Buri (Búri) é o primeiro deus surgido depois de Ymir e a vaca Audhumbla (Auðhumbla). Mitos sobre Búri, infelizmente, não chegaram até nós, exceto por sua origem. Fotos de Internet.
Os quatro textos mais importantes da Edda em Prosa são conhecidos como Codex Regius/Konungsbók ou Livro do Rei (GkS 2367 4to), o Codex Upsaliensis ou Edda de Uppsala, o Codex Wormianus (AM 242 fol), e o Codex Trajectinus ou Trektarbók (MSS 1374). Cada versão possui diferenças e nenhum deles está completo.
Os três mais antigos são: o Codex Upsaliensis, o Codex Regius, e o Codex Wormianus (os três são datados do século 14 e com o Regius e Upsaliensis sendo considerados os mais antigos). O Codex Trajectinus é o mais recente, sendo datado do século 16, porém a obra é considerado uma cópia de um manuscrito do século 13.
O mais intrigante de tudo é o surgimento de Buri no Codex Trajectinus, pois é diferente dos outros três. O que abre outras possibilidades. Primeiro vamos ver as três versões comparadas (obs: o Codex Regius será referido como "R", o Codex Upsaliensis como "U", e o Codex Wormianus como "W") do Gylfaginning 6. Recapitulando: assim que a vaca Audhumbla surgiu, ela se alimentou do sal das pedras de gelo:
"Ok hinn fyrsta er hon sleikti steina, kom ór steininum at qveldi mannz har, annan dag mannz havfvd, þriþia dag var þar allr maðr: sa er nefndr Bvri (E no primeiro que ela lambeu as pedras, surgiram das pedras no entardecer os cabelos de um homem, no segundo dia a cabeça de um homem, no terceiro dia ali estava um homem por inteiro: que se chamava Buri)." R.
"Ok enn fyrsta dag er hon sleikti kom or manz hár annan dag havfvd enn þriþia allr maþr er Bvri het (E no primeiro dia que ela lambeu surgiram os cabelos de um homem, no segundo dia a cabeça, mas no terceiro [dia] um homem inteiro que se chamava Buri)." U.
"Ok hinn fyrsta dagh er hon sleiktí steinana. kom or steinínum at kuelldi mannz háár. Annan dag mannz hofut. þriðia dag uar þat allr maðr sa er nefndr Buri (E no primeiro dia que ela lambeu as pedras, surgiram os cabelos de um homem nas pedras ao entardecer. No segundo dia a cabeça de um homem. No terceiro dia estava um homem inteiro que era chamado Buri)." W.
Já o Codex Trajectinus (que será referido como "T") temos:
"Ok inn fyrsta steinanna er hun sleikdi kom or steininom at quelldi manshár. Annann dag mans hofut. þridia dagur var þat allr madr sa er nefndr Buri (E na primeira pedra que ela lambeu, surgiram das pedras no entardecer os cabelos de um homem. No segundo dia a cabeça de um homem. No terceiro dia estava um homem inteiro que se chamava Buri)." T.
No texto do Codex Regius (R) falta a palavra nordica dag ("dia") que muitos tradutores e estudiosos acrescentam (para: "ok hinn fyrsta dag er hon sleiktí steina/E no primeiro dia que ela lambeu as pedras"), mas seu contexto não deixa dúvida que se tratava do primeiro dia. Já no texto do Codex Trajectinus isso não é o caso, o texto dá a entender que foi no primeiro dia, mas na primeira pedra de gelo formada.
O texto de T parece sugerir que a vaca Audhumbla lambeu a primeira pedra de gelo formada no Ginnungagap, isso nos leva a pensar que o deus Buri surgiu primeiro que todos, mas estava soterrado por blocos de gelo formados uns por cima uns dos outros. Desse modo, Ymir emergiu primeiro por estar nas camadas superiores. Isso explicaria os três dias pra liberta-lo por completo do gelo. Outra coisa parece corroborar esta ideia: a etimologia de Buri. O teônimo "Buri" significa "gerador/produtor" (mas também "pai"). Teria Buri se auto gerado nos gelos sozinho e antes de Ymir?
