 estrelas na cabeça. 

 No Þórsdrápa, compilado no Skáldskaparmál, quando Thor vai ao encontro de Geirrod (Geirröðr), as duas filhas do gigante levantaram a cadeira onde o deus se sentou tentando fazê-lo se chocar com o teto da residência, mas o filho de Odin conseguiu impedir a ação, a cabeça de Thor é referenciada como o Céu e seus olhos novamente associados a Lua (hám himni loga brátungls). O combate entre eles parece ser uma referência entre o poder celeste e o poder ctônico.

 O duelo entre Thor e Hrungnir também parece indicar um "embate celestial". Thor seria a representação do céu e do raio que esmigalha as altas montanhas representados por Hrungnir e seu aliado Mökkurkálfi. Thjalfi (Þjálfi) seria o vento. A ideia de lascas de pedra na cabeça de Thor parece indicar que era como os meteoritos eram entendidos pelos escandinavos. Eles caiam do céu e ardiam, e o povo talvez acreditassem que havia ocorrido uma batalha entre Thor e os gigantes. O martelo era a representação do relâmpago que saia das nuvens. Raios também saiam dos olhos do deus.

 É comum na poesia dos escaldos ver partes do corpo humano e divino ser relacionados com a natureza, porém isso é muito importante porque liga esse entendimento a cosmovisão pagã, a natureza e a maioria dos deuses foram feitos das partes do cadáver de Ymir pelo trio divino criador. Então, é natural entender dessa forma, fazer essa associação através de metáforas. Vale lembrar que o cérebro de Ymir foi transformado em nuvens e o seu crânio no céu pelos deuses, mas isso não desqualifica a associação de Thor com esses elementos. Thor é o regente deles.

 Então, com esses exemplos metafóricos, podemos entender que Thor era visto como a personificação da abóbada celeste, seus cabelos eram as nuvens avermelhadas de tempestades (ou sprites), sua cabeça o céu e seus olhos a Lua. Essa imagem simbólica parece ser melhor compreendida quando enxergamos Thor como protetor dos deuses e homens e ele seria a "barreira" contra os gigantes que vivem do lado de fora. Vale lembrar que na cosmovisão nórdica, haviam 9 céus uns por cima dos outros (os céus dos 9 mundos). Thor (o ar, atmosfera) era filho de Odin (Céu primordial) e de Jord (a Terra). Com o nascimento de Thor, Odin foi distanciado de Jord, e assim o filho herdou os domínios do pai. As viagens constantes de Thor para o leste (para destruir Trolls) e para o oeste (retorno para o seu lar) lembra o movimento do Sol pelo céu. Algumas fontes indicam que Asgard (Ásgarðr) ficava no oeste.

 Odin, Thor e Týr (Týr) são a trindade celeste, o primeiro representa o céu noturno/primordial, o segundo representa o céu tempestuoso e o terceiro representa o céu luminoso, diurno.

 O Zeus dos gregos era visto de forma parecida na antiguidade, nos hinos órficos, Zeus era o céu. O Sol (Hélios) era chamado de "Olho de Zeus". Thor foi identificado com o romano Júpiter, o equivalente do Zeus, em alguns manuscritos antigos. A quinta feira é a prova disso, pois é o dia sagrado desses três deuses.


FONTES:

As Similaridades Entre Þórr, Perkunas, Zeus, Júpiter, Indra e Héracles, Marcio Alessandro Moreira

Edda, Anthony Faulkes

Myths and Symbols in Pagan Europe Early Scandinavian and Celtic Religions, Hilda Roderick Ellis Davidson

Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson 

Teutonic Mythology Vol. 1, Jacob Grimm

The Poetic Edda, Carolyne Larrington 

SITES CONSULTADOS:

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i

quinta-feira, 20 de março de 2025

Lytir, o deus do vagão

 Lytir (Lýtir no nórdico arcaico) é uma divindade mencionada no Hauks Þáttr Hábrókar do Flateyjarbók, porém quase nada sobre ele é conhecido. A pequena descrição sobre ele sugere uma conexão com o Vanir, porém é apenas especulação. Fotos de Internet.

 Segundo a passagem no texto, o deus foi levado numa carruagem até o rei sueco para ser consultado, tal como numa procissão. A carruagem primeiro foi levada a um local sagrado onde o deus entrou, antes de seguir viagem ao reino. Esta descrição lembra muito a da Nerthus (mencionada em Germania por Tácito) e Freyr (mencionado no Ögmundar Þáttr Dytts).

 A Nerthus era levada num carro puxado por bois até o povo porque costumava intervir nos casos humanos, seu carro ficava numa ilha num bosque consagrado e coberto por um véu. Os sacerdotes pressentiam a presença da deusa antes de transportá-la numa procissão.  

 A estátua de Freyr era levada numa carruagem por uma jovem sacerdotisa para ser consultado na Suécia, sua imagem estava viva (Freyr væri lifandi) e falava com o povo. A passagem menciona roupas colocadas na estátua do deus. A ótica cristã do redator da saga descreve a cena como o demônio animando a estátua de Freyr (obviamente pervertendo o simbolismo pagão). Talvez, esse rito era pra celebrar a fertilidade da Terra simbolizado pela união do deus com a sacerdotisa.

