sexta-feira, 24 de julho de 2026

A divindade solar na idade do bronze escandinavo

 Uma das divindades Nórdicas mais adoradas e representadas na idade do bronze Escandinavo (de cerca de 1800-500 a.C.) é a deidade solar. Fotos de Internet.

 Muito se debate se tal divindade deste período era masculino ou feminino, por causa de sua representação bem simplória na arte rupestre (e as vezes ambígua). Isso porque muita das representações de carruagens de roda solar com condutor nos petroglifos são masculinas embora tenha feminina também. Então, pode se tratar apenas de seres humanos em cenas de batalha ou procissão e não dá divindade em si. Existe a possibilidade dessas representações representarem o deus da tempestade também que era associado ao carro e/ou machado/martelo. A runa *Sowilo era usada para proteção segundo minha interpretação do texto de encantamentos do Hávamál usando o Jovem Futhark (para detalhes, ver: Invocando os Deuses Nórdicos: dos tempos primitivos aos tempos modernos com link pra download abaixo). Mas, há algumas pistas que devem ser levadas em conta como veremos a seguir.

Petróglifo de Östragöinge, Scania, Suécia. A arte rupestre parece representar a divindade solar em seu carro. Pela forma do quadril ondulado parece se tratar de alguém do sexo feminino. 

Petróglifo de Tanum, Suécia. A arte rupestre representa apenas o carro solar e seu corcel.

Petróglifo de Bohuslän, Suécia. A arte rupestre descreve o cavalo celestial puxando o carro com o astro solar passando por cima de um barco.

Petróglifo de Tossene, Suécia. Talvez represente a divindade fálica do raio e da tempestade, mas está danificada (numa mão), mas é possível que também represente um adorador ao julgar pelas mãos levantadas. O veículo possui quatro rodas.

Petróglifo muito interessante de Hogdal, Suécia. A arte rupestre provavelmente representa o carro solar (esquerda) visto do Eykt ou "Octeto" e o carro do dia durante as horas claras durante certos dias (direita). Em algumas regiões da Europa, a luz do dia brilha entre 16 a 24 horas por dia dependendo da estação. O Eykt era usado na contagem das horas do dia. O Eykt representa 8 pontos visto do centro representando a Terra (8 + 1 = 9), enquanto os 15 raios do segundo carro são aproximados das 16 horas de claridade do dia. Lembre-se que estamos falando da idade do bronze aqui, as estrelas estavam ligeiramente em posições diferentes por causa da movimentação da Terra. Porém, está cena provavelmente representa as divindades Sól e Dagr andando no céu.

Petróglifo de Brastad, Suécia. A carruagem aqui é ambígua, pode representar tanto a jornada solar ou talvez o carro do deus do trovão. O carro tem dois animais que se encaram, a cena contém um objeto que lembra um martelo e pés. O simbolismo aqui é parecido com o anterior: as rodas do Sol vistos no Eykt. Já foram encontradas "pedra do raio" da era Viking na Suécia, onde dois bodes são representados se encarando, e se pensa terem sido usados no culto de Thor.

Petróglifo de Boglösa, Suécia. O carro solar parece ser puxado por um ser ambíguo, mas como não é fálico, talvez represente a deusa do Sol.

Machado da idade do bronze Escandinavo encontrado na Dinamarca. As duas espirais unidas no canto formam o símbolo solar.

Petróglifo de Uppland e um ornamento em forma de espiral, ambos da Suécia. Os cavalos parecem puxar o Sol simbolizado pela união das espirais que forma o símbolo solar.

Lápide da tumba de Kivik, Suécia. Provavelmente essa representação simboliza uma procissão solene funerária.

 Nas línguas Germânicas, o Sol é uma palavra feminina, indicando uma deusa já nos primeiros séculos d.C.. O astro solar era conhecido como "Sól" e "Sunna". Na Edda de Snorri, Sól ("Sol") era filha de Mundilfari e irmã de Máni ("Lua", que é uma palavra masculina). Sól é descrita correndo pelo céu impetuosamente tentando escapar do lobo que a persegue, o mesmo ocorre com seu irmão. Curiosamente existem lâminas da idade do bronze Escandinavo confirmando essa narrativa, onde o cavalo que carrega o astro é perseguido por um monstro. O mesmo arquétipo liga as duas versões de tempos diferentes.