Buri transliterado em runas fica "Berkana", "Uruz", "Raido" e "Isa". Berkana é associada ao nascimento, Uruz é relacionado com auroque e chuva/líquido, Raido é o movimento e Isa é o gelo (mas indica algo, que pode ser um ser, indivíduo), então temos: Nascido (B) pela Vaca (U) movendo (R) o gelo (I) ou Surgido (B) pela água (U) movida (R) do gelo (I). O nome também indica: Gerador (B) do líquido (U) que move (R) o indivíduo (I), que é o sangue ou sêmen que mantém a linhagem e as gerações (algo bem próximo do significado do nome). Ambos significados são possíveis.
O relato descrito no Codex Trajectinus pode ser um erro do copista, porém também pode ser uma versão do mito (o que é comum em religiões antigas).
Buri possui algumas similaridades com o Mitra, que é um importante deus Persa. Mitra nasceu de uma rocha na noite mais fria de inverno (do solstício), e ele era associado ao touro, segundo os mitos. Como vimos, Buri surgiu da pedra de gelo primordial e ele foi libertado do local pela vaca Audhumbla. Outro que é similar é Tuisto que nasceu da terra, segundo Tácito.
Já foi sugerido que Buri era a personificação da terra elevada do mar, e que seu filho Bor seria as montanhas que representava o Cáucaso que era conhecida como Borz pelos Persas.
O mais interessante é que o mito de Ymir, Audhumbla e Buri parece ser um reflexo celestial das constelações de Gêmeos, Touro e Órion no céu. Ymir foi amamentado por Audhumbla por suas quatro tetas que jorravam leite enquanto a vaca lambeu e libertou Buri do gelo. A constelação de Gêmeos e Touro são separados pelos dois pontos cardeais primordiais Sul e Norte com o plano galático nas proximidades (durante período específico do ano) e tendo Órion logo abaixo de Touro. Isso nos faz pensar nas quatro torrentes de leite que alimentou Ymir quando ela libertar Buri. Os 4 Landvættir ("Espíritos da Terra") parecem confirmar a ideia: a constelação de Órion é o Bergrisi ("Gigante da Montanha", gigantes são seres anteriores a criação) e Touro é o Griðungr ("Touro"). Veja a imagem abaixo, print retirado do programa Stellarium visto de Oslo na Noruega no dia 22/05/794. O verão começava entre 19-25 do mês Harpa no antigo calendário Islandês que corresponde à Abril no calendário Gregoriano (e entre 9-15 do Juliano). Lembrando que no Norte as tradições pré-cristãs eram duas estações de seis meses (Inverno e Verão).
Vale ressaltar que essas teorias são apenas suposições, porém interessantes que eu resolvi compartilhar com vocês!
FONTES:
An Icelandic-English Dictionary, Richard Cleasby & M. A. Gudbrand Vigfusson
As Casas dos Deuses no Grímnismál e o Zodíaco I (https://mega.nz/file/xWxShDgK#ZC3ofIueWJlPHl_O34NIu7Cg49wjathJrrxjlgmN2OU) & II (https://mega.nz/file/YbQinZAT#WbzlMDXB5ouhv5_x89xrmceB-MMiokUC4eadBppSSCo), por Marcio Alessandro Moreira
Cassell's Dictionary of Norse Myth and Legend, Andy Orchard
Dictionary of Northern Mythology, Rudolf Simek trad. Angela Hall
Edda, Anthony Faulkes
Icelandic Calendar, Svante Janson
Norse Mythology, a Guide to the Gods, Heroes, Rituals, and Beliefs, John Lindow
Northern Antiquities; or, An historical account of the manners, customs, religion and laws, maritime expeditions and discoveries, language and literature of the ancient Scandinavians, Paul-Henri Mallet
O Número 108 no Grímnismál, Marcio A. Moreira https://mega.nz/file/BaIAECpB#eXPanjZs7Shn5y0UtRivc6k0Ir1QC-UE6sAk0MP3hf0
SITES CONSULTADOS:
https://heimskringla.no/wiki/Edda_Snorra_Sturlusonar
https://heimskringla.no/wiki/Eddukv%C3%A6%C3%B0i
https://newerajournal.com/index.php/newera/article/view/89/87
https://www.ricardocosta.com/traducoes/textos/germania-98-d-c
https://web.archive.org/web/20080105215732/http://www.hi.is/~eybjorn/gg/gg4par06.html