 O nome "Lytir" pode estar associado a palavra nórdica antiga "hlutr" significando "sorte" (de cerimonial de tirar a sorte), "quinhão/porção" ou "adivinhar" e com "lýta" (e litr "colorido") que significa "mancha[do]". A velha palavra nórdica "liðr" significa "membro viril/pênis" e também pode estar relacionada. É mais comum Lytir ser identificado com Freyr por causa do seu possível significado de "sorte" algo que é relacionado com o Vanir. Mas, também já foi sugerido que Lytir poderia ser uma variação de Lodur (Lóðurr), um dos três deuses criadores, o que parece bastante improvável, embora o mesmo viajava pelo mundo com Odin (Óðinn) e Hœnir como um trio. Lodur é identificado com Loki em alguns manuscritos, e como o último não é uma divindade benfazeja isso fala contra esta identificação. Contudo, se o nome significar "pênis", isso corrobora com a identificação à Freyr cuja representação era um largo falo segundo o relato de Adam de Bremen (a imagem de Rällinge parece confirmar tal ideia), e ritos com teor sexual são mencionados também por Saxo no templo do deus na Suécia.

 Outra coisa fala em favor dessa identificação: segundo Saxo, as vitimas sacrificadas para Freyr eram negras (furvis hostiis), enquanto o significado de "manchado" pode indicar que a imagem do deus era pintada ou regada a sangue que quando seco ficava escurecida.

FONTES:

A Latin-English Dictionary, William Smith

A Germania, Maria Cecília Albernaz Lins Silva de Andrade

Adam de Bremen - History of the Archbishops of Hamburg-Bremen, Francis J. Tschan

An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson

Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall

Gods and Myths of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson

Lokrur, Lóðurr and Late Evidence, Haukur Þorgeirsson

Saxo Grammaticus vol I & II - Gesta Danorum/The History of the Danes, Peter Fisher

Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson

SITES CONSULTADOS:

https://heimskringla.no/wiki/%C3%96gmundar_%C3%BE%C3%A1ttr_dytts_ok_Gunnars_helmings

quarta-feira, 28 de agosto de 2024

A origem da Yggdrasill

 Este post será dedicado a árvore cósmica Yggdrasill, o centro da cosmologia nórdica. Apesar de grande importância dentro do paganismo nórdico, sua origem é envolto em mistério. Foto de Internet.

 Porém, examinando as fontes primárias que temos (as duas Eddur), podemos enxergar nas entrelinhas.

Descrição de Yggdrasill do manuscrito AM 738 4to.

 A Völuspá conta que a árvore é eterna, enquanto o Grímnismál menciona animais abaixo e acima dela, o Snorri relatou que era nela que os deuses se reuniam com as Nornas (Nornir) para julgarem assuntos divinos diários.

 Mesmo ela sendo descrita como eterna, suas raízes denunciam que ela teve um início, uma origem. A Yggdrasill possui três raízes: uma na terra dos mortos, uma na terra dos gigantes e a outra na terra dos homens ou deuses (dependendo da fonte).

 A raiz da fonte da terra dos mortos, Niflheimr, era chamada Hvergelmir, onde o dragão Nidhogg roia a raiz.

 A raiz da fonte dos gigantes, Mimisbrunnr, era guardada por Mimir, aqui ficava escondida toda a sabedoria e entendimento.

 A outra raiz não é tão clara, pois numa fonte é dito ficar no mundo dos homens e outra diz estar na terra dos deuses. E outra parece indicar que ela ficava no sul (o que a coloca na direção de Muspelheimr).

 Pra entendermos como Yggdrasill pode ter surgido devemos recorrer as fontes. No início nada havia, apenas o mundo de fogo no sul (Muspelheimr) e o mundo de gelo no norte (Niflheimr), do encontro entre as duas regiões, no meio, ficava Ginnungagap. E Ginnungagap ficava ao leste, onde posteriormente seria a terra dos gigantes. Ymir surgiu do degelo do encontro do norte e sul, assim como Audhumbla que libertou Buri do gelo. Da união dos descendentes de Ymir e Buri surgiram os deuses. Os deuses mataram Ymir e jogaram seu corpo no Ginnungagap. O mundo é criado a partir daí, a terra é feito da carne de Ymir, as nuvens de seu cérebro, o mar de seu sangue, as montanhas dos ossos e as árvores de seus cabelos. Os homens foram criados de árvores a beira mar. Note aqui que a humanidade provavelmente tem origem dos ramos de Yggdrasill. A humanidade é como galhos da árvore cósmica. O poema Grímnismál menciona que Odin é o maior dos æsir e Yggdrasill das árvores, e Odin é o mais velho dos deuses e o mesmo deve se aplicar a Yggdrasill (como a mais antiga das árvores).

 Então, se as árvores vieram dos cabelos de Ymir, provavelmente esta foi a origem da árvore cósmica, pois como é dito na Völuspá não havia grama ou vegetação em lugar nenhum antes da criação, depois, no poema, é narrado que assim que a humanidade foi criada de árvores a beira mar as Nornes surgiram (estas poderosas entidades cuidavam de Yggdrasill e riscava os destinos em chapas de madeira). Desse modo, a humanidade pode ter sido criada dos ramos de Yggdrasill pelo trio criador. Isso explicaria a conexão da raça humana com as árvores e adoração das mesmas. Assim, todos os seres humanos estão ligados e possuem uma conexão, cada ser humano é uma "folha" de Yggdrasill. 

 Para maior entendimento leiam aqui: https://osegredodasrunas.blogspot.com/2023/04/o-parentesco-entre-os-seres-na-criacao.html


FONTES:

Edda, Anthony Faulkes

Gods and Myths of Northern Europe, Hilda R. E. Davidson

Myth and Religion of the North: The Religion of Ancient Scandinavia, E. O. G. Turville-Petre

Myths and Symbols in Pagan Europe: Early Scandinavian and Celtic Religions, Hilda R. E. Davidson

Saxo Grammaticus Gesta Danorum: The History of the Danes Volume I, trad. Peter Fisher

Scandinavian Mythology, Hilda R. E. Davidson

The Poetic Edda, Carolyne Larrington 

SITES CONSULTADOS:

https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar

https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i

Os Nove Mundos da cosmovisão nórdica

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