Petroglifo situado em Fossum onde vemos o cavalo puxando o Sol, perto de Tanum na Suécia; e o carro de Trundholm encontrado em Odsherred na Dinamarca. As rodas do carro de Trundholm são cruzes solares, que é o símbolo dos 4 pontos cardeais: Norte, Sul, Leste e Oeste. O lado dourado do carro parece indicar o Sol e lado escuro a Lua. A roda solar também aparece representada nos petroglifos Escandinavos.


Lâmina encontrada em Neder Hvolris, Dinamarca. Datado entre 1150-750 a.C.. Note o barco na lateral da lâmina com carranca na proa quase abocanhando o Sol. Isso talvez indique que a carranca da proa era usada com esse propósito: que era "forçar" o Sol a mostrar o caminho aos navegantes.

 O Sol era muito importante para os povos que habitavam a Escandinávia a mais de 3 mil e 800 anos atrás. A roda solar, que é seu símbolo, aparece em inúmeros petroglifos rupestres. As vezes, um animal (geralmente que se parece com um cavalo) é atrelado e puxa a carruagem divina.

 Infelizmente, nada sabemos desta divindade, porque nada escrito sobre ela foi deixado, afinal o povo deste período não tinha um sistema de escrita, eles usavam símbolos. É importante ressaltar que as runas que eram usadas como alfabeto pelos povos Germânicos aparecem na história no 1° século d.C.. Tácito menciona uso de sinais para adivinhação entre os Germânicos do 1° século e recentemente foi achado na Noruega um fragmento de pedra com runas datado entre o ano 1-250 d.C. (a datação por carbono-14 é de entre 50 a.C. à 275 d.C.). Esta inscrição rúnica é a mais antiga encontrada até o momento. Júlio César também menciona a adoração ao astro solar (juntamente com a Lua e o fogo) pelos Germânicos nas guerras da Gália travadas entre 58-50 a.C..

 A divindade solar da idade do bronze Escandinavo estava intimamente ligado ao deus das tempestades. Esse simbolismo parece ter sobrevivido posteriormente: se colocarmos duas runas *Sowilo em posições diferentes, nós teremos um martelo girando no ar. Curiosamente, a suástica é conhecida como "martelo de Thor" num antigo grimório Islandês.

A união de duas runas do Sol formam um martelo em movimento (para maiores detalhes veja As Similaridades entre Þórr, Perkūnas, Indra, Zeus e Júpiter no link abaixo). Vale ressaltar que este símbolo era originalmente associado ao Sol e a luz, só muito depois foi pervertido e corrompido por pessoas tenebrosas com más intenções. Vocês sabem do que se trata, não sejam como ele! Racismo é crime!

 Vale lembrar que os povos da idade do bronze Nórdicos e os povo da era Viking tinham deuses e alguns costumes similares, apontando para uma evolução de costumes. A navegação também era importante para ambos os períodos. 

 Já foi apontado que a Escandinávia era mais quente no período da idade do bronze, porém foi esfriando com o passar o tempo. Desse modo, a importância da divindade solar foi perdendo força.


FONTES:

As Casas dos Deuses no Grímnismál e o Zodíaco (Complemento da Parte 1/Parte II) https://mega.nz/file/YbQinZAT#WbzlMDXB5ouhv5_x89xrmceB-MMiokUC4eadBppSSCo, Marcio A. Moreira 

As Similaridades entre Þórr, Perkūnas, Indra, Zeus e Júpiter https://mega.nz/file/VbxRCKjQ#e0pm2D2LsgwQt54EtqedL4CQ2ylxlJQm7TKeg8PrSk4, Marcio A. Moreira 

Etymological Dictionary of Proto-Germanic, Guus Kroonen

Gods and Myths of Northern Europe, H. R. E. Davidson

Invocando os Deuses Nórdicos: dos tempos primitivos aos tempos modernos, Marcio A. Moreira https://mega.nz/file/8PhAFBzB#QIKcZ8dK7uZDfCNAI-NsTKqpFuoyl1_bQUHUl9TyNxA

Scandinavian Mythology, H. R. E. Davidson 

The Gallic Wars, Julius Cesar trad. W. A. McDevitte e W. S. Bohn

SITES CONSULTADOS:

https://edition.cnn.com/2025/02/22/science/worlds-oldest-rune-stone-norway

https://www.historiskmuseum.no/english/exhibitions/exhibitions-archive/worlds-oldest-rune-stone/

https://www.ricardocosta.com/traducoes/textos/germania-98-d-c 

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